Miguel Martins, da RFI em Paris, com agências
A viagem por quatro países africanos inclui uma etapa inédita na Argélia, anunciou o Vaticano, marcando a primeira vez que um papa visitará o país muçulmano do norte da África.
A passagem por Argel e Annaba está programada para ocorrer de 13 a 15 de abril e carrega forte simbolismo: além de ser um dos maiores países muçulmanos da região, a Argélia é a terra natal de Santo Agostinho, figura central do cristianismo no século V. Leão XIV pertence à ordem agostiniana, fundada no século XIII.
O islã é a religião de Estado na Argélia, mas a Constituição prevê liberdade de culto, condicionada à aprovação oficial das autoridades locais. A visita papal, que deverá abordar o diálogo interreligioso, ocorre trinta anos após a decapitação de sete monges trapistas franceses durante a guerra civil dos anos 1990.
Depois da Argélia, o líder da Igreja Católica seguirá para Camarões (15 a 18 de abril), Angola (18 a 21 de abril) e Guiné Equatorial (21 a 23 de abril). Em Angola, a expectativa é grande. "É um momento de alegria. A visita do Papa é sobretudo pastoral, embora seja igualmente de Estado. O último que passou por aqui foi há 17 anos e o outro há 34", relembra Dom Belmiro Chissengueti, porta-voz da Conferência Episcopal Angola/São Tomé. "Há jovens que nunca o viram, adultos também", acrescentou em entrevista à RFI.
Bento XVI foi o último papa a visitar Angola, um país de maioria católica e entre os primeiros do continente a serem evangelizados pelos europeus. "Este novo papa nesta sua primeira viagem à África escolheu o nosso país. É muita alegria junta!", insistiu Dom Belmiro Chissengueti.
A passagem de Leão XIV por Angola e Camarões deverá incluir apelos à paz e ao diálogo em países que ainda convivem com conflitos separatistas prolongados. Além disso, a Igreja Católica tem enfrentado forte concorrência de movimentos evangélicos nas últimas décadas na região.
Mônaco e Espanha na agenda do pontífice em 2026
Antes do giro africano, o papa fará uma visita de um dia a Mônaco, em 28 de março. Segundo o Vaticano, esta será a primeira viagem papal ao principado na era moderna. Em comunicado, o príncipe Albert II e a princesa Charlene afirmaram que se trata de "um momento histórico para Mônaco e representará um forte sinal de esperança, em um espírito de diálogo, paz e responsabilidade compartilhada".
Em junho, o papa viajará à Espanha entre os dias 6 e 12, em deslocamento já antecipado pelo arcebispo de Madri no início do ano. De acordo com o portal Vatican News, Leão XIV visitará Madri e, em seguida, Barcelona, onde deve inaugurar a nova torre da Basílica da Sagrada Família, instalada em 20 de fevereiro e com 172,5 metros de altura. Os andaimes ao redor da torre serão retirados progressivamente até 10 de junho, quando está prevista a bênção oficial.
A viagem coincide com o centenário da morte de Antoni Gaudí, arquiteto catalão responsável pelo projeto da basílica, declarado "venerável" pela Igreja Católica em 2025 — primeiro passo no caminho para a santidade. O presidente regional da Catalunha, Salvador Illa, comemorou a confirmação da viagem. "Sua visita será uma forma magnífica de celebrar o Ano Gaudí e a conclusão da Torre de Jesus, que coroa a Sagrada Família", escreveu na rede X.
A agenda espanhola também prevê uma passagem pelas Ilhas Canárias, arquipélago próximo à costa da África Ocidental e ponto importante na rota migratória rumo à Europa. Leão XIV, papa americano que assumiu o comando dos 1,4 bilhão de católicos do mundo em maio do ano passado, é um defensor declarado da causa dos migrantes — prioridade que também marcou o pontificado de seu antecessor, o papa Francisco.