Há mais de um mês, os Estados Unidos e Israel realizam uma operação conjunta e de ataque ao Irã, sob a justificativa de interromper um suposto desenvolvimento de armas nucleares na região. A ofensiva até agora resultou na morte de Ali Khamenei, então líder supremo do Irã e pai do atual governante iraniano.
No entanto, a ofensiva que presumia uma mudança de regime rápida e fácil não surtiu o resultado esperado. Logo no começo, a Casa Branca havia previsto de quatro a seis semanas para o fim do conflito, no entanto, Donald Trump declarou na última terça-feira, 31, que esperava que a guerra terminasse em duas ou três semanas. Sem o resultado esperado, é possível dizer que o republicano perdeu?
Os especialistas ouvidos pelo Terra apontam que ainda é cedo para fazer tal afirmação. No entanto, destacam que o Irã tem se saído melhor na disputa travada pelo governo norte-americano e pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.
Quais os interesses dos EUA?
O professor e pesquisador de Relações Internacionais, Ricardo Leães, explica que não há consenso sobre o tema, mas observa, assim como outros especialistas, que, nas últimas décadas, os Estados Unidos passaram a agir, em muitos casos, sob influência de Israel. Segundo ele, há um lobby sionista forte no país, formado por organizações judaicas e cristãs que defendem uma atuação firme em favor do Estado israelense.
“Eles têm uma influência muito significativa no debate público e no debate político”, afirma ao exemplificar o discurso de Trump em janeiro falando sobre o Irã ter mísseis que poderiam atingir o território europeu e o território dos Estados Unidos.
“É uma informação mentirosa. Nesse momento, ele foi aplaudido de pé por diferentes congressistas, inclusive muitos e muitos e muitos democratas. E por que nesse ponto os democratas apoiam o Donald Trump? Por conta da influência do lobby sionista nos EUA”, acrescenta.
“Esse lobby só funciona porque muitas vezes os israelenses conseguem convencer os estadunidenses de que os interesses que eles têm são compartilhados”, complementa.
Segundo Leães, essa convergência percebida ajuda a explicar por que os EUA mantêm apoio consistente a Israel: conflitos armados costumam beneficiar o complexo industrial militar norte-americano e, no caso específico do Oriente Médio, também podem gerar ganhos para o setor petrolífero do país.
“Então, o lobby funciona muito bem porque existem pontos de encontro entre as preferências de Israel e as preferências dos Estados Unidos”, reforça, ao destacar que, sem dúvidas, o maior interessado nessa guerra é o Estado de Israel. “O próprio Netanyahu disse que esse é um projeto de 40 anos da vida dele que finalmente está acontecendo”, explica.
Já para Maurício Santoro, cientista político, professor de relações internacionais e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha, os reais objetivos dessa guerra ainda não estão claros: eles querem promover uma mudança de regime, derrubar a República Islâmica, danificar o programa nuclear iraniano ou, ainda, usar a pressão da guerra para forçar a interrupção do programa nuclear?
Na sua avaliação, tudo permanece muito vago e ambíguo, especialmente porque, até agora, nenhum desses objetivos foi alcançado, nem mesmo parcialmente.
Santoro pondera que, ao contrário do cenário do lado ocidental, a estratégia iraniana é mais definida. “O Irã está tentando se defender, basicamente aumentando o custo econômico global dessa guerra. Fechando o Estreito de Hormuz, pelo menos para navios de alguns países, aumentando o preço internacional do petróleo e dos fertilizantes, atacando uma série de países vizinhos, inclusive alvos que são puramente civis, para causar um dano econômico, para mostrar para esses países que não é do interesse deles que essa guerra continue”, explica.
Mas então, Trump já perdeu a guerra contra o Irã?
Ainda não é possível dizer, mas o caminho pode levar à isso. Santoro ressalta que, embora os ataques tenham resultado na morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, e de outras lideranças iranianas, a extensão real do impacto dessa perda sobre a estrutura política do país ainda não está clara
“O regime está ficando mais militarizado, a guarda revolucionária está ganhando importância. Se, por acaso, o Trump acabasse com a guerra amanhã, eu diria que sim, que ele perdeu a guerra, que não alcançou os objetivos dela, enquanto o Irã conseguiu resistir. Se esse for, de fato, o desfecho, essa resistência iraniana vai ser vendida pelo regime como uma vitória, porque o país conseguiu enfrentar os Estados Unidos e sobreviver para contar a história.”
Leães ressalta que ainda é precipitado afirmar categoricamente que Trump perdeu, mas avalia que há 95% de chances de que isso ocorra no cenário atual. Ele acrescenta, porém, que ainda existe a possibilidade de os EUA conseguirem derrotar o Irã e provocar uma mudança de regime, o que seria interpretado por muitos como uma vitória americana.
Mas, mesmo que isso ocorre, essa seria uma vitória acompanhada de várias outras derrotas para o governo estadunidense. “Os EUA estão dilapidando o seu prestígio junto aos seus aliados. Os países do Golfo Pérsico se sentiram traídos, porque os Estados Unidos estão muito mais preocupados em proteger Israel do que em protegê-los”, aponta, lembrando que Trump retirou baterias antiaéreas do Japão e da Coreia do Sul para realocá-las em Israel, por exemplo.
Irã é o novo Vietnã?
Outro ponto destacado pelo especialista é que, em caso de derrota, os EUA poderiam sofrer um revés ainda maior do que aquele registrado na Guerra do Vietnã, entre 1959 e 1975. Leães explica que, na época, os vietnamitas não tinham capacidade de gerar um impacto econômico global como o Irã consegue atualmente.
“No Vietnã, os Estados Unidos não se queimaram com todos os seus aliados do jeito que estão se queimando agora. Não é possível afirmar que os Estados Unidos perderam a guerra, mas a derrota já se tornou provável, não possível, mas provável. Então, realmente, me parece que é muito, muito, muito provável que os Estados Unidos percam, e que não seja nem uma vitória agridoce”, finaliza.