A OMS avalia que o surto, concentrado na África Central, provavelmente começou "há vários meses". No domingo (17), a organização ativou um alerta sanitário internacional para conter esta 17ª epidemia no país, de mais de 100 milhões de habitantes. As regiões afetadas ficam no leste, região de difícil acesso e marcada pela presença de grupos armados.
"A OMS avaliou o risco epidêmico como elevado nos níveis nacional e regional e baixo no nível global", declarou, em Genebra, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, após reunião de um comitê de emergência. O grupo confirmou que, neste estágio, a epidemia "não atende" aos critérios de uma emergência pandêmica.
Em Bruxelas, a Comissão Europeia afirmou que o risco de infecção na União Europeia é "muito baixo" e que "nada indica" a necessidade de medidas específicas.
Números podem ser muito maiores
A OMS foi alertada sobre uma doença de alta letalidade em 5 de maio. Um estudo publicado na segunda-feira (18) pelo Imperial College de Londres, em colaboração com a OMS, indica que a epidemia no continente africano pode ser bem mais ampla do que apontam os dados oficiais.
Segundo os pesquisadores, o número real de casos estaria entre 400 e 800 e pode ultrapassar mil pessoas — ou seja, até cinco vezes superior aos números inicialmente registrados pelas autoridades. Na terça-feira (19), o ministro da Saúde da República Democrática do Congo, Roger Kamba, citou 543 casos prováveis e 136 mortes suspeitas, com base em buscas ativas no terreno. Enquanto a OMS já contabiliza 139 mortos.
Os autores do estudo destacam que essa estimativa se apoia em duas metodologias independentes. A primeira considera o fluxo diário de cerca de 1.800 pessoas na fronteira entre a República Democrática do Congo e Uganda, a partir da detecção de dois pacientes que viajaram para se tratar em Kampala. A segunda se baseia no número de mortes e em dados de epidemias anteriores da mesma cepa do vírus.
Ambas apontam para uma subnotificação significativa, em um contexto de dificuldades logísticas no leste da República Democrática do Congo, onde problemas de acesso, falhas na cadeia de frio e limitações técnicas em testes laboratoriais podem ter atrasado a identificação da real dimensão do surto.
O ebola provoca uma febre hemorrágica altamente letal, mas é menos contagioso do que doenças como Covid-19 ou sarampo.
Restrições de viagem
A Alemanha anunciou na terça-feira que vai acolher e tratar um médico missionário americano exposto ao vírus na região de Ituri.
Os Estados Unidos reforçaram os controles sanitários para viajantes vindos dos países afetados. Já o Bahrein proibiu, por um mês, a entrada de visitantes dessas regiões.
"Todas as pessoas contactadas e infectadas não devem viajar", recomendou Abdi Rahman Mahamud, da OMS.
"Grande preocupação"
Na terça-feira, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, criticou a lentidão da OMS, afirmando que a organização "demorou um pouco" a identificar o surto.
O diretor-geral da OMS respondeu que pode haver "falta de compreensão" sobre o papel da organização: "Não substituímos o trabalho dos países, nós os apoiamos", disse Tedros Adhanom Ghebreyesus.
Segundo Tedros, o cenário inspira "grande preocupação", devido ao número de casos, à presença do vírus em áreas urbanas, às mortes entre profissionais de saúde e aos deslocamentos populacionais, além da circulação da nova variante Bundibugyo, para a qual não há vacina nem tratamento aprovado.
A prioridade, segundo a OMS, é interromper a cadeia de transmissão com rastreamento de contatos, isolamento e tratamento dos casos suspeitos e confirmados.
RFI com AFP