Duas características do governo Trump sinalizam que há um projeto cada vez mais claro de intervenção nas eleições de Brasil e Colômbia este ano: suas atitudes em relação às instituições e aos princípios da democracia liberal; e sua política de afirmação da América Latina como zona de influência dos Estados Unidos.
Seguindo a tendência global de governos de extrema direita, observamos um processo de destruição das instituições da democracia liberal em diversos países. Há uma vasta literatura hoje sobre o assunto e uma vasta nomenclatura para o fenômeno - de democracias iliberais a autocracias.
A crise de legitimidade da democracia envolve processos de desagregação de instituições como o Judiciário ou a liberdade de imprensa, e a constituição de um discurso e imagem de mundo em que representação política e participação são substituídas por "valores naturais" e "essências da nação". O exercício da crítica se torna inaceitável. Diversas organizações vêm salientando o rápido processo de deterioração da democracia americana.
A despeito da resistência dos movimentos sociais e das Cortes americanas, observa-se uma concentração de poder sem precedentes, desrespeito às leis, arbitrariedade, ataque ao jornalismo e às Universidades e um discurso que transforma a gramática da competição política em conflitos assentados no léxico amigo-inimigo. Além disso, o processo eleitoral é tratado como instrumento a ser manipulado: do acesso às urnas à contagem de votos.
Há nos EUA uma imensa preocupação e mobilização em relação às eleições parlamentares desse ano já que quando perdeu a eleição em 2020 Donald Trump não aceitou o resultado da eleição. Em 2020, o Presidente chegou a pedir que o Secretário de Estado da Georgia "encontrasse" votos suficientes para mudar o resultado das eleições em seu favor. Depois estimulou um ataque violento ao Congresso. Os condenados pelo ataque foram anistiados quando Trump voltou ao poder. O Presidente tem deslegitimado o processo eleitoral de forma sistemática. A expectativa é de que o Immigration and Customs Enforcement (ICE) seja usado como forma de intimidação.
Estratégia para América Latina busca barrar influência chinesa
A política externa norte-americana para a América Latina também vem sendo muito modificada neste segundo mandato de Donald Trump. O documento publicado em dezembro de 2025 - Nova Estratégia de Segurança Nacional - é uma fonte crucial para a compreensão desta mudança. Diante da disputa sistêmica entre Estados Unidos e China e partindo de uma lógica geopolítica em que o conceito de região adquire nova relevância, observa-se uma busca agressiva pela contenção da presença chinesa na região.
A estratégia afirma a preeminência militar norte-americana e busca barrar a influência chinesa em corredores estratégicos, em particular portos, infraestrutura estratégica e na exploração de minerais estratégicos. A política de pressão em relação ao Panamá teve sucesso e abriu a porta para uma expectativa positiva em outros países. A referência à Doutrina Monroe é explicita. O uso da força vem sendo empregado de forma significativa.
Chama atenção o desdobramento naval no Caribe e Pacífico, ataques aéreos a barcos acusados de envolvimento com o tráfego de drogas, o sequestro de Maduro e sua esposa e o bloqueio à Cuba, além de ameaças ao México, Panamá, Colômbia e Brasil. Acordos militares garantem acesso ao território de diversos países como Peru, Equador, Paraguai e Trinidad Tobago. A luta contra o crime organizado é o quadro normativo para essas políticas. Desta forma, a classificação de organizações criminosas como organizações terroristas é a chave para dar ao governo norte-americano maior liberdade para atuar nesse campo.
Trump reforça os líderes da extrema direita e nomeia os inimigos
Devemos ainda notar que o governo Trump faz parte da rede transnacional da extrema direita e busca garantir maior presença possível de lideranças vinculadas a essa rede em governos da região. Ademais o Presidente desenvolve uma política externa centralizada em um grupo pequeno de pessoas leais, além de extremamente personalizada. Dessa forma, dentro da lógica amigo-inimigo que o acompanha, vem demandando alinhamento de governos da região.
O encontro na Florida, Escudo das Américas, ao qual foram convidados 12 líderes latino-americanos à direita do espectro político visou constituir uma coalizão voltada para o combate ao crime organizado, migração e presença chinesa. Lula, Gustavo Petro, da Colômbia, Claudia Sheinbaum, do México, e Gabriel Boric (ainda então presidente do Chile) não foram convidados. A categorização das lideranças latino-americanas de acordo com suas tendências políticas é explícita. Evidentemente posições à esquerda do espectro político são alocadas no campo inimigo.
Em 2 e 3 de junho de 2026, ao depor perante o Comitê de Relações Exteriores do Senado e, no dia seguinte, perante o Comitê de Assuntos Exteriores da Câmara - audiências formalmente dedicadas ao orçamento do Departamento de Estado para o ano fiscal de 2027 -, o Secretário Marco Rubio ofereceu um panorama hemisférico em que a posição dos governos latino-americanos é lida quase inteiramente pela chave da disputa sistêmica com a China e do combate ao que denomina narco-terrorismo.
O depoimento de Rubio, que percorreu Oriente Médio, África, Ásia e América Latina, foi recebido com objeções veementes da bancada democrata. Nele, a região é decomposta em um campo de parceiros (ou amigos) - governos à direita do espectro, dispostos a cooperar em segurança, migração e contenção da presença chinesa - e um campo de inimigos, no qual se inscrevem nominalmente Cuba e, em registro mais matizado, os governos de Lula, Petro e Sheinbaum. A Venezuela, sob a administração interina de Delcy Rodríguez instalada após a captura de Maduro pelas forças norte-americanas em janeiro de 2026, ocupa agora uma posição ambígua, formalmente disposta a cooperar com Washington mas destituída de legitimidade reconhecida.
De fato, o que se apresenta como avaliação técnica de prioridades orçamentárias opera, na prática, como a consagração oficial daquela mesma gramática amigo-inimigo na qual a categorização das lideranças, antes inferida de convites e ausências, é agora enunciada como doutrina diante do Congresso.
Para o caso brasileiro, a relevância é menos o que se diz de Lula - ainda alocado, com cautela, no campo adverso - do que a naturalização de uma régua segundo a qual a posição de cada governo é medida por sua disposição a alinhar-se a Washington na contenção de Pequim e no enquadramento do crime organizado como terrorismo.
O interesse em manter a América Latina como zona de influência, a ausência de compromisso com a democracia e a perspectiva de que a vitória de candidatos alinhados a Washington é prioritária gera um investimento importante nos processos eleitorais na região. Ameaças, extorsão, na forma de ajuda, retirada de apoio econômico ou mudanças em políticas migratórias, vêm sendo empregadas.
A centralidade que a segurança pública tem adquirido em eleições e debates políticos na região vem acompanhada a uma referência ao "modelo Bukele" (referencia ao Presidente de El Salvador e sua política de combate ao crime a partir do desrespeito aos direitos humanos). Esse aspecto vem favorecendo candidatos a direita do espectro político e é um tema explorado pelo governo americano com ofertas de ajuda e a categorização do crime organizado como terrorismo.
Esse enquadramento deixou de ser, no caso brasileiro, mera retórica. Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado, pela voz do Secretário Marco Rubio, designou o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como Specially Designated Global Terrorists, anunciando ainda a intenção de classificá-los como Foreign Terrorist Organizations a partir de 5 de junho. A medida, sob a Ordem Executiva 13224, estende para o Brasil a doutrina já aplicada a oito organizações latino-americanas em fevereiro de 2025 e - não por acaso - foi anunciada dias após encontro de Trump com membros da família Bolsonaro na Casa Branca, em que se pleiteou explicitamente a designação.
Os efeitos sobre o processo eleitoral brasileiro
Os efeitos sobre o processo eleitoral brasileiro operam em dois registros.
No plano simbólico, a designação converte segurança pública, uma das agendas centrais do processo eleitoral, em um campo no qual a referência ao "modelo Bukele" e à mão dura adquire o aval da maior potência do hemisfério, favorecendo as candidaturas à direita do espectro que dela se apropriam.
No plano jurídico-político, ao tratar facções brasileiras como entidades terroristas de alcance transnacional, a medida abre margem para que Washington reivindique, no futuro, prerrogativas de ação que erodem a fronteira entre cooperação e intervenção. Esse é, certamente, um precedente cujo sentido, às vésperas das eleições, dificilmente pode ser considerado como neutro.
A política comercial é o segundo vetor dessa pressão, e talvez o mais revelador da lógica personalista que organiza a ação externa de Trump. Em julho de 2025, o governo norte-americano anunciou tarifa de 50% sobre produtos brasileiros. A justificativa então apresentada se assentava menos em desequilíbrios comerciais, uma vez que o Brasil é um dos poucos países com os quais os Estados Unidos mantêm superavit, do que pelo tratamento dispensado a Jair Bolsonaro, qualificado como "caça às bruxas", e por alegadas ameaças à liberdade de expressão de empresas norte-americanas.
A tarifa, com isenções setoriais, foi em boa parte suspensa ao longo do ano seguinte, pressionada pela inflação de alimentos no mercado interno americano e por decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos que apontou irregularidades no tarifaço global de 2025. Em 1º de junho de 2026, contudo, o Escritório do Representante Comercial recomendou nova tarifa (25%), tecnicamente ancorada na Seção 301 e dirigida, entre outros motivos, contra ordens judiciais brasileiras a plataformas digitais e contra o tratamento regulatório do Pix. A decisão final está prevista para 15 de julho.
O governo americano se envolveu nas eleições hondurenhas em novembro de 2025 endossando Nasry Asfurra. Javier Milei tem recebido apoio e uma ajuda de 20 bilhões de dólares foi anunciada condicionado à vitória das eleições legislativas por parte do grupo apoiando o presidente argentino. O processo eleitoral no Peru (em curso) é de particular interesse tendo em vista a forte presença chinesa no país e o governo americano vem acenando com cooperação militar e investimento em infraestrutura.
Nas próximas semanas, teremos o segundo turno das eleições na Colômbia e, em outubro, no Brasil. O apoio aos integrantes da família Bolsonaro é conhecido, mesmo tendo o governo americano optado por um afastamento tático. E o quadro exposto até aqui nos permite afirmar teremos um percurso com forte presença norte-americana nas eleições do segundo semestre.
O que vemos é uma politica externa para a região baseada no objetivo e na expectativa de amplo controle por parte de um governo destruidor de suas próprias instituições democráticas. Isso demanda que vigiemos e busquemos coalizões internacionais e locais de apoio ao processo democrático para demandar respeito à soberania popular.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.