Haitianos nos EUA temem deportações e Haiti teme retorno em massa

9 jul 2026 - 12h35

EUA revogam proteção a imigrantes haitianos e abrem caminho para deportações. Retorno em massa pode pressionar ainda mais a economia em crise da ilha caribenha, que ainda arrisca perder remessas de expatriados."Não viaje para o Haiti", adverte o Departamento de Estado americano a seus cidadãos, por meio de um alerta vermelho máximo, de nível 4, justificado por "sequestros, criminalidade, atividades terroristas, distúrbios civis e atendimento médico limitado".

O mesmo governo, no entanto, trabalha para que cidadãos haitianos deixem os Estados Unidos e voltem para o país caribenho. A Suprema Corte dos Estados Unidos decidiu, em junho, a favor da gestão Donald Trump e pela revogação do Status de Proteção Temporária (TPS, na sigla em inglês) de cerca de 350 mil cidadãos haitianos que residiam legalmente no país. Com isso, eles correm o risco iminente de serem deportados.

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Eles se somam aos mais de 200 mil haitianos que tiveram seus vistos humanitários cancelados em 2025. Ambos os programas migratórios foram adotados e prorrogados após um forte terremoto, furacões, surtos recorrentes de cólera e sucessivas crises humanitárias, políticas, econômicas e de segurança no Haiti.

Como vivem os haitianos nos Estados Unidos?

"As comunidades haitianas nos EUA estão em pânico", afirma à DW Jocelyn McCalla, diretor-executivo da Fundação Haitiano-Americana para a Democracia. "Elas temem o futuro sob as políticas do governo Trump para livrar a nação dos imigrantes negros e mestiços."

Ele explica que qualquer família haitiana nos Estados Unidos inclui cidadãos americanos, residentes permanentes legais, refugiados em busca de asilo e pessoas que receberam proteção temporária até a decisão judicial de seus casos.

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"Quase todos são vulneráveis às políticas arbitrárias do atual governo, que prioriza a detenção em massa de pessoas para deportação imediata, independentemente de seu status legal e dos direitos que ele possa lhes conferir", afirma.

Os haitianos trabalham em setores essenciais, como saúde, hotelaria, serviços e agroindústria, especialmente na Flórida, onde contribuem com 2,6 bilhões de dólares anuais (cerca de R$ 13,4 bilhões) para a economia, segundo um relatório recente da Human Rights Watch.

Ainda assim, hoje tentam passar despercebidos, chegando até mesmo a deixar de gerar renda porque "os empregadores estão confusos" sobre como a decisão da Suprema Corte afeta as permissões de trabalho, alerta McCalla.

O Haiti pode absorver milhares de retornados?

"O Haiti não está em condições de receber os haitianos repatriados do exterior, sejam dos Estados Unidos, da República Dominicana, das Bahamas ou das Ilhas Turcas e Caicos", insiste o veterano ativista haitiano-americano.

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Os números das agências humanitárias internacionais confirmam essa avaliação: 1,5 milhão de deslocados internos, mais da metade da população vivendo em "insegurança alimentar aguda", mais de 8.200 assassinatos entre janeiro de 2025 e março de 2026 e grupos criminosos controlando 90% da capital, Porto Príncipe.

"A consequência imediata, como ocorreu com as deportações de mais de 250 mil haitianos da República Dominicana nos últimos dois anos, é o aumento da pressão econômica e sobre a força de trabalho do país", explica à DW Manuel Orozco, diretor do Programa de Migração, Remessas e Desenvolvimento do centro de estudos Diálogo Interamericano.

Segundo o especialista, em 2025 o Haiti já contava com uma força de trabalho de 5,3 milhões de pessoas, ampliada por mais de 100 mil deportados naquele ano.

Desse total, 47% eram mulheres e quase todos sobreviviam graças à economia informal, com renda inferior a 2.500 dólares por ano (cerca de R$ 12,9 mil). A população tem forte dependência de remessas vindas do exterior, que somaram quase 5 bilhões de dólares (R$ 25,7 bilhões) em 2025. Mais de 62% desse montante veio dos EUA, segundo o Banco da República do Haiti.

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Nesse contexto de retração econômica sistemática, os deportados ampliam o contingente de pessoas que precisam de empregos inexistentes. Isso aumenta a pressão sobre famílias que já dispõem de recursos limitados e reforça a dependência das remessas enviadas por quem ainda vive no exterior, além de elevar a demanda por moradia, alimentação, transporte, saúde e outros serviços básicos já em colapso.

A economia haitiana pode prescindir das remessas?

"A deportação representa a perda de um importante sustento econômico para as famílias haitianas, que dependem parcialmente das remessas para complementar sua renda", alerta McCalla.

"A diáspora é crucial para sustentar as famílias haitianas e evitar que afundem ainda mais na pobreza. As remessas não são, infelizmente, o motor do desenvolvimento econômico", reconhece. Mas elas "mantêm viva a esperança".

"De forma geral, as remessas para o Haiti sustentam as necessidades básicas da economia: alimentação, saúde, moradia e, para aqueles que conseguem, educação. É preciso lembrar que, no Haiti, o sistema público de ensino praticamente não existe, e o privado é bastante disfuncional e depende de doações ou contribuições limitadas", descreve Orozco.

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A questão das remessas, que devem representar 17% do PIB haitiano em 2026, "não é apenas uma questão de volume agregado, mas também do número de famílias beneficiadas, que em 2025 correspondem a pelo menos 40% do total", destaca o especialista.

Ele ressalta ainda que "os haitianos nos Estados Unidos sentem a pressão de apoiar suas famílias em meio às dificuldades econômicas do país e ao temor de serem deportados, por isso tentam fazer um esforço ainda maior".

Quão alto é o risco de deportação? Há alternativas?

Apesar de o medo das expulsões ser real, a deportação iminente de haitianos depende de vários fatores, entre eles a prioridade dada à retirada do país de pessoas que já tenham ordem definitiva de deportação.

No caso do Haiti, levando em conta esses números, "o risco é menor do que para outras nacionalidades", afirma Orozco.

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Os migrantes com maior número de ordens de deportação emitidas vêm de países como Guatemala, Honduras, El Salvador e México, embora o TPS permaneça em vigor para os salvadorenhos, explica o o cientista político nicaraguense-americano.

De qualquer forma, o medo e o risco de deportação para os haitianos beneficiários do TPS são reais, e as opções de negociação são limitadas.

Especialistas enumeram algumas possibilidades, mesmo que difíceis de serem alcançadas: organizar e reunir apoio da sociedade civil e do meio político para pressionar o governo Trump a reverter a decisão; negociar uma moratória de um ano na suspensão do TPS; buscar um programa de vistos temporários de trabalho, como H-2B e H-2A; obter maioria suficiente no Congresso para aprovar uma nova política; promover investimentos e programas de desenvolvimento no Haiti.

Para promover novas políticas, Jocelyn McCalla convida imigrantes de diversas nacionalidades a se unir, já que "muitos outros também enfrentam a ira do governo Trump".

Caso contrário, prevê o diretor-executivo da Fundação Haitiano-Americana para a Democracia, restaria a opção de viver na clandestinidade ou migrar para países como Canadá ou México, "onde talvez ainda exista alguma compaixão pelos imigrantes haitianos".

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