Os indícios de um possível confronto militar entre Estados Unidos e Irã já vinham se delineando anteriormente, a partir de uma escalada gradual de tensões políticas, retóricas e estratégicas entre ambos os países. A Conferência de Segurança de Munique de 2026, realizada entre 13 e 15 de fevereiro de 2026 — tornou esse ambiente mais perceptível ao expor um padrão em consolidação nas relações internacionais. Trata-se de uma transição em que os esforços de coordenação institucional perderam terreno para a coerção e para a barganha com plateia.
A Conferência de Munique não é uma cúpula decisória nem um organismo internacional que delibera políticas. É um fórum anual de alto nível, no qual chefes de governo, chanceleres, ministros da Defesa, militares, diplomatas e analistas se reúnem para sinalizar posições, testar linhas vermelhas, medir disposições de escalada e, sobretudo, operar sob visibilidade máxima — com plateias domésticas e aliados acompanhando cada frase. O peso do evento não está em produzir acordos formais, mas em condensar, em poucos dias, o jogo de percepção, credibilidade e cálculo de risco que costuma anteceder crises reais.
Nesta edição, a Conferência tornou-se um marco simbólico de uma mudança em curso. O encontro evidenciou um ambiente internacional no qual a pressão estratégica explícita, os prazos políticos curtos e o uso direto da força como instrumento de barganha passaram a substituir gradualmente mecanismos institucionais consolidados de coordenação. Dias depois, essa tendência deixou o plano discursivo e materializou-se no Golfo com o início da guerra entre Estados Unidos/Israel e Irã.
Enquanto líderes europeus reiteravam a importância da previsibilidade institucional e do fortalecimento de capacidades de defesa, a crise entre Washington e Teerã evoluía para confronto direto. A mobilização naval americana no Golfo e a fixação pública de exigências para um novo acordo nuclear indicavam que a diplomacia operava sob visibilidade máxima e elevado custo político de recuo.
Quando os ataques coordenados de Estados Unidos e Israel contra alvos estratégicos iranianos foram seguidos por retaliações iranianas contra bases militares americanas e também contra áreas civis e infraestrutura sensível, o ciclo de pressão transformou-se em guerra aberta.
Essa sequência indica que a crise não foi impulsionada apenas por intenções explicitamente declaradas, mas também por objetivos implícitos e por leituras divergentes sobre custos, limites e disposição para escalar. O problema central não residia necessariamente em um desejo manifesto de guerra, mas na forma como cada lado interpretou os sinais enviados pelo outro e atribuiu significado estratégico a eles.
Percepção estratégica e descompasso temporal
O cientista político norte-americano Robert Jervis demonstrou que crises internacionais frequentemente decorrem de erros de percepção. Estados não respondem apenas às capacidades materiais do adversário, mas às crenças que constroem sobre suas intenções e seus limites. Quando convicções prévias filtram novas informações, decisões que parecem racionais internamente podem produzir resultados estratégicos desastrosos.
Antes do início dos ataques, parte da liderança iraniana interpretava a mobilização militar americana como instrumento de pressão negociadora, não como decisão definitiva de escalada. Em Teerã, consolidou-se a leitura de que Washington enfrentaria restrições domésticas e evitaria sustentar um conflito prolongado. Essa hipótese reduziu o incentivo para concessões rápidas.
Essa dinâmica corresponde ao que Jervis denominou percepção seletiva. Se a imagem consolidada é a de que o adversário evita riscos elevados, sinais concretos de mobilização militar podem ser tratados como encenação estratégica. O problema é que crenças arraigadas costumam ser revisadas apenas quando os fatos já impõem custos irreversíveis.
A análise do cientista político iraniano-americano Vali Nasr, da Johns Hopkins University, acrescenta outra camada à análise. Após a guerra de doze dias em 2025, setores iranianos passaram a considerar o conflito como administrável. Se a guerra é percebida como suportável — ou até funcional para consolidar coesão interna — o incentivo para concessões diminui. Essa percepção reduziu o espaço de compromisso exatamente no momento em que a pressão americana se intensificava.
Paralelamente, a administração americana operava sob lógica distinta da que prevaleceu em 2015. As demandas ampliaram o escopo da negociação para além do programa nuclear, incluindo mísseis balísticos e atuação regional do Irã. Para Teerã, aceitar tais termos significaria reduzir sua arquitetura de dissuasão. A negociação deixou de ser técnica e passou a envolver questões percebidas como estruturais para a sobrevivência do regime.
Essa assimetria produziu o que Ali Hashem, jornalista e analista especializado em Oriente Médio denomina, na Foreign Policy, "velocity gap". Washington opera sob lógica de compressão do tempo: estabelecia prazos públicos e buscava resultados rápidos e visíveis. Teerã trabalhava sob horizonte mais prolongado, apostando na resiliência e na administração gradual da crise. Quando os relógios estratégicos não coincidem, o risco de erro aumenta. A escalada pode emergir não de decisão deliberada de guerra total, mas do descompasso entre ritmos estratégicos incompatíveis.
Credibilidade, coerção e risco de escalada regional
Novamente, do lado americano, a estratégia baseava-se na necessidade de credibilidade. Como argumentava o economista e estrategista norte-americano Thomas Schelling, a coerção só é eficaz se o adversário acreditar que a ameaça será executada. Ao tornar exigências públicas e mobilizar forças militares, Washington elevou o custo político de recuar. Diante da ausência de concessões nos termos esperados, a lógica da credibilidade empurrou a crise para o uso efetivo da força.
Essa dinâmica criou um dilema estrutural. Se os Estados Unidos não agissem, poderiam sofrer perda de reputação estratégica. Ao agir, abriram espaço para retaliação e ampliação do conflito. A resposta iraniana, ao atingir bases militares e também áreas civis e infraestrutura estratégica, ampliou o alcance político da guerra e elevou a pressão por novas respostas.
O risco mais sensível reside na convicção, possivelmente equivocada, de que a guerra pode ser mantida dentro de limites previsíveis. Quando ambos os lados acreditam que conseguem administrar a escalada, a probabilidade de ultrapassar esses limites aumenta. Conflitos raramente seguem o roteiro inicialmente planejado por seus iniciadores.
A Europa, por sua vez, permanece estruturalmente vulnerável aos desdobramentos dessa dinâmica. Mesmo defendendo maior autonomia estratégica, continua dependente da capacidade militar americana para administrar crises de alta intensidade fora de seu entorno imediato. A instabilidade no Golfo, especialmente diante das restrições à navegação no Estreito de Ormuz, afeta diretamente o abastecimento energético e os mercados globais. O impacto econômico ultrapassa rapidamente o teatro militar.
A crise atual transcende a questão nuclear. Ela expressa um ambiente internacional no qual uso da força, sanções unilaterais e mobilização militar tornaram-se instrumentos recorrentes de negociação. A guerra de doze dias em 2025 já havia demonstrado que negociações em andamento não impedem escaladas abruptas. Em 2026, essa lógica consolidou-se: diplomacia e conflito passaram a coexistir sob tensão permanente.
A Convenção de Munique refletiu uma ordem global em transformação estrutural — ainda que não tenha sido o primeiro nem o último marco desse processo mais amplo de reconfiguração do sistema de poder, caracterizado por alterações na distribuição de forças entre as grandes potências e pelo significativo enfraquecimento do Direito Internacional como instrumento capaz de sustentar a estabilidade e conter revisões unilaterais da ordem vigente.
O autor é Coordenador do Núcleo de Geopolítica da think tank brasileira Observa China, que não possui fins lucrativos e não é patrocinada por qualquer órgão político ou representativo da China.