Aumento do custo de anuidades para estudantes universitários de fora da União Europeia gerou onda de protestos na França, que cobrava mesmo valor de todos os alunos no ensino superior. Prática varia entre países europeusO anúncio do plano de aumentar drasticamente o valor das taxas pagas por estudantes estrangeiros não europeus na França desencadeou protestos e trouxe à tona os problemas no setor de educação enfrentados pelo país.
O programa "Escolha a França para Educação Superior", anunciado inicialmente em abril, pretende eliminar um dispositivo que permitia às universidades francesas equiparar as anuidades de estudantes de fora da União Europeia às de cidadãos europeus
Como resultado, a grande maioria dos estudantes não pertencentes à UE que ingressarem na França no ano acadêmico de 2026/27 terá de pagar anuidades de cerca de 2.895 euros (aproximadamente R$ 15,9 mil) para cursos de graduação e de 3.941 euros (cerca de R$ 21,7 mil) para mestrado. Trata-se de um aumento de até 16 vezes em relação aos valores praticados anteriormente. A medida deve gerar um acréscimo de 250 milhões de euros por ano (cerca de R$ 1,38 bilhão) para as universidades.
"A proposta representa um passo alarmante no que diz respeito ao compromisso com o acesso equitativo ao ensino superior. Ao aumentar significativamente as mensalidades para estudantes de fora da UE, o governo francês corre o risco de institucionalizar um sistema em que o acesso à educação é cada vez mais determinado pela nacionalidade e pela capacidade financeira", afirmou, em comunicado, a União Europeia de Estudantes e a Federação de Associações Gerais de Estudantes da França.
A reação reflete a visão historicamente predominante na França de que a educação deve ser acessível a todos. No entanto, com universidades sob crescente pressão e estudantes mais inclinados a buscar cursos fora de seus países, o professor Christian Gollier, da Escola de Economia de Toulouse, argumenta que mudanças são necessárias.
Moral versus dinheiro
"Dado o estado das nossas finanças públicas, a gratuidade do ensino elimina a única opção real de financiar salários competitivos para professores e pesquisadores", escreveu Gollier em um relatório sobre o futuro das universidades europeias divulgado nesta semana pelo King's College, de Londres.
"Quem está ciente de que, hoje, na França, jovens docentes, após acumularem dez anos de ensino superior mais alguns anos de pós-doutorado, enfrentam um salário anual bruto de cerca de 30 mil euros (aproximadamente R$ 165 mil), enquanto as melhores universidades do mundo podem oferecer de cinco a dez vezes mais para recrutar os mais promissores entre eles?"
A França não é o único país a enfrentar dificuldades para financiar suas universidades, e estudantes internacionais frequentemente estão no centro desse debate. Em alguns países europeus, mensalidades mais altas para estrangeiros ajudam a subsidiar vagas mais baratas para estudantes locais; em outros, há preocupação de que alunos formados na UE que passem a pagar impostos em outros países representem baixo retorno para o investimento feito na educação.
Um exemplo é a Holanda. Lá, o custo de uma graduação para estudantes da UE gira em torno de 2.500 euros (cerca de R$ 13,8 mil), enquanto estrangeiros pagam entre 13 mil e 32 mil euros (aproximadamente entre R$ 71,5 mil e R$ 176 mil), dependendo do curso. Um relatório do King's College constatou que 57% dos estudantes internacionais permanecem no país um ano após a graduação, mas esse número cai para cerca de 25% após cinco anos. O estudo também mostrou que estudantes internacionais tendem a permanecer mais do que os oriundos de outros países da UE.
Como resposta, o governo holandês passou a priorizar cursos ministrados em holandês, em vez de inglês, e a limitar a criação de novas graduações em língua inglesa. A medida levou a uma redução de quase 5% no número de estudantes internacionais no ano letivo de 2025/26 em comparação com o ano anterior.
Reino Unido leva vantagem na Europa
Em contraste com grande parte da Europa, o Reino Unido cobra taxas específicas a estudantes internacionais desde 1981. O país conta com a vantagem da língua inglesa, muito difundida em todo o mundo, na atração de alunos estrangeiros.
Apesar de o Brexit ter reduzido o número de estudantes da UE, o Reino Unido continua sendo o principal destino europeu para alunos de fora do continente. Um estudo de 2023 da consultoria London Economics estimou os benefícios líquidos desses estudantes em 43 bilhões de euros (cerca de R$ 236,5 bilhões).
Atualmente, estudantes internacionais representam 23% do total nas universidades do Reino Unido, embora esse número esteja em queda. As mensalidades podem chegar a 44 mil euros (aproximadamente R$ 242 mil), enquanto as taxas para estudantes britânicos são limitadas a 11,3 mil euros por ano (cerca de R$ 62 mil). Os valores variam conforme o país dentro do Reino Unido e o curso escolhido.
Caminho diferente na Suíça
A Suíça, que não integra a UE, seguiu direção oposta. Com base em um acordo bilateral firmado em dezembro de 2024 com o bloco europeu, as mensalidades para estudantes estrangeiros e locais serão equiparadas, reduzindo os custos para internacionais.
"A Suíça tratará estudantes da UE e suíços da mesma forma no que diz respeito às taxas de ensino e demais encargos ligados aos estudos na maioria das universidades públicas", informou a Comissão Europeia. Os valores variam conforme a instituição, mas costumam girar em torno de 800 euros por semestre (cerca de R$ 4,4 mil).
Falta de política comum na UE
De volta à União Europeia, a ampla difusão do espanhol tornou a Espanha um destino cada vez mais popular. Dados da consultoria Icef Monitor indicam que o país recebeu 10 mil estudantes estrangeiros a mais em 2023/24 do que no ano anterior, uma alta de 6,5%. Nas universidades públicas, cursos de graduação para alunos da UE começam em cerca de 2.100 euros (aproximadamente R$ 11,5 mil) e podem chegar a 5.000 euros (cerca de R$ 27,5 mil), com taxas definidas por cada instituição. Estudantes internacionais, em geral, pagam um pouco mais, embora nem sempre.
Portugal também registra crescimento expressivo no número de estudantes estrangeiros: o total mais que dobrou - de 20 mil, em 2015, para 42 mil em 2024. Cerca de metade vem de países de língua portuguesa, principalmente do Brasil. As anuidades para alunos da UE ficam entre 500 e 700 euros (cerca de R$ 2,7 mil a R$ 3,8 mil), enquanto estudantes internacionais pagam a partir de 2.500 euros (aproximadamente R$ 13,8 mil).
Na Alemanha, as taxas são ainda mais baixas. A maioria das universidades públicas cobra entre 200 e 500 euros por semestre (aproximadamente entre R$ 1,1 mil e R$ 2,7 mil), independentemente da origem do estudante, embora instituições privadas possam cobrar valores mais elevados. Como em outros países, estudantes internacionais precisam pagar taxas de visto, mas o país segue sendo uma das opções mais baratas da Europa para obter um diploma.
Vários outros países europeus oferecem educação gratuita ou com custos reduzidos para cidadãos da UE, incluindo Áustria, Croácia, Irlanda, Grécia e Suécia. Nesses casos, as mensalidades para estrangeiros variam muito. Suécia e Irlanda, por exemplo, podem cobrar mais de 10 mil euros por ano (cerca de R$ 55 mil), enquanto a taxa na Áustria fica em torno de 700 euros por semestre (aproximadamente R$ 3,8 mil). Na Grécia e na Croácia, esses valores podem ultrapassar 1.000 euros por ano.