A imprensa europeia destacou a fuga de Flávio Bolsonaro do Brasil rumo aos Estados Unidos após sua derrota eleitoral. Periódicos internacionais associam a saída do senador ao término iminente de sua imunidade parlamentar e ao avanço de investigações por corrupção e lavagem de dinheiro. Donald Trump sinalizou conceder asilo político ao parlamentar, fato que deve agravar as tensões diplomáticas com o governo brasileiro, em meio a divisões e desgaste político no próprio campo conservador do país.
A fuga do candidato derrotado nas eleições Flávio Bolsonaro do Brasil é destaque nos sites de notícias europeus nesta quarta-feira (28/10). As reportagens detalham o roteiro da saída do senador do país, associam o episódio às investigações que pesam contra ele e lembram fugas de outros membros do clã.
Na Alemanha, o site da revista Der Spiegel, em uma reportagem intitulada O verdadeiro motivo para a fuga de Bolsonaro, afirma que o episódio é um presente para Lula ao enfraquecer o clã Bolsonaro e dividir a direita brasileira.
"Em fevereiro termina o mandato de Flávio como senador, e então ele perderá a imunidade parlamentar. Esse provavelmente é o verdadeiro motivo de sua fuga. O político é alvo de duas investigações por lavagem de dinheiro e corrupção", afirma a revista. O texto afirma ainda que a operação também é uma "espécie de reunião familiar", citando que o irmão de Flávio, Eduardo também fugiu para os EUA.
A reportagem lembra ainda o episódio da ida de Jair Bolsonaro aos EUA, após a vitória de Lula nas eleições de 2022, temendo a Justiça brasileira. "Se seu amigo Donald Trump estivesse no poder naquela época, ele provavelmente ainda hoje viveria em Orlando, e não estaria em prisão domiciliar em Brasília como um golpista fracassado condenado. Mas o governo do então presidente Joe Biden deixou claro que não concederia asilo a Bolsonaro", destaca.
O jornal conservador alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung (FAZ) narra a história da "complicada fuga de Flávio para a América de Trump", destacando que o presidente republicano quer admiti-lo nos EUA, "mas para isso ele [Flávio Bolsonaro] precisa primeiro chegar lá". O periódico lembra que o senador é alvo de duas investigações no Brasil
"A fuga provocou inquietação no PL. A cúpula da legenda, que na segunda-feira havia reconhecido a vitória eleitoral de Lula e pretendia confiar a Bolsonaro a liderança da oposição, aparentemente não havia sido informada da decisão. Integrantes do círculo próximo do ex-presidente afirmam que ele pretende solicitar asilo político nos Estados Unidos e, de lá, liderar a oposição. No entanto, o campo conservador vem se distanciando cada vez mais de Bolsonaro e considera que chegou o momento de questionar a pretensão da família Bolsonaro de liderar esse grupo político", diz o FAZ.
A fuga também é destaque no jornal Süddeutsche Zeitung (SZ) que cita as investigações contra Flávio e lembra que, com a derrota na eleição, ele ficaria sem mandato na política pela primeira vez em 24 anos. "A pressão sob Flávio aumentou no Brasil. Ao deixar de ser senador, ele ficou menos protegido de processos criminais. Ele está sendo investigado no atual maior escândalo de corrupção do Brasil, que foi revelado no ano passado com a quebra do Banco Master."
Casos de corrupção
Na França, o diário Le Monde noticia que "o candidato da extrema direita, envolvido em vários casos de corrupção e intimado pela Justiça brasileira a entregar seus passaportes, deixou o país rumo ao Equador, após cruzar a fronteira terrestre com a Argentina". O texto acrescenta que, "para estupefação geral", a fuga se deu "apenas dois dias" após sua derrota na eleição presidencial.
"Uma fonte anônima do governo brasileiro procurou, no entanto, tranquilizar os interlocutores. 'Não vamos romper as relações com os Estados Unidos, é exatamente isso que eles [o clã Bolsonaro] querem', afirma, lembrando que o governo já precisou lidar com episódios semelhantes. Após sua derrota para Lula em 2022, Jair Bolsonaro passou três meses na Flórida e teria considerado fugir para a Hungria e a Argentina antes de retornar ao Brasil. Washington também recebeu de braços abertos o ex-chefe da inteligência brasileira, Alexandre Ramagem, poucos dias antes de sua condenação, em setembro de 2025, a 16 anos de prisão pela tentativa de golpe de Estado contra Lula", afirma o jornal francês.
Já o jornal espanhol El País publica texto intitulado A fuga de Flávio: do Brasil à Argentina para viajar aos EUA, após fazer escala no Equador, no qual relata que Flávio Bolsonaro "saiu de seu país para evitar uma investigação por lavagem de dinheiro" e que Trump diz que aceita acolhê-lo nos EUA.
"Não está claro o paradeiro do filho do ex-presidente golpista Jair Bolsonaro. A Flórida é considerado um destino provável, mas seu irmão, o ex-deputado Eduardo, vive no Texas, por isso também se suspeita que ele pode ter ido para lá", escreve o El País.
Cidadania italiana
O jornal britânico Financial Times também relembra as investigações contra Flávio e avalia que a presença do senador no EUA "provavelmente agravará as já tensas relações entre Brasília e Washington. Um aliado afirmou que sua esposa e suas duas filhas também deixaram o Brasil".
"O governo Trump, que ainda não reconheceu formalmente a vitória de Lula, anunciou na terça-feira que concederia um visto a Flávio, cujo pai, Jair Bolsonaro, foi aliado do presidente republicano durante seu mandato", afirma o texto.
O também britânico The Guardian também dá destaque ao episódio e aponta que o senador possui a cidadania italiana.
"Um ministro do Supremo Tribunal Federal cancelou o passaporte de Flávio poucos minutos após a divulgação do resultado eleitoral, em uma decisão relacionada a um processo criminal contra o senador. Ele tinha até as 11h para entregar o documento à Polícia Federal, mas não compareceu. Flávio possui cidadania italiana desde 2023 e, segundo relatos, também tem um passaporte emitido pelo país europeu", diz.
as/cn (OTS)
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