Alerta: o texto abaixo aborda temas sensíveis como violência contra a mulher, violência doméstica e estupro. Se você se identifica ou conhece alguém que está passando por esse tipo de problema, ligue 180 e denuncie.
O deputado estadual Guilherme Cortez (PSOL) e o mandato coletivo da Bancada Feminista (PSOL) acionaram o Ministério Público Federal para pedir a instauração de inquérito no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) sobre um jogo de computador inspirado no caso Epstein.
A representação, à qual o Estadão teve acesso, solicita a apuração de eventual violação dos direitos humanos, responsabilidade institucional no caso, existência de protocolos de prevenção e enfrentamento à violência de gênero, análise do projeto acadêmico e adoção das providências cabíveis.
Os parlamentares também pedem que o ITA faça parte do Pacto Nacional pelo Enfrentamento à Violência de Gênero no Ambiente Universitário, iniciativa que visa acolher e combater a violência de gênero no ambiente acadêmico.
A decisão surgiu após um grupo de alunos do curso de Engenharia de Computação do ITA apresentar na última quarta-feira, 11, um projeto de jogo de computador em sala de aula envolvendo o financista americano Jeffrey Epstein, acusado de liderar uma rede de exploração e tráfico sexual de menores de idade.
O jogo simulava situações de perseguição contra uma personagem feminina de 15 anos sequestrada, mantida em uma ilha por seis homens e obrigada a fugir.
"Nossas instituições públicas de ensino precisam desenvolver tecnologias para resolver os problemas da sociedade e não aprofundá-los", disse o autor da denúncia, Guilherme Cortez, ao Estadão.
Para Cortez, os meninos hoje estão sendo expostos, através das redes sociais, a "ideias de reafirmação do ódio às mulheres", o que fica evidente por uma escalada nos casos de violência de gênero.
O deputado afirma ser defensor da liberdade de ensino, conforme estabelece a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), mas isso "não pode significar o direito de fazer apologia ao crime", diz.
O que diz o ITA?
Anteriormente, a instituição afirmou que o tema específico "foi imediatamente descartado após ser identificado como inapropriado" e que o caso "está sendo tratado de forma célere e responsável, dentro das normas vigentes".
"Ações de conscientização serão reforçadas junto à comunidade discente por meio do Grupo de Trabalho de Equidade de Gênero e demais órgãos da estrutura administrativa e acadêmica do Instituto", informou o instituto.
A atividade fazia parte de uma aula voltada à concepção de jogos interativos, com o objetivo de desenvolver habilidades de programação e estruturação de código, esclareceu a Força Aérea Brasileira (FAB), por meio do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA).
De acordo com o órgão, os estudantes foram convidados a apresentar propostas iniciais de temas a serem trabalhados ao longo do bimestre, exclusivamente no âmbito acadêmico.
A Associação dos Engenheiros do ITA (AEITA), o Centro Acadêmico Santos Dumont (Casd) e a Associação Atlética Acadêmica do ITA publicaram notas de repúdio ao episódio, afirmando que é inaceitável tratar com banalidade a violência sexual. Segundo as entidades, a atitude não reflete os valores da instituição.
Em meio às manifestações de repúdio, alunas e ex-alunas comentaram que o episódio não seria isolado. Segundo relatos, situações semelhantes já teriam ocorrido outras vezes sem mudanças efetivas. Algumas alunas relataram receio quanto à própria segurança dentro da instituição.