A cada novo relatório internacional, o Brasil vê crescer um problema que já deixou de ser apenas de saúde e passou a afetar diretamente o cotidiano escolar: a obesidade infantil. Segundo o Atlas Mundial da Obesidade 2026, 38% das crianças e jovens entre 5 e 19 anos no país estão acima do peso, quase o dobro da média global, e as projeções apontam que metade dessa população estará com sobrepeso ou obesidade até 2040. O cenário é alarmante e afeta o desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, configurando uma epidemia que se manifesta cedo e tende a permanecer ao longo da vida.
Na semana passada, o mundo celebrou o Dia Mundial da Obesidade, uma data criada para reforçar a urgência desse debate que, no Brasil, ganha ainda mais relevância diante do avanço acelerado dos índices entre crianças e jovens. Mais do que chamar atenção para números, a data reacende a necessidade de olhar para os múltiplos fatores que moldam os hábitos infantis hoje, especialmente aqueles ligados à atenção, ao comportamento digital e ao contexto escolar.
Em tempos em que a disputa pelo tempo das crianças se tornou central, a chamada economia da atenção, conceito em destaque nos estudos sobre comportamento digital, mostra como plataformas competem ferozmente pelo foco infantil, moldando hábitos e influenciando escolhas. Como observa a colunista Anny Meisler, na revista Crescer, as telas têm ocupado espaços antes destinados ao brincar, ao convívio e ao simples ócio; muitos pais relatam que seus filhos passam mais horas conectados do que ao ar livre, demonstrando ansiedade quando privados de jogos e vídeos. Nesse ambiente, somado à oferta crescente de ultraprocessados, cria-se um terreno fértil para práticas que prejudicam a saúde e, de maneira muito direta, também o aprendizado.
Pesquisas recentes reforçam essa ligação: o tempo prolongado em frente às telas está associado ao sedentarismo, ao aumento do consumo de lanches rápidos e ao comprometimento do sono – fatores que, combinados, elevam o risco de ganho de peso. Revisões integrativas apontam ainda relações com puberdade precoce e comorbidades psicológicas. Um dado especialmente preocupante é que mesmo crianças fisicamente ativas apresentam probabilidade maior de ter IMC elevado quando expostas a muitas horas de tela, evidenciando que o problema vai além da simples falta de movimento.
Os impactos ultrapassam a saúde física. O excesso de peso e a exposição prolongada a dispositivos digitais afetam a atenção, a memória e a regulação emocional, habilidades essenciais para a aprendizagem. Crianças com sobrepeso têm maior risco de enfrentar dificuldades cognitivas e menor desempenho escolar, enquanto o uso descontrolado de telas interfere na qualidade do estudo, no comportamento e nas interações sociais. Estudos também identificam efeitos na linguagem e nas habilidades socioemocionais, mostrando que a relação entre obesidade e aprendizagem atravessa corpo, mente e cotidiano escolar.
Nesse cenário, há ainda desafios importantes no ambiente online. A presença constante de publicidade digital de ultraprocessados direcionada às crianças reforça padrões alimentares inadequados e disputa espaço com o papel formativo das famílias e das escolas. Soma-se a isso o hábito crescente de realizar refeições diante das telas, o que reduz a percepção de saciedade e favorece o consumo excessivo.
Ao mesmo tempo, tecnologia e educação não precisam – e nem devem – estar em lados opostos. Se o uso indiscriminado das telas contribui para o problema, o uso intencional pode ajudar a enfrentá-lo. Aplicativos educativos, jogos que estimulam movimento, trilhas pedagógicas que incorporam hábitos saudáveis e programas de educação alimentar mostram que o digital pode ser aliado quando mediado e contextualizado. O ponto decisivo está na mediação: transformar a tecnologia em ferramenta pedagógica, e não em fator de risco.
Para avançar, é necessária uma ação coordenada. A limitação do tempo de tela, conforme recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria, continua essencial, assim como programas de alimentação escolar, incentivo à atividade física e orientação às famílias sobre o uso consciente da tecnologia.
A escola tem papel privilegiado: é um dos poucos espaços capazes de construir repertório crítico sobre mídia, promover hábitos saudáveis e oferecer rotinas que equilibrem corpo, mente e tecnologia. No uso dos recursos digitais, vale a régua da intenção pedagógica e do foco no desenvolvimento integral da criança, com família, sociedade e políticas públicas atuando de forma complementar.
No fim, o desafio da obesidade infantil não é apenas reduzir números nas estatísticas; é garantir que as crianças possam aprender, conviver e se desenvolver em espaços que valorizem sua atenção, sua saúde e sua infância, sem que o digital ocupe mais espaço do que deveria. Para que isso, docentes e gestores precisam de formação contínua, para que a tecnologia seja usada com propósito, responsabilidade e visão sistêmica em toda a escola. A educação aliada à tecnologia, de forma intencional e responsável, pode ser exatamente o ponto de equilíbrio dessa balança.