Transexuais reclamam de preconceito durante prova do Enem

Além de constrangimentos com nomes no masculino, uma das candidatas foi orientada a usar o banheiro de deficientes, e não para o feminino

25 out 2015 - 11h45
(atualizado em 5/10/2022 às 15h53)
Encaminhada para banheiro de deficientes, transexual Tyfany Stacy não pôde usar banheiro feminino durante prova
Encaminhada para banheiro de deficientes, transexual Tyfany Stacy não pôde usar banheiro feminino durante prova
Foto: Tomaz Silva / Agência Brasil

A citação da célebre frase da filósofa Simone de Beauvoir “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”, escrita em uma das perguntas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), contrastou com o tratamento recebido por transsexuais que fizeram a prova no último sábado (24), no Rio de Janeiro.

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Estudantes do cursinho Prepara, NEM! tiveram o nome social deixado de lado, foram obrigadas a usar banheiro de deficientes e contam que se sentiram humilhadas.

Lara Lincon Milanez Ricardo é uma das 278 transsexuais e travestis que solicitaram o uso do nome social no Enem – número três vezes maior que em 2014.

Em Duque de Caxias, no Centro Integrado de Educação Profissional 320, onde fez a prova, ela conta que os fiscais não sabiam orientar sobre a assinatura na lista de presença, se devia ser como na identidade ou não, e a deixaram constrangida. “A coordenadora e a fiscal começaram a falar abertamente, na frente de todo mundo, 'ele mudou de nome, agora se chama Lara' e ficaram se referindo a mim no gênero masculino”, reclamou.

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A situação se agravou, segundo ela, quando uma das fiscais pediu para que Lara corrigisse a assinatura: “Ela disse 'ah, meu filho, você não pode assinar nome fictício aqui'. Reparei em volta todo mundo olhando para minha cara. Fiquei apavorada”, desabafou.

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Quem também deixou a prova relatando discriminação foi Tyfany Stacy. Ela disse que foi humilhada por fiscais e encaminhada para o banheiro de deficientes e não para o feminino, na Universidade Estácio de Sá, campi Norte Shopping, na zona norte do Rio. “Tenho cabelo na cintura, prótese de 400 milímetros nos seios, 113 centímetros de bumbum e nenhum pelo no rosto. Vou ter que aumentar minha silhueta para ser reconhecida como [mulher] trans? Perguntei para a coordenadora se eu tenho alguma deficiência”, relatou.

Ela disse, ainda, que conseguiu manter a concentração, mas quer evitar a situação no segundo dia de Enem. “Amanhã (domingo) estarei aqui de novo, vou passar pelos mesmos problemas, frequentar banheiro de deficiente, ser tratado como 'ele' e ainda ouvir chacotas?”, questionou.

Já Barbára Aires, que prestou o Enem na Estácio da Lapa, no centro da cidade, teve uma experiência diferente das colegas de cursinho. Não passou por nenhum constrangimento, foi chamada corretamente pelo nome social, pôde usar o banheiro feminino e elogiou os fiscais.

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No entanto, disse que circulou pela sala uma lista de presença com seus dois nomes, o que não era necessário, avaliou. “Como eles têm o número de inscrição é de se imaginar que esse número faça referência à minha inscrição com o nome do registro civil e o nome social. Ou seja, com o número, não precisaria vir o meu nome da carteira de identidade na lista para todo mundo ver”, explicou.

O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pela aplicação das provas, não comentou os relatos de constrangimento.

Em nota, disse que todas as “ocorrências” na prova são relatadas em ata e analisadas, posteriormente, “caso a caso”. Perguntado quais critérios para inscrição com nome social, o instituto não respondeu.

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Agência Brasil
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