A fome foi o que desviou Henrique* da educação. Em várias ocasiões, o adolescente de 16 anos viu a família passar necessidades básicas. “Muitas vezes não tinha o que comer”, relatou o interno da unidade da Fundação Centro de Atendimento Socioeducativo ao Adolescente (Casa) em Guarujá, no litoral de São Paulo.
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Apesar da condição de vulnerabilidade, o jovem menciona que “não justifica” ter “cortado caminho”. No entanto, ao ingressar na Fundação, inscreveu-se e foi selecionado para participar do projeto de iniciação científica da Universidade de São Paulo (USP), no qual se tornou pesquisador em meados de 2025.
A pesquisa, que busca compreender e mapear a exploração do trabalho infantil em Santos, foi o que lhe deu uma nova perspectiva sobre o futuro.
"Quando terminar [a pesquisa] vou seguir em frente, terminar meus estudos, fazer uma faculdade de Administração. As oportunidades que tiver, eu vou agarrar. Não quero continuar nesse caminho, dando desgosto para a minha família. Quero trilhar outros”, diz, esperançoso.
Além dele, Matheus** também foi selecionado para o projeto cuja bolsa é no valor de R$ 300. O jovem, da mesma idade do amigo, já cumpriu a medida socioeducativa e voltou para a casa, segue atuando na pesquisa. Ele atua no trabalho de campo ao lado das pesquisadoras da USP e também incorpora sua própria vivência nos estudos. Já antes de cometer atos infracionais, vendia balas no semáforo e já tinha trabalhado em um lava-rápido.
“O que mais me chamou atenção foi querer saber a forma que ia ser trabalhado, que eu vi como uma coisa que nunca tinha sido apresentada para mim. Fui desenvolvendo um pouco lá dentro e estou começando a desenvolver aqui fora. Trabalho 8 horas lendo, escrevendo, e me desenvolvendo”, explica.
O jovem nunca antes tinha pensado em continuar os estudos, para além do ensino médio, tampouco ler sobre algo novo ou escrever sobre a sua história. Mas o contato com a pesquisa expandiu seus horizontes. “Foi algo que abriu portas para mim, abriu meu leque, minha mente para trabalhar e estudar”, declara ao dizer que quer fazer um curso técnico e seguir para a faculdade de Engenharia Química.
“Encontro [na educação] um futuro ótimo, próspero, não só comigo, com a minha família, é muito bom”, dispara. “Mudou. Eu tinha até mesmo uma visão muito fechada de educação, não acreditava que eu era capaz de fazer as coisas, de ler um livro. Hoje eu sempre estou lendo, escrevendo. Então, educação é sempre a chave da vida”, complementa.
Como é o projeto
A seleção ocorreu entre os jovens que manifestaram interesse voluntário em participar do projeto, por meio de um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). A partir desse grupo, foram considerados critérios como afinidade com o tema do trabalho infantil, trajetória de vida e disponibilidade para as atividades de pesquisa.
A escolha dos dois adolescentes foi realizada pelas pesquisadoras do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Ana Paula Galdeano, Marcela Garrido Reghin e Larissa de Alcantara Viana, com o apoio da coordenadora de pesquisa da Universidade de São Paulo, Maria Cristina Gonçalves Vicentin, e da equipe pedagógica da Fundação CASA Guarujá.
A atuação envolve o compartilhamento de relatos pessoais, a análise de dados coletados e a investigação da exploração do trabalho infantil em seus territórios, na pesquisa intitulada “Trajetórias de crianças e adolescentes no trabalho infantil: a perspectiva e as vozes dos que trabalham”.
Cristina explica que a pesquisa trabalha alinhada com as políticas públicas para que esses jovens consigam ter trabalhos protegidos, com direito à profissionalização, com bolsa, com apoio à renda. “É um ângulo da pesquisa que a gente escute como os jovens, suas famílias, vivem a experiência de trabalho, que não é do mesmo modo, ela tem outras facetas. Então, que a política pública responda à altura das necessidades da população”, aponta.
Já Ana Paula, que coordena o Núcleo de Etnografias Urbanas do Cebrap, explica que o projeto geral tem várias frentes e é feito em parceria também com o Ministério Público. O objetivo é a reestruturação do sistema de garantia de direitos para crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil com uma ênfase grande em adolescentes que estão em medida socioeducativa. Eles atuam também na prevenção de que esses jovens sigam pelo caminho do crime.
“O esforço do projeto é que a gente consiga, por meio dessa reestruturação do sistema de garantia de direitos, trabalhar justamente com essa visão mais preventiva, para que o adolescente não precise percorrer toda essa estrada que vai levar ele para o caminho de ser visto como um adolescente infrator”, aponta.
Como ação complementar, um dos pesquisadores e outros quatro jovens visitaram a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design da Universidade de São Paulo (FAU-USP), em novembro, para a realização da Oficina Travessias. Na atividade, ele conheceram o campus universitário, o Laboratório de Modelos e Ensaios, onde são desenvolvidas maquetes, modelos em escala reduzida e impressões em três dimensões, e o Canteiro Experimental, espaço destinado à produção de ensaios e protótipos construtivos integrados às disciplinas dos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Design.
O trabalho da Fundação Casa
Se muitos dos jovens que chegam para cumprir uma medida socioeducativa dentro da Fundação Casa não têm nem o que comer, outros sequer aprenderam a escrever, ou então, nunca foram ao médico, por exemplo. Ali, alguns deles têm uma cama para dormir sozinho, conhecem uma escova de dente, passam pelo dentista, tudo pela primeira vez, conforme menciona a presidente da Instituição, Claudia Carletto.
Dentro da instituição, esses adolescentes são obrigados a passar pelo ensino regular e participar de atividades esportivas. Também há cursos profissionalizantes. “Eles entram com perto de 60% de déficit no nível de aprendizagem. O que isso quer dizer? Às vezes ele pode estar matriculado ali no nono ano do ensino fundamental, mas o rol de conhecimento dele é compatível com o segundo ano. Então, a gente vai buscando diminuir essas distâncias”, esclarece.
Além desse adolescente, a família dele também é assistida, pois um dos pilares fundamentais do cumprimento da medida é exatamente esse trabalho com a família, com psicólogos e assistentes sociais para ajudar na reestruturação, conforme explica Cláudia.
O objetivo das políticas empregadas ali dentro, segundo Claudia, é de que aquele jovem compreenda o erro dele e veja que é possível reconstruir a sua história.
“Essa vontade de transformar a vida de jovens, que a gente vê a realidade, que é de vulnerabilidade, é um desejo de todo mundo que trabalha na socioeducação. Acho que essa vocação é de quem trabalha com a socioeducação no Brasil, trabalhando com jovens com perfis complicados, muitas vezes violentos, mas acreditando que eles podem ser pessoas melhores e eu acho que isso faz toda a diferença”, finaliza.
*A reportagem adotou nomes fictícios para preservar a identidade dos entrevistados