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Professor indígena premiado une saberes ancestrais com a ciência para ensinar física e matemática

Nas aulas, Dzoodzo Baniwa busca soluções com os alunos para atender demandas da comunidade no Amazonas

7 jan 2026 - 04h59
Resumo
O professor indígena Dzoodzo Baniwa combina saberes ancestrais de seu povo com ciência para ensinar física e matemática, desenvolvendo soluções práticas e sustentáveis para atender às demandas de sua comunidade no Amazonas, o que resultou em um prêmio por sua atuação e contribuição à educação e preservação cultural.
Dzoodzo Baniwa alia saberes ancestrais do seu povo com a ciência para ensinar física e matemática em escola no AM
Dzoodzo Baniwa alia saberes ancestrais do seu povo com a ciência para ensinar física e matemática em escola no AM
Foto: Moises Baniwa

Na Escola Baniwa Eeno Hiepole, que fica na Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas, o professor Dzoodzo Baniwa, de 40 anos, alia os conhecimentos ancestrais de seu povo e os adquiridos na floresta com as teorias da ciência tradicional aprendidas ao longo da sua trajetória acadêmica para dar aulas de matemática e física nos ensinos fundamental e médio e atender as demandas da comunidade.

"Alinhar as metodologias científicas com o conhecimento tradicional dos povos acelera todo esse processo de construção colaborativa do conhecimento sistêmico que é necessário para viver e estar bem no mundo", diz Dzoodzo, em entrevista ao Terra, sobre a importância dessa metodologia usada para o aprendizado dos alunos indígenas.

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Mas como funciona isso na prática? Dzoodzo dá o exemplo de que em seu território não tem energia elétrica e, nas aulas, eles buscam soluções para lidar com os desafios disso e as aplicam no local.

"No terceiro ano do ensino médio, como é que eu vou explicar os átomos dos elétrons, como eles fluem na corrente, onde não tem rede elétrica, não tem transformador, onde não tem motor gerador? Então o que a gente tem desenvolvido na escola é a introdução do sistema fotovoltaico. O que é placa solar, o que é bateria, como instala, da potência de equipamentos, como fazer um projeto baseado nisso. É nessa perspectiva que a gente trabalha o ensino da eletricidade na aldeia, por exemplo", diz.

"É sempre trazendo o que é próximo, o que está no dia a dia dos alunos. Claro que existem aulas envolvendo os cálculos, porque eles precisam saber, mas no real, na prática, é nessa transformação que a gente consegue demonstrar como funciona a eletricidade", acrescenta.

Outro exemplo é o sistema de bombeamento de água com tecnologias sustentáveis que foi desenvolvido na comunidade por ele e que os alunos também participaram do processo. É por meio da instalação disso que eles aprendem "a medição do volume, do fluxo, da demanda ali da comunidade". "É nesse contexto que a gente consegue contextualizar o ensino da matemática, da física, nessa perspectiva interdisciplinar", afirma o professor.

Além de educador, Dzoodzo é pesquisador e liderança indígena do povo Baniwa. Ele também está à frente de projetos comunitários de agroecologia e piscicultura. Com sua trajetória e relevante atuação como defensor da educação escolar indígena para os povos Baniwa e Koripako e da troca de saberes, ele venceu neste ano o Prêmio Fundação Bunge 2025, na categoria Vida e Obra, no tema "Saberes e práticas dos povos tradicionais e sua importância para a conservação dos recursos naturais". 

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Além de educador, Dzoodzo é pesquisador e liderança indígena do povo Baniwa
Foto: Moises Baniwa

O caminho até a sala de aula 

Dzoodzo nasceu em março de 1985, na aldeia Santa Isabel do rio Aiari, que integra a Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas. A aldeia, localizada na faixa de fronteira entre o Brasil e a Colômbia, fica em uma região onde se chega apenas por via fluvial, em viagem de dois dias, partindo de São Gabriel da Cachoeira (AM). Segundo o professor, o local tem acesso limitado à rede de internet.

Ele só teve o primeiro acesso à educação escolar escrita aos 10 anos, quando uma escola indígena chegou a um território vizinho. Filho de pai e mãe analfabetos, Dzoodzo conta que, antes disso, a educação oral indígena já existia e foi com os pais que aprendeu a se relacionar com a natureza e teve os conhecimentos necessários para viver na aldeia.

"Entrar em contato com o mundo letrado foi muito significativo para a nossa cultura, não só na questão de ler materiais produzidos fora do território, mas também de internalizar essa escrita para sistematizar e registrar os conhecimentos do território, para que fosse possível dialogar com os conhecimentos de outros povos", comenta.

Dzoodzo mora na aldeia Santa Isabel do rio Aiari, que integra a Terra Indígena Alto Rio Negro, no Amazonas
Foto: Moises Baniwa

Na Escola Indígena Baniwa e Coripaco (EIBC) da Pamáali, ele completou até o ensino fundamental. Nessa fase da vida, ele lembra que começou a participar de vários projetos, como a piscicultura -- a criação de peixes. "Trabalhei como monitor técnico, com a reprodução artificial de peixe. Também trabalhei na avicultura da escola -- criação de aves para produção de alimentos -- Tudo isso durante o ensino fundamental, trabalhei na meliponicultura ainda, que é a criação de abelhas sem ferrão. Minha escola permitiu participar desses projetos", detalha Dzoodzo.

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Como a escola só ia até o ensino fundamental, para cursar o ensino médio, ele teve que ir para a capital Manaus. Foi quando conheceu a Física. "Descobri que tudo o que eu aplicava, por exemplo, no laboratório de piscicultura, que é cálculo de dosagem de hormônio, cálculo de temperatura, fluxo de água, nível de oxigênio, tudo isso tinha a ver com a Física."

Com o pensamento de continuar contribuindo com a sua aldeia, Dzoodzo cursou licenciatura em Física Intercultural pelo Instituto Federal do Amazonas (IFAM) e, depois, se tornou mestre em Ensino de Ciências Ambientais do Programa Mestrado Profissional em Rede Nacional para Ensino das Ciências Ambientais, associado à Universidade Federal do Amazonas (PROFCIAMB/UFAM).

"Quando eu entrei na academia, eu continuei com o mesmo pensamento de que o conhecimento que eu tinha lá poderia contribuir também com o meu território. Eu sempre trabalhei com essa perspectiva de fortalecer a minha cultura, o meu povo e o meu território", afirma Dzoodzo. 

Dzoodzo também é pesquisador de monitoramento ambiental e climático dentro do seu território
Foto: Moises Baniwa

Monitoramento ambiental e climático

Além de atuar como professor e trabalhar em vários projetos para as comunidades, Dzoodzo é pesquisador de monitoramento ambiental e climático dentro do seu território.

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"Nessa perspectiva de pesquisa, do indígena, nós trabalhamos na valorização, no registro de conhecimentos milenares do território. Tanto na observação do dia a dia, o que está ocorrendo na natureza, na floresta e em diálogo com os conhecedores. Por exemplo, eu observo um monte de pássaros em um dia. Então, eu volto lá com o conhecedor tradicional e pergunto o que significa isso? Se é sinal de algum ciclo na natureza, ou se está relacionado com a constelação, ou se está relacionado com algum tipo de fenômeno natural e ambiental", explica.

A cada seis meses, ele se reúne com uma rede de 50 pesquisadores indígenas para sistematizar todas essas observações e buscar respostas para os desafios do território.

Fonte: Portal Terra
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