Depoimento especial: o que os sedimentos do fundo do mar revelam sobre a Amazônia e sobre quem pode fazer ciência

Doutor em Dinâmica dos Oceanos que nasceu e foi criado em favela de Niterói relata sua trajetória profissional e suas pesquisas sob o ponto de vista da desigualdade no acesso ao conhecimento

18 jun 2026 - 11h34
(atualizado às 11h47)

"A ciência não é linear."

Essa frase foi dita por um dos cientistas mais brilhantes e humanos que tive o prazer de conhecer: Paul Baker. E, de fato, ela não é linear, nem em seu processo de produção, nem em relação àqueles que a produzem.

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Quem produz ciência? O desenvolvimento científico tem como um de seus principais objetivos melhorar a vida das pessoas, seja pela compreensão do mundo, seja pelo avanço tecnológico. Mas raramente se discute como a ciência transforma profundamente a vida de quem a produz.

Eu, Allan Sandes, morador de comunidade no Rio de Janeiro, tive meu destino transformado a partir do acesso ao ensino superior. O acesso foi por meio de políticas públicas voltadas à inclusão de estudantes socialmente vulnerabilizados na universidade pública. Nesse momento, a não linearidade da ciência se mistura à minha própria história.

Após concluir a graduação em Geografia e o mestrado em Geologia Marinha, iniciei o doutorado em Dinâmica dos Oceanos e da Terra, sob orientação do professor Cléverson Guizan. Naquele momento, eu ainda não fazia ideia de como a minha vida seria transformada.

Cleverson Guizan, um dos geólogos marinhos mais respeitados do Brasil, fez o convite que mudaria os rumos da minha trajetória profissional e, sobretudo, pessoal.

Por meio de uma parceria entre a Universidade Federal Fluminense e a Duke University, financiada pelo programa Ciência sem Fronteiras, que custeava integralmente a formação de estudantes brasileiros em universidades estrangeiras, fui convidado a desenvolver parte do meu doutorado nos Estados Unidos, sob supervisão do então professor Paul Baker.

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Já na Duke, em um dos meus primeiros contatos com Paul Baker, ele me perguntou em que região eu morava no Rio de Janeiro. Ainda com dificuldade no inglês e um pouco envergonhado, respondi:

"Sou de Niterói, morador do Morro do MIC, uma comunidade da cidade."

Paul, surpreso, perguntou:

"Você é da favela?"

Diante da minha resposta afirmativa, ele interrompeu a conversa e disse algo que jamais esqueci:

"Você tem ideia do que está acontecendo na sua vida? Você, morador de favela do Rio de Janeiro, está em uma das melhores universidades do mundo. Você tem ideia da grandiosidade desse feito?"

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Neste momento, retorno à pergunta que apresentei no início deste artigo e acrescento: quem produz e quem pode fazer ciência?

Durante muito tempo, enxerguei minha trajetória acadêmica como resultado de uma sucessão improvável de oportunidades. Mas não. A aparente linearidade sobre quem pode ocupar os espaços da ciência pode ser rompida por políticas públicas de acesso e permanência voltadas a grupos historicamente marginalizados.

Quantos talentos científicos seguem invisíveis simplesmente porque nunca tiveram a oportunidade de acessar esses espaços? Curiosamente, a própria ciência que passávamos a produzir também começava a romper paradigmas consolidados.

Um testemunho geológico revela novas histórias para a Amazônia

O testemunho sedimentar CDH-79 foi recuperado durante uma expedição do navio oceanográfico R/V Knorr (KNR197-4), realizada em fevereiro de 2010, na margem continental brasileira, na Bacia do Pará-Maranhão, ao sul do Cone do Amazonas.

O projeto, liderado por Paul Baker e Cleverson Guizan, tinha como objetivo compreender a evolução climática e biogeográfica da América do Sul tropical ao longo do Quaternário.

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O que tornava o CDH-79 especial não era apenas sua localização, em um monte submarino situado a 2.345 metros de profundidade; mas, principalmente, sua extensão temporal potencialmente preservada nos sedimentos.

Durante a elaboração do modelo preliminar de idade surgiu a primeira surpresa: os resultados indicavam uma idade próxima de dois milhões de anos. A descoberta parecia improvável. Outros testemunhos coletados na mesma expedição apresentavam idades muito mais recentes.

Refizemos as análises e os resultados permaneceram consistentes. Com a chegada das análises complementares, incluindo radiocarbono e isótopos de oxigênio, tornou-se evidente que estávamos diante de um dos mais longos registros paleoclimáticos já obtidos para a região amazônica.

Mais do que um testemunho sedimentar, o CDH-79 representava uma janela inédita para compreender a história climática da América do Sul tropical ao longo dos últimos dois milhões de anos.

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Ao longo dos anos seguintes, mergulhamos em uma das perguntas mais desafiadoras da paleoclimatologia amazônica: afinal, a Amazônia foi mais seca ou mais úmida durante os períodos glaciais?

Durante décadas, predominou a ideia de que os períodos glaciais teriam sido marcados por uma Amazônia mais seca e fragmentada. No entanto, os registros obtidos a partir do CDH-79 começaram a revelar uma história mais complexa.

Os resultados, recentemente publicados na revista Communications Earth & Environment, da Nature, indicam que a variabilidade hidroclimática amazônica ao longo dos últimos dois milhões de anos foi muito mais dinâmica do que se imaginava.

Em diferentes momentos, os períodos glaciais estiveram associados ao aumento da descarga sedimentar amazônica e à intensificação de eventos extremamente úmidos, fortemente conectados às mudanças climáticas ocorridas no Atlântico Norte.

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Mais do que reconstruir o passado climático da Amazônia, o estudo revelou a profunda conexão entre diferentes regiões do planeta. Mudanças na circulação oceânica do Atlântico Norte foram capazes de reorganizar sistemas atmosféricos tropicais e alterar profundamente os regimes hidrológicos da América do Sul.

Duas histórias, a mesma ruptura

Em muitos momentos, senti que o próprio trabalho que eu desenvolvia refletia aquilo que Paul Baker havia me dito anos antes: a ciência não é linear. Nem em seus resultados e em suas interpretações. Nem nas trajetórias humanas que a constroem.

O testemunho CDH-79 revelou uma Amazônia mais dinâmica e complexa do que imaginávamos. Minha própria trajetória revelou que o talento científico também pode emergir de lugares frequentemente excluídos dos espaços de produção do conhecimento.

Anos depois daquela conversa na Duke University, retornei à mesma universidade pública onde havia iniciado minha trajetória acadêmica, desta vez como professor e pesquisador, recebi o Oscar da Ciência brasileira, o Prêmio Capes de Tese, liderei pesquisas na Antártica e coordenei projetos de educação científica em escolas públicas periféricas. Talvez por isso a pergunta sobre quem pode fazer ciência continue me acompanhando.

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Porque, no fim, ciência também é sobre pertencimento. Sobre mostrar que jovens periféricos e moradores de favela não precisam aparecer apenas como objeto das estatísticas sociais ou ambientais. Eles também podem produzir conhecimento de ponta, liderar expedições científicas, publicar em periódicos internacionais de alto impacto e ajudar a reescrever aquilo que sabemos sobre a história climática do planeta.

Talvez a principal lição destes últimos anos seja que o conhecimento avança justamente quando questionamos aquilo que parecia óbvio, seja sobre o funcionamento do sistema climático terrestre, seja sobre quem pode participar da construção desse conhecimento.

A ciência não é linear. E talvez seja exatamente por isso que ela continue sendo capaz de nos surpreender.

O autor contou com apoios do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), da Coordenação de Pessoal de Nível Superior (Capes) e da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro (Faperj).

The Conversation
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Foto: The Conversation

Allan Sandes recebeu financiamento das seguintes agências de fomento: CNPq, Capes e Faperj.

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Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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