Contas no Instagram glorificam oficiais nazistas e minimizam Holocausto

14 mar 2026 - 15h00

Diversas contas na plataforma propagam publicações exaltando antigos oficiais nazistas e omitindo crimes de guerra. Historiadores criticam conteúdo e omissão da Meta, controladora da rede social.Em meio a publicações sobre viagens e estilo de vida, o Instagram também vem sendo usado para abrigar contas com conteúdo que glorifica antigos oficiais nazistas. Os textos que acompanham as fotos destacam o que chamam de "bravura", "coragem" e "habilidade estratégica" dessas figuras. Já a participação em crimes de guerra e no Holocausto não é mencionada, segundo uma investigação da DW.

As publicações vêm alcançando um público internacional de milhões de pessoas. Muitos usuários comentam as fotos dos criminosos de guerra com aprovação: com emojis de coração e aplausos. Não há nenhuma discussão crítica nessas publicações.

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E a disseminação desse conteúdo, que é banido na Alemanha, não tem despertado ações do conglomerado Meta que controla a plataforma Instagram.

Pesquisas da DW comprovam que fotos com o emblema da Schutzstaffel (SS) foram publicadas repetidamente. A SS foi o principal órgão de repressão e terror do Estado nazista, tendo papel central nos crimes cometidos nos campos de extermínio de Auschwitz-Birkenau, Majdanek e Treblinka. Somente em Auschwitz-Birkenau, os nazistas assassinaram entre 1,1 a 1,5 milhão de pessoas, a maioria delas judeus de toda a Europa, mas também poloneses, prisioneiros de guerra, opositores políticos e outras minorias.

"Estou chocada com essa quantidade de conteúdo nazista", diz Eva Berendsen, que trabalha para o Centro Educacional Anne Frank, que tem como objetivo a sensibilização para o antissemitismo e o racismo. A instituição foi formada em memória à menina judia Anne Frank, assassinada pelos nazistas e cujo diário se tornou um dos documentos mais conhecidos sobre os horrores do período nazista.

"O material fotográfico é propaganda nazista que chega à internet descontextualizada, ou seja, sem nenhuma descrição do que realmente se vê. Em primeiro lugar, usuários jovens da plataforma são deixados completamente sozinhas com esse conteúdo."

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Primeiro contato dos jovens com o nazismo através do Instagram?

Berendsen vê como particularmente preocupante que muitos usuários do Instagram sejam jovens que provavelmente ainda não foram ensinados nas salas de aula sobre temas históricos como o nazismo e os crimes do Holocausto. "Devemos partir do princípio de que jovens estão tendo seu primeiro contato com temas como nazismo e Holocausto através das redes sociais", alerta.

Isso pode ter consequências, especialmente quando imagens de soldados supostamente heroicos são repetidamente mostradas a jovens do sexo masculino. "Essas publicações têm o potencial de reforçar tais imagens e fantasias de masculinidade."

Um exemplo é uma publicação com duas fotos de um ex-soldado da infantaria da antiga Wehrmacht, as Forças Armadas da Alemanha nazista. A postagem o mostra como um jovem soldado de uniforme e como um senhor mais velho de terno. O texto que acompanha a foto diz: "Um soldado de infantaria que conquistou a cidade de Chania, em Creta, sob o comando de Otto Schury (...) Por sua bravura em Chania, ele recebeu a Cruz de Ferro de 1ª classe!", mencionando uma condecoração do regime.

O texto não menciona que a conquista da ilha grega de Creta foi seguida por uma feroz repressão contra a população civil: 300 habitantes judeus de Chania foram deportados para campos de concentração como resultado da ocupação. Apenas quatro teriam sobrevivido.

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Outra postagem menciona o oficial Kurt Meyer, da Waffen-SS, o braço militar da SS. A imagem mostra um homem de uniforme - com símbolos da SS na gola do uniforme. O texto em inglês elogia o que chama de "coragem" de Meyer: "Seus colegas de classe brincavam dizendo que ele era duro como um tanque". O texto não menciona que Kurt Meyer era um criminoso de guerra condenado. Após a invasão alemã da Polônia em 1939, ele executou 50 judeus e após a guerra foi condenado por vários massacres de prisioneiros na frente ocidental.

Mas quem são os responsáveis por trás dessas contas? As pesquisas da DW não revelam uma estrutura clara: elas foram registradas em diferentes países, como Alemanha, Paquistão, Estados Unidos e Turquia. Algumas parecem ter como objetivo alcançar um grande público, outras parecem ter motivações mais ideológicas.

Distorção da história difícil de tolerar

O historiador Johannes Hürter, do Instituto de História Contemporânea de Munique, vê essas publicações de maneira extremamente crítica. "Quando criminosos de guerra condenados, como o general da SS Kurt Meyer e outros são colocados em um pedestal, isso é uma distorção histórica difícil de suportar", disse. "Marca um retrocesso para uma visão totalmente acrítica da história, que se acreditava ter sido superada."

Hürter vê como uma das razões para a enxurrada de glorificação e minimização do nazismo como uma articulação de redes de extrema direita: "Extremistas de direita de todos os países sempre demonstraram sua admiração pelas forças armadas da Alemanha hitlerista e agora usam cada vez mais essa glorificação acrítica da Wehrmacht, da Waffen-SS, de sua história e de seus símbolos como um código de autoafirmação e comunicação entre si".

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Christoph Heubner, vice-presidente do Comitê Internacional de Auschwitz, organização formada por sobreviventes do campo, vê de maneira crítica o papel do conglomerado Meta, de Mark Zuckerberg, e outros bilionários da tecnologia. "Acho que muitos desses empresários compartilham da atitude descrita nessas postagens: são líderes elitistas", critica. Ele os acusa de terem uma postura autoritária. "Eles acham que precisamos de heróis elegantes e vigorosos, que avancem com coragem e tomem decisões sozinhos."

Para os sobreviventes de Auschwitz e para as vítimas do Holocausto, as postagens no Instagram são um tapa na cara: "[As publicações] são um ataque à sua dignidade. E atribuem a eles o papel de perdedores da história e de vítimas. Eles são as vítimas que ainda não foram capturadas. E isso é uma forma assassina de tratar as pessoas, porque as estigmatiza emocionalmente e é simplesmente desumano."

A DW questionou a Meta, operadora da plataforma Instagram, sobre as publicações e anexou uma lista das publicações questionáveis.

Meta respondeu de forma evasiva

A resposta por escrito da Meta foi enviada de uma agência de relações públicas de Hamburgo, na Alemanha. As perguntas não foram respondidas. "[As publicações] ainda estão sendo analisadas", disse que a agência, que encaminhou ainda um código com as Normas de Comunidade da Meta

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Quatro dias após a resposta, quase todas as postagens que a DW encaminhou à Meta não estão mais disponíveis online, entre elas uma imagem do líder da SS Heinrich Himmler, a foto de Kurt Meyer em uniforme da SS e outras. Mas o motivo pelo qual essas publicações passaram pelos filtros do Instagram em primeiro lugar e como o grupo Meta pretende lidar com esse tipo de conteúdo no futuro permanecem sem resposta.

A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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