Comunidade Tia Eva: O Legado que o Brasil acaba de consagrar

A Comunidade Tia Eva conquista tombamento inédito pelo Iphan, garantindo proteção federal e visibilidade histórica para o primeiro território quilombola reconhecido nesta categoria no Brasil

15 mar 2026 - 07h24

A Comunidade Tia Eva, situada no coração de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, acaba de escrever um capítulo inédito na historiografia brasileira ao se tornar o primeiro quilombo do país reconhecido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) através de um livro do tombo específico para territórios quilombolas.

Descubra como a Comunidade Tia Eva se tornou o primeiro quilombo tombado pelo Iphan no Brasil
Descubra como a Comunidade Tia Eva se tornou o primeiro quilombo tombado pelo Iphan no Brasil
Foto: Denilson Secreta/Guia Negro / Perfil Brasil

Comunidade Tia Eva: O primeiro território quilombola tombado do Brasil:

Este marco regulatório e simbólico foi oficializado em uma reunião do conselho do instituto no Rio de Janeiro, resultando na publicação de um mapa delimitador no Diário Oficial da União que garante a proteção federal sobre a área.

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Mais do que um ato administrativo, o título é uma salvaguarda para a memória e a cultura afro-brasileira, assegurando que o território onde vivem cerca de 250 famílias descendentes da fundadora permaneça preservado contra as pressões urbanas e o esquecimento.

O sentimento entre os moradores da Rua Eva Maria de Jesus é de vitória coletiva e continuidade de uma missão que começou no século XIX. Para Ronaldo Jefferson da Silva, presidente da Associação dos Descendentes de Tia Eva, o reconhecimento é o ápice de uma trajetória de sobrevivência. "É uma luta de resistência de Tia Eva. Ela veio de Mineiros, em Goiás, buscando exatamente isso: um espaço seu, para dar continuidade à sua linhagem e à sua história. Com o tombamento agora, damos continuidade a esse legado e temos um território protegido pelo Iphan", afirma a liderança, reforçando que o selo federal é a garantia de que o solo ocupado por seus ancestrais agora pertence ao patrimônio cultural inalienável do Brasil.

O processo de tombamento não foi uma imposição externa, mas um movimento nascido dentro da própria comunidade em 2024, que culminou em dois anos de intenso trabalho técnico para catalogar tradições, oralidades e espaços sagrados. João Henrique dos Santos, superintendente do Iphan, no Mato Grosso do Sul, destaca que a principal mudança prática é a presença constante do Estado: "A principal mudança é a presença do Estado brasileiro mais próximo da comunidade. O processo identifica as referências culturais e define ações de salvaguarda para que essas tradições continuem existindo dentro da comunidade e para as futuras gerações", explica o superintendente, apontando para um futuro de políticas públicas direcionadas à manutenção dos costumes locais.

A Igreja de São Bento

No centro geográfico e espiritual dessa conquista está a Igreja de São Benedito, erguida originalmente em 1919 e que atualmente passa por um robusto processo de restauração orçado em mais de 2,2 milhões de reais. O projeto arquitetônico visa transformar o entorno em um complexo comunitário moderno, com centro de atendimento e praça, sem perder a essência histórica.

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Adanilton Faustino de Souza Júnior, gerente da Agesul, pontua a urgência da obra para o calendário afetivo da região. "A gente deu prioridade para a igreja por conta da situação estrutural. Além disso, em novembro temos o centenário de Tia Eva, e a ideia é entregar o templo restaurado para as festividades", revela, conectando a infraestrutura ao sentimento de pertencimento.

A emoção transborda entre aqueles que dedicaram anos ao levantamento das referências culturais, como a arquiteta e moradora Raíssa Almeida Silva. Para ela, o tombamento retira a comunidade de uma invisibilidade histórica perante a própria cidade de Campo Grande. "É um reconhecimento que a gente recebe com muita gratidão. A comunidade está muito emocionada. Muitas pessoas de Campo Grande ainda não conhecem a história de Tia Eva, e agora essa história ganha visibilidade", desabafa ao g1.

A trajetória de Eva Maria de Jesus, uma mulher negra escravizada que conquistou sua alforria, tornou-se parteira, benzedeira e fundou um dos quilombos urbanos mais antigos do país, agora deixa de ser apenas uma narrativa familiar para se tornar um pilar da identidade nacional brasileira, protegida por lei e celebrada por todas as gerações.

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