Como funcionam as pesquisas eleitorais

29 set 2026 - 10h50
Resumo
As pesquisas eleitorais envolvem um rigoroso processo estatístico para refletir a sociedade, usando dados do IBGE e do TSE na amostragem e questionários que evitam vieses, alternando perguntas espontâneas e estimuladas. A coleta ocorre presencialmente, por telefone ou internet, cada qual com vantagens de custo e precisão. Regulamentadas por lei, exigem registro obrigatório na Justiça Eleitoral antes da divulgação e funcionam como um retrato momentâneo do eleitorado, e não como uma previsão do resultado.

Dos questionários à divulgação dos resultados, as pesquisas seguem etapas definidas, processos estatísticos complexos e regras da Justiça Eleitoral. Entenda como são feitos os levantamentos de intenção de voto.As pesquisas de intenção de voto influenciam estratégias de campanha, ganham as manchetes dos noticiários, alimentam debates públicos e, não raro, despertam críticas dos próprios políticos.

Em um país marcado pela polarização e por um eleitorado de mais de 150 milhões de pessoas, os levantamentos são frequentemente tratados como um termômetro da disputa, mas também se tornam alvo de desconfiança e questionamentos.

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Por trás dos percentuais divulgados, porém, existe um processo complexo que envolve planejamento estatístico, extensa coleta de dados e regras rígidas de transparência estabelecidas pela Justiça Eleitoral.

Questionário e desenho amostral

A realização de uma pesquisa eleitoral começa muito antes do trabalho de campo. A primeira etapa desse processo é a elaboração do questionário. Nessa fase, são definidas as perguntas e a ordem em que elas serão apresentadas aos entrevistados.

A sequência é considerada fundamental para evitar vieses. "Costumamos começar o questionário perguntando ao entrevistado se já escolheu em quem vai votar, sem nenhum tipo de estímulo anterior", explica o cientista político Felipe Nunes, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e sócio-fundador da Quaest Pesquisa e Consultoria.

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Essa é a chamada pesquisa espontânea de intenção de voto, que busca entender se o eleitor já tem um candidato em mente, o que indicaria uma tendencia mais consolidada. A lista de candidatos é apresentada depois, na chamada pesquisa estimulada.

Para definir quem será entrevistado, é realizado um planejamento amostral. A amostra é construída a partir de bases de dados de fontes como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o próprio Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e precisa garantir uma representação fiel do conjunto de eleitores brasileiros, em termos de gênero, raça, escolaridade, renda e região, por exemplo.

Os municípios onde a pesquisa será realizada são definidos por meio de sorteio, mas devem seguir os critérios do planejamento amostral.

Metodologia de coleta de dados

Existem hoje três métodos principais para a realização de pesquisas eleitorais: a coleta de dados presencial, por telefone e pela internet, cada um com vantagens e desvantagens.

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As pesquisas realizadas presencialmente conseguem garantir uma maior cobertura, explica Nunes, especialmente de eleitores das classes C, D e E. O encontro face a face também permite ao entrevistador analisar se o entrevistado compreendeu as perguntas, respondeu voluntariamente e no tempo adequado.

Dentro da categoria presencial, há dois modelos principais: a pesquisa domiciliar, realizada a partir de um mapeamento das residências dos entrevistados; e a pesquisa em pontos de fluxo, em que entrevistadores abordam pessoas em locais de grande circulação.

Em contrapartida, trata-se de um modelo caro. Sua execução exige uma rede de entrevistadores distribuída por todo o país, e implica custos com deslocamento, seguros e sistemas de monitoramento, como as tecnologias de GPS instaladas nos tablets utilizados em campo.

As pesquisas por telefone possuem custo inferior ao das entrevistas face a face, e permitem uma execução mais rápida do trabalho de campo. Mas há dificuldades na construção da amostragem, já que hoje não existe uma lista telefônica oficial capaz de servir de base para esse processo. Além disso, cresce o número de pessoas que se recusam a atender ou participar de entrevistas por telefone. "A taxa de não resposta está muito alta", comenta Nunes.

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Já as pesquisas por internet também possuem como principal vantagem a velocidade e o baixo custo. No entanto, apresentam um desafio metodológico conhecido como "alta taxa de não resposta não ignorável". "Há o risco de que alguém muito motivado queira responder a pesquisa, mas é mais difícil chegar naquele eleitor que vai votar, mas não está fazendo campanha para nenhum candidato", explica Nunes.

Para Nunes, a transparência com o método escolhido é o mais importante. "Eu ousaria dizer que amostras híbridas, com uma combinação de metodologias de coleta de dados, serão cada vez mais comuns nas próximas eleições", acrescenta.

Registro no TSE

No Brasil, a Lei das Eleições determina que as pesquisas sejam registradas junto à Justiça Eleitoral, num prazo de até cinco dias antes da divulgação dos resultados. No registro, devem ser informados: quem contratou a pesquisa; valor e origem dos recursos; metodologia e período de realização; plano amostral e área física de realização; intervalo de confiança e margem de erro; sistema interno de controle e verificação; questionário completo e quem pagou pela realização do trabalho.

Os registros das pesquisas ficam disponíveis para consulta pública no portal do TSE. "O registro é a garantia que os partidos políticos, candidatos, jornalistas e a sociedade em geral têm de poder fiscalizar o trabalho que está sendo feito", diz Nunes.

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Durante o período eleitoral, enquetes ou sondagens feitas sem registro, plano amostral e utilização de método científico estão proibidas. A divulgação de pesquisa fraudulenta constitui crime, punível com detenção de seis meses a um ano e multa.

As pesquisas erram?

Felipe Nunes ressalta que, apesar de terem um papel importante no processo democrático, as pesquisas eleitorais não são capazes de prever o resultado de uma eleição. "Pesquisa não é bet. O nosso papel não é tentar adivinhar o que vai acontecer", afirma.

Para ele, as pesquisas são sempre um retrato do passado, e não do futuro. "A gente olha para trás para explicar o comportamento do eleitorado".

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