Mesmo pouco dependente do petróleo do Golfo, país deve sofrer efeitos da pressão inflacionária causada pelo conflito. Na diplomacia, analistas recomendam que país mantenha postura neutra.O conflito desencadeado pela ofensiva de Israel e Estados Unidos ao Irã se espalhou pelo Oriente Médio. Com os ataques de retaliação do país persa a aliados de Washington na região, já são mais de uma dezena de nações atingidas - do Chipre, passando pelo Líbano, até o Kuwait. Mesmo geograficamente distante do epicentro das operações militares, o Brasil dificilmente passará incólume pela guerra, que deverá gerar reflexos econômicos e políticos em todo o planeta.
Para analistas em política exterior consultados pela DW, a localização brasileira no globo terrestre, consideravelmente distante do Oriente Médio, torna extremamente improvável uma ofensiva no país ou mesmo na América Latina pelos atores envolvidos no conflito.
Em termos econômicos, no entanto, o Brasil pode ser afetado por uma possível redução na oferta de petróleo. Nessa segunda-feira (02/03), o comando da Guarda Revolucionária do Irãanunciou que bloquearia o Estreito de Ormuz, gargalo entre os golfos Pérsico e de Omã, por onde escoam cerca de 20% do combustível fóssil. Nesta terça (03/03), o preço do petróleo Brent ultrapassou 80 dólares - e operadores do mercado não descartam que a commodity ultrapasse os 100 dólares em breve.
De acordo com a consultoria inglesa Capital Economics, cada 5% de alta nos preços de petróleo acrescenta cerca de 0,1 ponto percentual à inflação média nas principais economias mundiais. Desde o fim de semana, o Brent acumula cerca de 14% de valorização.
Inflação e taxa de juros
"Se a gente pensar na nossa cadeia logística, ela é majoritariamente rodoviária", explica Karina Calandrin, professora de relações internacionais do Ibmec-SP. Segundo ela, a alta na cotação do barril de petróleo pode gerar um aumento no diesel e, consequentemente, no preço do frete - atingindo o valor final da maioria dos produtos.
"Isso, por sua vez, vai levar a uma pressão direta na taxa de juros", diz Caladrin. "O que a gente não quer ver, no momento, é um aumento maior no juro ou até mesmo uma manutenção da taxa Selic, uma vez que havia expectativa de queda nas próximas reuniões do Copom", acrescenta a analista. Com o juro básico alto, há menos dinheiro em circulação, o que pode reduzir o poder de compra da população.
Em termos de abastecimento, no entanto, o Brasil não deverá ser afetado. O país é praticamente autossuficiente na produção de petróleo, e as importações do Oriente Médio, especialmente da Arábia Saudita, representam uma pequena parte do volume brasileiro total do combustível fóssil.
Com o bloqueio de Ormuz, os maiores impactados nesse quesito devem ser os países asiáticos, destino de cerca de 80% do petróleo que sai do estreito, ressalta Roberto Goulart de Menezes, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília (UnB). "Os principais afetados serão a Ásia - sobretudo Japão e China - e a Europa, que fica com cerca de 20% do volume do petróleo do Golfo", pontua Menezes.
Efeito contrário
A pressão inflacionária sobre produtos e insumos da China, principal parceiro comercial brasileiro, também preocupa. "O impacto [da guerra] é amplo e naturalmente vai se reverter em custos inflacionários. Não é simples antecipar o tipo de efeito em cascata que virá pela frente", afirma Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional e política comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
Lopes tampouco descarta um efeito contrário: que o país se beneficie da situação justamente por ser um produtor de petróleo, estar numa região distante do Oriente Médio e praticar uma política diplomática universalista, com diálogo aberto tanto com os Estados Unidos quanto com o Irã.
"O Brasil pode se tornar um polo de atração de investimentos, de fluxos turísticos. No curto prazo, pode ser um supridor confiável de petróleo", aponta o professor da UFMG. "Mas, evidentemente, na eventual transformação desse conflito regional em um conflito global, todos sairemos perdendo. Sem dúvida, o mundo vai mergulhar em recessão", complementa.
Impacto diplomático
O governo brasileiro reagiu tanto aos ataques de Israel e EUA quanto às retaliações do Irã aos países aliados de Washington no Oriente Médio. Em ambos os casos, o Itamaraty condenou o uso da força e apelou para a negociação diplomática e pelo respeito ao direito internacional na resolução de conflitos geopolíticos.
Lula, por sua vez, ainda não se pronunciou oficialmente. O presidente da República tem uma viagem agendada aos Estados Unidos na segunda quinzena deste mês. O Planalto, no entanto, avalia se mantém o encontro com Donald Trump, o que vai depender dos desdobramentos do conflito na próxima semana.
O Brasil mantém relações sólidas com ambos os lados. Com os Estados Unidos, a parceria dura mais de 200 anos - e atritos recentes entre Lula e Trump foram contornados, com ambos os governantes reconstruindo uma relação a partir do segundo semestre do ano passado. O Brasil também mantém laços comerciais e diplomáticos com o Irã, que recentemente passou a integrar o Brics+, bloco liderado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.
Para Karina Caladrin, do Ibmec-SP, a posição brasileira no conflito, mesmo com o histórico de neutralidade, merece certo cuidado. "O risco agora recai sobre a imagem que o Brasil vai ter no exterior no que tange à aproximação ou não com o Irã", diz ela, que lembra que, mesmo com a questão do tarifaço praticamente solucionada, as relações com os EUA "não estão das melhores". Caladrin lembra que o país passa por uma crise diplomática com Israel por causa dos conflitos em Gaza. No ano passado, ambos os países retiraram seus embaixadores. Já a Arábia Saudita, aliada da Casa Branca, é responsável por cerca de um quinto das importações brasileiras de petróleo bruto.
"O Brasil pode atrair mais atenção para si exatamente se for visto como um ator que defende o Irã, como um desvio para sanções do Irã - isso pode acarretar em mais tarifas", aponta a professora. "Mas se o país seguir seu histórico da política externa, não deverá ter muitas consequências", complementa ela.
Mesmo assim, Menezes, da UnB, não descarta que o Brasil seja alvo da agressividade praticada pelos EUA sob Trump - especialmente em um ano de eleições, "por estar na mesma região que os Estados Unidos".
"O governo brasileiro entende que o tarifaço do Trump foi a antecipação do ativismo que ele pretende ter na eleição brasileira. Esse ativismo inclui pressões contra o Brasil, provável manipulação pelas big techs nas redes sociais, inteligência artificial. Então sim, a democracia no Brasil e na América Latina não estão de fato asseguradas", afirma Menezes.
A guerra pode chegar ao Brasil?
"Não tem muitos países no mundo com o perfil do Brasil, que praticamente não tem inimigos. Um país com esse tipo de perfil não precisa tomar partido e nem deve fazer isso prematuramente", pontua Lopes, da UFMG.
Segundo o professor de política internacional, há ainda outros fatores que tornam praticamente improvável que o país vire um alvo de explosões: capacidade militar considerável, atributos geográficos favoráveis e demografia.
"O principal deles é a geografia, por não estar tão conectado ao principal palco da batalha. Por isso, a gente pode optar por um distanciamento, ao menos por algum tempo, sem precisar se envolver nas dinâmicas", afirma Lopes, que acrescenta que o Brasil também possui um exército importante, ao menos para padrões latino-americanos, capaz de resistir - além de uma população de 200 milhões de habitantes.
"A costa marítima brasileira também é extensa e chegar até aqui não é trivial", finaliza.