Vídeos no TikTok exploram desinformação contra mãe de crianças mortas pelo pai em Goiás

POSTAGENS MENTEM QUE MÃE TERIA PLANEJADO CRIME EM ITUMBIARA; NA VERDADE, POLÍCIA CONCLUIU QUE THALES MACHADO AGIU SOZINHO

3 mar 2026 - 12h45

Alerta: a reportagem abaixo trata de temas como suicídio e transtornos mentais. Se você está passando por problemas, veja ao final do texto onde buscar ajuda.

Postagens criam teoria infundada sobre caso em Itumbiara (GO).
Postagens criam teoria infundada sobre caso em Itumbiara (GO).
Foto: Reprodução/TikTok / Estadão

O caso do secretário que atirou contra os filhos de 12 e 8 anos e tirou a própria vida em Itumbiara (GO) vem sendo explorado em vídeos no TikTok de forma distorcida. Postagens espalham afirmações falsas sobre uma suposta nova linha de investigação em que a mãe das crianças seria suspeita dos assassinatos. Nada disso é verdade.

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O Verifica encontrou vídeos que afirmam que a mãe das crianças teria ordenado as mortes para se beneficiar de um seguro de vida. Os vídeos acumulam centenas de curtidas e comentários, mas as alegações são falsas, conforme informou a Polícia Civil de Goiás (PCGO), responsável pelas investigações.

Os investigadores concluíram na sexta-feira, 27, o inquérito sobre o caso. As investigações apontaram que Thales Machado, de 42 anos, agiu sozinho e que o crime foi premeditado. Ele era secretário de governo da prefeitura de Itumbiara.

Segundo a Polícia, Machado atirou contra os filhos enquanto eles dormiam. Não havia sinais de arrombamento na casa. A mãe das crianças estava em São Paulo no momento do crime.

O crime aconteceu em 12 de fevereiro. O filho mais velho, de 12 anos, morreu no Hospital Municipal Modesto de Carvalho (HMMC). Já o mais novo, de 8 anos, foi levado em estado gravíssimo para o Hospital Estadual de Itumbiara e, após um dia internado, faleceu.

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Vídeos no TikTok inventam laudo e usam reportagem fora de contexto

No TikTok, um vídeo com mais de 44 mil curtidas afirma que Thales "pode ser a principal vítima dessa tragédia". O conteúdo diz que "um laudo feito pela perícia" apontaria que o autor do crime seria, na verdade, a vítima.

Outra publicação na rede social, com 16 mil curtidas e mais de 5 mil compartilhamentos, informa que a mãe das crianças seria uma "viúva negra" que matou os filhos e o marido para esconder o segredo de uma traição conjugal. Essa postagem usa imagens de uma reportagem sobre um outro crime, transmitida em um programa policial.

Outro vídeo no TikTok simula que a esposa de Thales teria confessado estar arrependida de ter pagado para matar "marido e filhos".

Nenhum desses vídeos está de acordo com as informações divulgadas pela polícia goiana, que concluiu que Thales agiu sozinho e premeditou o crime.

Especialistas avaliam que conteúdos caracterizam violência de gênero

A pesquisadora Luciane Belin, coordenadora do NetLab da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que a tática usada nas postagens analisadas faz parte de um fenômeno caracterizado como desinformação de gênero.

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"É o tipo de desinformação que é considerado um tipo de violência, que usa narrativas falsas ou enganosas para revitimizar mulheres ou para vitimar mulheres", explicou.

A pesquisadora explica que esse tipo de violência é comum em casos de grande repercussão midiática, como o de Itumbiara. Também ocorre com frequência contra mulheres que ocupam cargos na esfera pública.

O NetLab fez um estudo que mapeou canais no YouTube que usam a misoginia como estratégia de monetização na rede e encontrou diferentes exemplos desse tipo de violência.

"Existiam milhares de vídeos que discutiam casos de violência contra mulher que ganharam repercussão nacional, sempre de uma ótica de que a mulher estava mentindo", explicou a pesquisadora.

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A estratégia de atribuir culpa à mulher vítima é comum em diferentes redes sociais, segundo Luciane. Para a pesquisadora, esse tipo de desinformação pode atingir também outras mulheres, que se sentem desencorajadas a denunciar crimes ou violência por medo de retaliação.

Vale ressaltar que a reação de culpar a vítima não acontece só online. Segundo a antropóloga Beatriz Accioly, líder de Políticas Públicas Pelo Fim da Violência Contra Mulheres no Instituto Natura, esse padrão é comum em casos de violência sexual e violência doméstica.

"Em vez de concentrar a análise na ação do agressor, o foco se move para a conduta da mulher", descreveu. "Ao invés de perguntar 'por que ele matou?', começa-se a perguntar 'o que ela fez?', 'com quem ela falava?', 'como era o relacionamento?'. A vida íntima da mulher vira objeto de investigação pública".

Para Accioly, deslocar a responsabilidade do autor para a vítima é uma forma de perpetuar a violência contra mulheres.

"É uma forma de proteger a ideia de que esses casos seriam exceções ou dramas privados, frutos de uma provocação individual, e não parte de um padrão de violência de gênero", opinou. "Ao transformar a mulher em suspeita moral, a sociedade evita encarar o problema como estrutural".

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Além das consequências sociais da desinformação de gênero, há também os problemas individuais causados a quem é alvo de mentiras. A psicóloga Arielle Sagrillo, consultora em gênero, violência e saúde mental, avalia que os danos para a mulher que é alvo de campanhas de difamação podem ser profundos.

"Há prejuízos diretos à reputação e à imagem pública, além de um aumento significativo de sofrimento psíquico, ansiedade, depressão, retraumatização e sensação de desamparo institucional e social", enumerou. "Esses ataques produzem, ainda, riscos reais à segurança física dessas mulheres".

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Onde buscar ajuda em casos de sofrimento psíquico

Se você está passando por sofrimento psíquico ou conhece alguém nessa situação, veja abaixo onde encontrar ajuda:

Centro de Valorização da Vida (CVV): Se estiver precisando de ajuda imediata, entre em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), serviço gratuito de apoio emocional que disponibiliza atendimento 24 horas por dia. O contato pode ser feito por e-mail, pelo chat no site ou pelo telefone 188.

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Canal Pode Falar: Iniciativa criada pelo Unicef para oferecer escuta para adolescentes e jovens de 13 a 24 anos. O contato pode ser feito pelo WhatsApp, de segunda a sexta-feira, das 8h às 22h.

SUS: Os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) são unidades do Sistema Único de Saúde (SUS) voltadas para o atendimento de pacientes com transtornos mentais. Há unidades específicas para crianças e adolescentes. Na cidade de São Paulo, são 33 Caps Infantojuventis e é possível buscar os endereços das unidades nesta página.

Mapa da Saúde Mental: O site traz mapas com unidades de saúde e iniciativas gratuitas de atendimento psicológico presencial e online. Disponibiliza ainda materiais de orientação sobre transtornos mentais.

NOTA DA REDAÇÃO: Suicídios são um problema de saúde pública. Antes, o Estadão, assim como boa parte da mídia profissional, evitava publicar reportagens sobre o tema pelo receio de que isso servisse de incentivo. Mas, diante da alta de mortes e tentativas de suicídio nos últimos anos, inclusive de crianças e adolescentes, o Estadão passa a discutir mais o assunto. Segundo especialistas, é preciso colocar a pauta em debate, mas de modo cuidadoso, para auxiliar na prevenção. O trabalho jornalístico sobre suicídios pode oferecer esperança a pessoas em risco, assim como para suas famílias, além de reduzir estigmas e inspirar diálogos abertos e positivos. O Estadão segue as recomendações de manuais e especialistas ao relatar os casos e as explicações para o fenômeno.

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