Vacina contra covid não é 'mais letal da história'; afirmação se baseia em dados não confirmados

EM VÍDEO QUE VIRALIZOU, MÉDICO REPETE ALEGAÇÕES FALSAS FEITAS EM 2021 POR ROBERT F. KENNEDY JR.; AUTOR DO CONTEÚDO FOI PROCURADO, MAS NÃO RESPONDEU

1 jul 2026 - 16h31

O que estão compartilhando: vídeo em que médico afirma que a vacina contra a covid-19 é a "mais letal que já foi produzida até hoje", citando o secretário de saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy. Ele acrescenta que as vacinas de RNA mensageiro seriam "terapias gênicas" e estariam relacionadas a um aumento na incidência de casos de câncer.

Não há indícios de relação entre imunizantes da covid-19 e incidência de câncer
Não há indícios de relação entre imunizantes da covid-19 e incidência de câncer
Foto: Reprodução / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. A fala de Kennedy é de 2021, quando ele ainda não era secretário de Saúde. A afirmação não tem embasamento na realidade: ela considera dados de um sistema de notificações de possíveis eventos adversos, que não têm confirmação de que sejam ligados à vacinação.

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Também é falso que as vacinas de MRNA sejam "terapias gênicas", ou seja, que sejam capazes de modificar o DNA dos pacientes. E não há qualquer evidência de que elas tenham relação com casos de câncer ou com a progressão da doença.

Qualquer pessoa pode registrar possíveis eventos adversos no Vaers, mesmo sem ter certeza de que eles estão ligados à vacinação. O próprio site da plataforma afirma que "o número de registros, por si só, não pode ser interpretado como evidência de uma associação causal entre uma vacina e um evento adverso, nem como evidência sobre a existência, gravidade, frequência ou taxa de problemas associados às vacinas."

A FDA também alerta que os dados do sistema "podem conter informações incompletas, imprecisas, circunstanciais ou não verificáveis". Ao contrário de outras bases de dados, as informações do Vaers não passam por verificação prévia.

De acordo com os dados mais recentes do Vaers, usuários notificaram 15 mil mortes de pessoas que tomaram a vacina contra a covid-19. Mas, como os Centros de Controle e Prevenção de Doença (CDC) dos Estados Unidos informaram ao PolitiFact, esses óbitos podem incluir atropelamentos e acidentes, e não têm relação comprovada com a vacinação. Segundo o CDC, centenas de milhões de doses já foram aplicadas desde 2021 nos EUA.

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Vacinas contra a covid-19 não são 'terapia gênica'

No vídeo, o médico afirma que as vacinas de RNA mensageiro seriam "terapias gênicas" - ou seja, que seriam capazes de mudar a genética dos pacientes. Ele diz que as injeções levariam a um processo inflamatório e, consequentemente, a doenças crônicas. Rodrigues menciona ainda um aumento no número de casos de câncer.

Mas essas afirmações também não têm embasamento científico. Ao Verifica, a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBim) afirmou que as vacinas de RNA mensageiro são seguras e não provocam alterações genéticas. Nesses imunizantes, o organismo produz uma resposta imunológica a partir da introdução de um mRNA sintético, que é eliminado após cumprir a função.

Em uma nota de 2022, a Anvisa explicou que a "terapia gênica utiliza-se de material genético humano, manipulado em laboratório, para tratamento de doenças genéticas ou relacionadas". Não é o caso das vacinas contra a covid.

As vacinas de mRNA "usam o código genético do vírus da covid-19 para fabricar de forma sintética o chamado RNA mensageiro (RNAm), para que nossas células produzam a proteína característica do vírus e induzam a resposta imunológica".

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A SBim destaca que os imunizantes não têm qualquer relação com a incidência de câncer. O vice-presidente da SBim, Renato Kfouri, destaca que o efeito observado das vacinas é positivo. "O que a gente viu foi a vacina reduzindo inflamações, infarto, doença coronariana", disse.

Ele refutou a afirmação de que os imunizantes seriam "letais" lembrando que eles devem passar por várias etapas de aprovação por autoridades de saúde antes de chegarem ao público. "Vacinas que provocam morte não são licenciadas. Elas param nos estudos clínicos e não chegam nem aos testes em humanos", explicou.

Em abril deste ano, o Ministério da Saúde divulgou uma nota explicando que os imunizantes seguem protocolos rigorosos antes e depois da aplicação. Segundo a pasta, o aumento nos casos de câncer após a pandemia pode estar relacionado à diminuição de testes preventivos durante o período.

"O atraso nos diagnósticos explica o aumento de casos detectados em estágios mais avançados, e não as vacinas", informou o ministério. "Os números (de casos de câncer) seguem dentro do padrão histórico, com cerca de 600 mil casos anuais no País nos últimos anos, sem alta anormal após o início da vacinação".

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