Canais no YouTube promovem novo jeito de desinformar ao produzir ficção com personagens reais

VÍDEOS GERADOS COM INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL INSEREM POLÍTICOS E TEMAS DO NOTICIÁRIO EM ENREDOS CRIADOS COM SUPOSTO OBJETIVO DE ENTRETER; PLATAFORMA NÃO SE MANIFESTOU

28 jun 2026 - 05h10

Um canal no YouTube com mais de 220 mil inscritos e 14,5 milhões de visualizações convida o público a assistir seu conteúdo "com discernimento". Outro se apresenta como um lugar onde "realidade e imaginação se misturam para criar enredos que fazem pensar, emocionar e, muitas vezes, chocar". Essas descrições poderiam remeter a canais de ficção, mas o que se divulga nesses espaços é desinformação política.

Canal que tinha mais de 220 mil seguidores costumava viralizar conteúdos desinformativos, mas alegava publicar histórias de ficção com o objetivo de gerar entretenimento
Canal que tinha mais de 220 mil seguidores costumava viralizar conteúdos desinformativos, mas alegava publicar histórias de ficção com o objetivo de gerar entretenimento
Foto: Reprodução/YouTube / Estadão

Os vídeos publicados nesses canais usam personagens reais, cenários verdadeiros e contextos factíveis. Mas inventam episódios, criam narrativas sem fundamento e espalham desinformação livremente. Eles se justificam dizendo que as histórias narradas por lá, criadas com inteligência artificial, são "ficção" para fins de "entretenimento". Para pesquisadores, essa é uma estratégia nova de poluir o ambiente informativo.

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O Estadão Verifica mapeou sete canais no YouTube que usam inteligência artificial para criar histórias fictícias sobre personalidades da política brasileira. Juntos, eles acumulam mais de 2 milhões de seguidores e 21 milhões de visualizações. Até o dia 24 de junho, quatro permaneciam no ar.

Dos sete, três deles avisam na descrição do canal ou no final da legenda de cada vídeo que as informações publicadas lá são fictícias, têm o objetivo de gerar entretenimento ou "estimular o debate e o pensamento crítico". Os demais não trazem nenhum tipo de aviso: apenas publicam histórias inventadas como se fossem verdadeiras.

Nesses canais, viralizaram vídeos alegando que o bilionário Elon Musk teria hackeado a Receita Federal; que a ministra da Secretaria de Relações Institucionais do governo federal, Gleisi Hoffmann, teria fugido para a Bolívia com R$ 14 milhões no porta-malas de um carro; que a primeira-dama Janja da Silva teria sido presa num aeroporto com R$ 8 milhões; que uma juíza teria inocentado o ex-presidente Jair Bolsonaro; que o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino teria sido encontrado caído nas dependências da Corte; e que o também ministro do STF Alexandre de Moraes teria renunciado ao cargo.

Para o pesquisador Everton Santana, membro do Núcleo de Estudos de Jornalismo (NJor) da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/Ufba), os conteúdos publicados nesses canais nem sequer poderiam ser chamados de ficção. "Se o objetivo fosse produzir ficção, não seriam usados personagens reais", afirmou.

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Outro problema é o fato de o aviso de "ficção" não aparecer no vídeo em si, e sim na descrição do canal - que fica em uma página distinta - ou no final da legenda. Quando esses conteúdos são compartilhados em outras redes sociais, como Instagram, Facebook, TikTok, X e no WhatsApp, eles ficam sem nenhum tipo de alerta.

Capilaridade dos conteúdos foge ao controle

Em várias ocasiões, o Estadão Verifica encontrou em outras redes sociais vídeos inicialmente publicados nos canais do YouTube. Como não há um aviso sobre o caráter fictício do conteúdo no próprio vídeo, eles chegam a outras plataformas como se fossem verdade. Por exemplo, um perfil no Facebook publicou um vídeo que afirmava que o ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro teria feito uma delação premiada nos EUA e citado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Alexandre de Moraes. A história era inventada, mas não havia nenhum aviso no vídeo sobre isso. No YouTube, um trecho no final da legenda dizia: "DISCLAIMER: Conteúdo ficcional de entretenimento".

Em fevereiro, uma mesma história viralizou em mais de um canal no YouTube: a de que o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto havia fugido para os Estados Unidos a fim de entregar à CIA um dossiê com provas de corrupção contra Lula e Moraes. Desta vez, o conteúdo foi parar no Instagram, TikTok e no WhatsApp, novamente sem aviso sobre ser uma "ficção".

Essa capilaridade faz com que seja difícil medir o impacto da desinformação, segundo a pesquisadora Nicole Sanchotene, coordenadora de projetos do NetLab, o laboratório de estudos sobre internet e redes sociais da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Eco-UFRJ). "No momento em que um conteúdo começa a circular, mesmo que a página indique que é ficção, a gente não consegue nem mensurar o impacto que isso pode ter", disse. "O sistema de desinformação é muito capilar, e a gente não consegue imaginar o alcance disso, quantas pessoas foram impactadas negativamente."

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Um dos canais mapeados no YouTube, por exemplo, ficou fora do ar no final de janeiro. Ao retornar, os responsáveis disseram ter sido censurados por Moraes e deixaram de exibir o aviso sobre ficção e entretenimento. Agora, os vídeos já não estão disponíveis, embora o canal permaneça no ar. O STF foi procurado para comentar se houve alguma determinação para remover o canal, mas não respondeu até a publicação deste texto.

Enquanto o canal ficou fora do ar, os conteúdos "fictícios" continuaram a ser publicados em outras redes. No TikTok, um perfil em homenagem ao ex-presidente Jair Bolsonaro publicou vídeos deste canal por cerca de um mês, até sair do ar. Em nota ao Verifica, o TikTok explicou que o conteúdo foi removido por violar as diretrizes da comunidade.

Na rede chinesa, os vídeos apareciam com um rótulo de que eram produzidos com inteligência artificial. De acordo com o TikTok, incluir esse aviso não basta para evitar a remoção. "Mesmo com rótulos, alguns conteúdos editados ou gerados por IA ainda podem ser prejudiciais", disse a nota, destacando a proibição de "qualquer forma de conteúdo enganoso sobre assuntos de importância pública ou prejudicial às pessoas".

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As regras de uso da plataforma não permitem conteúdos gerados por IA que induzam ao erro sobre um assunto de importância pública, como eventos de crise, figuras públicas sendo humilhadas, assediadas ou vinculadas a comportamento criminoso, ou ainda sendo retratadas como se tivessem tomado um posicionamento político ou tecendo críticas e declarações que nunca fizeram.

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Para Sanchotene, esse modelo de disseminação de desinformação, com um rótulo de ficção escondido, parece novo. "A gente sabe que a desinformação é algo muito mais sofisticado do que a divulgação de notícias falsas. Ela pode se manifestar de formas mais sutis, como o uso de informação descontextualizada. São formas de desinformar, de distorcer o debate público. Então, distorcer e dizer que se trata de ficção é mais uma face do fenômeno que ganha expressões cada vez mais sutis."

Em janeiro de 2026, o CEO do YouTube, Neal Mohan, usou o blog da plataforma para falar sobre novidades e reconheceu que está cada vez mais difícil diferenciar o que é real daquilo que é gerado por IA, sobretudo quando se trata de deepfakes. Segundo a plataforma, a IA deve ser uma ferramenta de expressão dos criadores, mas não uma substituta, e os conteúdos devem ser sinalizados. "Rotulamos claramente o conteúdo criado pelos produtos de IA do YouTube, e os criadores devem divulgar quando criaram conteúdo realista alterado ou sintético. Como os rótulos nem sempre são suficientes, removemos qualquer mídia sintética prejudicial que viole nossas Diretrizes da Comunidade", diz o texto assinado pelo CEO.

Procurado para falar sobre os canais e a estratégia de espalhar desinformação amparada no rótulo de ficção, o YouTube não respondeu até a publicação desta reportagem. Dos sete canais mapeados, quatro continuam no ar, e não há informações claras que indiquem se são monetizados.

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Apenas um dos canais mapeados tem um meio de contato, um e-mail para publicidade. O canal foi procurado e questionado sobre a estratégia, se tem um jornalista responsável, se é monetizado e se considera que seus conteúdos são desinformativos, mas não respondeu.

Para pesquisadores, as plataformas precisam assumir um papel mais ativo no monitoramento do que é publicado e recomendado, já que muitos desses canais ganham dinheiro espalhando desinformação, e ainda promovem lucro para a plataforma, na medida em que acumulam milhões de visualizações e geram tráfego. "Uma plataforma como o YouTube tem a condição de estabelecer mecanismos para controlar a desinformação, mas ganha sobre isso em alcance, em visibilidade", apontou Everton Santana, do Njor.

Para Nicole Sanchotene, do NetLab, falta responsabilização e transparência. "Essas plataformas não são meramente intermediárias entre os usuários", observou. "Elas definem o que as pessoas vão assistir, e a gente não sabe quais são os critérios de recomendação de conteúdo."

A pesquisadora citou um estudo feito pelo laboratório da UFRJ sobre canais com conteúdos misóginos, que incitam o ódio contra mulheres, mas continuam no ar e até cresceram após a divulgação dos dados. "Em muitos casos, a gente vê que os conteúdos violam a política da plataforma, e o fato de que eles ficam no ar mostra que nem a plataforma respeita sua própria política", afirmou.

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Desinformação com cara de telejornal se multiplica

Nos canais mapeados, o Verifica encontrou diferentes vídeos fabricados para simular telejornais. É comum que o conteúdo tenha um gatilho de urgência: o "âncora" fala em uma necessidade de assistir logo porque "a mídia tradicional" não vai falar sobre o tema.

A reportagem encontrou vídeos em que personagens fabricados com inteligência artificial aparecem em frente a uma redação de um veículo de imprensa, a uma estante cheia de livros e até em um estúdio de televisão com uma imagem do Capitólio, nos Estados Unidos. Tudo isso para imitar a estética de telejornais.

Há uma tentativa de fazer parecer que as informações contidas nos vídeos foram apuradas por uma equipe jornalística com fontes exclusivas nos centros de poder. Mas não são citados nomes, nem de um jornalista, nem de uma equipe responsável.

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Nicole Sanchotene, do NetLab, salienta que essa estratégia de "imitar" um telejornal é emblemática. Isso porque há diversos estudos sobre desinformação que mostram que muitos conteúdos usam uma aparência amadora para se distanciar do sistema da "grande mídia".

"Existe uma tentativa de descredibilizar jornalistas ou empresas de mídia e comunicação como se esses profissionais não tivessem mais credibilidade. Mas, ao mesmo tempo, existe um movimento de querer se valer das credenciais", avaliou.

"No final das contas, isso mostra que essa credibilidade (dos jornalistas) não está tão em baixa assim", disse.

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