Post engana ao atribuir derrotas da esquerda na América Latina ao fim de recursos da USAID

ELEIÇÕES NA REGIÃO FORAM RECONHECIDAS POR OBSERVADORES INTERNACIONAIS E NÃO HÁ EVIDÊNCIAS DE FRAUDES GENERALIZADAS

25 jun 2026 - 16h52

O que estão compartilhando: que desde que os fundos da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) foram cortados a esquerda perdeu praticamente todas as as eleições na América Latina. Os comentários da publicação destacam que não há mais recursos para "fraudar as eleições".

Sem provas, postagem associa crescimento da direita na América Latina a cortes na USAID
Sem provas, postagem associa crescimento da direita na América Latina a cortes na USAID
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A América do Sul passa por uma guinada à direita, mas isso não tem relação direta com o desmantelamento da USAID por parte do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Os presidentes de esquerda que antecederam os direitistas foram eleitos em pleitos reconhecidos por adversários e organizações internacionais, e não há evidências de fraudes generalizadas. No caso do Brasil, o Verifica já mostrou anteriormente que nenhum repasse da USAID para organizações no País foi destinado a projetos eleitorais.

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O autor da postagem foi procurado, mas não retornou.

Saiba mais: a postagem verificada mostra dois mapas da América do Sul, dispostos lado a lado, comparando a região nos anos de 2022 e 2026.

O mapa que simboliza 2022 mostra a maior parte do continente pintada na cor vermelha, representando o espectro político alinhado à esquerda. Já o mapa de 2026 é representado majoritariamente pela cor azul, que simboliza o espectro alinhado à direita. A legenda sobreposta escreve: "Desde que os fundos da USAID foram cortados, a esquerda perdeu praticamente todas as eleições na América Latina".

No início de 2025, Trump disse que a USAID é "administrada por lunáticos radicais de esquerda" e congelou o trabalho da agência. Os ataques à organização deram início à uma campanha de desinformação sobre eleições e corrupção (veja aqui as checagens sobre o tema).

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A publicação contém diversos comentários que impulsionam teorias infundadas de fraude eleitoral e insinuam que a USAID foi responsável por colocar a esquerda no poder na América Latina. Agora, após grandes cortes na agência, os usuários sugerem que o dinheiro da agência era usado para interferir nas eleições.

"Não têm mais recursos para fraudar as eleições", escreveu um usuário. "Duvido as urnas deixarem o Brasil mudar de cor [de vermelho, da esquerda, para azul, da direita], tem muita coisa envolvida", disse outro.

Não há evidências de que USAID tenha interferido nas eleições brasileiras de 2022

Em 2025, o Estadão Verifica fez um levantamento dos repasses da USAID a organizações que atuam no Brasil, que estão registrados no site ForeignAssistance.gov. Durante o período fiscal de 2022, mais de US$ 29,2 milhões foram investidos pela agência no Brasil - os projetos beneficiados incluem saúde, educação e assistência social. Não há nenhum registro relacionado às eleições.

O núcleo de checagem do Estadão também analisou o ano fiscal de 2023. Até setembro daquele ano, a USAID destinou mais US$ 19,9 milhões a organizações com base no Brasil, mas sem nenhum projeto eleitoral. Os contratos de 2018 a 2021, que continuaram ativos até 2022, também não apresentaram projetos ligados ao pleito.

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Os comentários da publicação atacam o sistema de votação eletrônico usado no País e acusam, sem provas, as eleições de 2022 de fraude. As urnas eletrônicas são usadas no Brasil desde 1996 e, desde então, não há provas de irregularidade.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a segurança da urna é feita em diferentes barreiras que não permitem a violação do sistema. A votação também conta com diferentes mecanismos de auditoria - algo que constantemente é alvo de desinformação nas redes. Veja aqui todas as checagens do Verifica sobre o equipamento de votação.

Líderes de esquerda de países citados tiveram vitória reconhecida por adversários e órgãos internacionais

Em uma segunda imagem, a publicação apresenta uma lista de sete países (Chile, Bolívia, Peru, Equador, Honduras, Colômbia e Costa Rica). Abaixo de cada nação, há o nome de um político de direita que venceu as eleições após o período de 2022. O que a postagem omite é que a eleição dos antecessores de esquerda foi reconhecida pelos próprios adversários e por organizações internacionais, sem indícios de fraude.

Em relação ao Chile, a postagem cita José Antonio Kast, que venceu as eleições presidenciais em dezembro do ano passado. O antecessor de Kast é o esquerdista Gabriel Boric, eleito em 2021. Na época, a vitória de Boric era esperada, com quase um milhão de votos a mais do que Kast, e foi reconhecida pelo adversário.

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Em seguida, a postagem menciona a Bolívia, atualmente governada por Rodrigo Paz, eleito em outubro de 2025. A eleição encerrou um período de 20 anos de governos de esquerda.

O antecessor Luis Arce foi eleito em 2020. Seu principal adversário na disputa, Carlos Mesa, afirmou que as projeções eram "muito contundentes e muito claras" e que lhe cabia apenas "reconhecer que há um vencedor na eleição". A Missão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA) classificou o pleito como "bem-sucedido e pacífico".

O Peru é mencionado com destaque à candidata Keiko Fujimori. Com 99,86% das urnas apuradas, Fujimori alcançou uma vantagem irreversível contra o adversário Roberto Sánchez. O resultado oficial, porém, será divulgado apenas nos próximos dias.

Em 2021, o Peru elegeu o esquerdista Pedro Castillo como presidente. Fujimori, adversária de Castillo na época, denunciou supostas irregularidades no pleito, mas elas foram rechaçadas pelo Jurado Nacional de Eleições (JNE) do Peru. A Missão de Observação Eleitoral da OEA disse não ter detectado nenhuma "irregularidade grave". Posteriormente, Fujimori reconheceu o resultado.

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Em sequência, a postagem destaca o Equador e cita Daniel Noboa, que foi reeleito em 2025. Anteriormente, ele havia sido eleito para um mandato tampão, depois que Guillermo Lasso foi deposto pela Assembleia, em 2023.

Lasso saiu vitorioso das eleições de 2021, mas, ao contrário do que sugere a publicação, ele não era de esquerda. Ele é considerado conservador e sua eleição marcou o retorno da direita após duas décadas. A Missão de Peritos Eleitorais da União Europeia declarou que o processo foi transparente e confiável.

Já Honduras é mencionado com Nasry Asfura, eleito em dezembro de 2025. A antecessora, a esquerdista Xiomara Castro, foi eleita em 2021. A vitória de Castro foi reconhecida pela oposição e pela Missão de Peritos Eleitorais da União Europeia.

A publicação também destaca a vitória de Abelardo de la Espriella nas eleições deste ano na Colômbia. O antecessor Gustavo Petro foi eleito em 2022, com o marco de ser o primeiro presidente de esquerda na história colombiana. O resultado foi reconhecido pelo presidente da época, Iván Duque, pelo adversário Rodolfo Hernández e pela Missão de Observação Eleitoral da OEA.

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Por fim, o conteúdo cita Laura Fernández na Costa Rica, eleita em fevereiro deste ano. Ao contrário do que sugere a publicação, o antecessor eleito em 2022, Rodrigo Chaves, não era de esquerda, mas sim conservador. A Missão de Observação Eleitoral da OEA classificou o pleito como "bem-sucedido" e reforçou a solidez do sistema eleitoral da Costa Rica.

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