É falso que gado apreendido no Pará tenha sido contrabandeado para 'crime internacional' na Bolívia

ICMBIO INFORMOU TER APREENDIDO ANIMAIS CRIADOS ILEGALMENTE EM ÁREA DE CONSERVAÇÃO; ELES FORAM DESTINADOS AO ABASTECIMENTO DE PROGRAMAS DE MERENDA ESCOLAR E HOSPITAIS PÚBLICOS

25 jun 2026 - 16h11

O que estão compartilhando: que o gado apreendido pelo governo no Pará estaria sendo transportado pela fronteira da Bolívia para abastecer o "crime internacional". Isso teria acontecido depois de o Exército ter sido retirado da fronteira brasileira por causa de cortes orçamentários.

Gado apreendido no Pará foi doado para escolas, e não enviado para a Bolívia
Gado apreendido no Pará foi doado para escolas, e não enviado para a Bolívia
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. A Polícia Federal negou a existência de investigações ou de evidências sobre o desvio de animais apreendidos para organizações criminosas. Também não é verdade que o Exército tenha saído da fronteira - as operações de patrulhamento e vigilância estão em curso apesar de realmente ter havido corte orçamentário.

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Recentemente, o Instituto Chico Mendes de Biodiversidade (ICMBio) organizou a Operação Pasto Nullus, para apreender gado ilegal na Estação Ecológica (Esec) da Terra do Meio, no Pará. Ao todo, os fiscais apreenderam 436 cabeças de gado na unidade de conservação, que foram destinadas a doação (saiba mais abaixo).

Vale ressaltar que o Pará não faz fronteira com a Bolívia e a área onde ocorreu a operação não fica em região fronteiriça.

Saiba mais: Publicado no Instagram, o vídeo acumulou mais de 280 mil curtidas na rede social. O autor do vídeo, o influenciador Alex de Oliveira, acusa o governo federal de fazer tráfico de carne. Ele foi procurado pela reportagem, mas não respondeu.

O influenciador diz que, para transportar os animais pela fronteira com a Bolívia, "o governo cortou bilhões do Exército".

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"E sem soldado na estrada, o corredor ficou livre. A máfia está pegando esse gado roubado do trabalhador brasileiro e contrabandeando direto pra fora do País, lucrando milhões com tráfico de carne na fronteira livre", afirma.

Mas isso não é verdadeiro. Em maio de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto que bloqueou R$ 4,9 bilhões do orçamento da Defesa. Isso de fato fez com que operações específicas na fronteira fossem suspensas. Mas as ações permanentes de patrulhamento e vigilância continuaram a ocorrer normalmente.

O Exército informou ter "intensificado as ações de vigilância e fiscalização na faixa de fronteira dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul". Em 23 de junho de 2026, militares do Comando Militar do Oeste apreenderam 260 toneladas de madeira impregnada com cocaína em estado líquido na fronteira Brasil-Bolívia.

Outra alegação feita no vídeo é a de que senadores teriam "acabado" de descobrir que "milhares desses animais (apreendidos) sumiram da planilha".

Isso também não é verdade. Na realidade, ocorreu uma audiência em março de 2026 no Senado sobre o tema. Ou seja: antes do corte orçamentário da Defesa e antes da operação para apreensão de gado ilegal na Terra do Meio.

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Na audiência, produtores rurais fizeram denúncias relacionadas à Operação 8 Segundos, deflagrada em março de 2025 em Uruará (PA), na qual 337 cabeças de gado foram apreendidas. De acordo com esses relatos de produtores, após decisão judicial, apenas 180 animais retornaram aos proprietários.

O presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Jair Schmitt, explicou que o gado foi apreendido porque a propriedade fiscalizada tinha desmatamento ilegal identificado por imagens de satélite. Ele afirmou que a apreensão ocorreu conforme a legislação ambiental e que o gado foi formalmente doado à Secretaria de Educação de Placas (PA).

Em nenhum momento da audiência se fala sobre desvio de cabeças de gado para a Bolívia ou para o "crime internacional".

O que foi a operação de apreensão de gado?

A operação foi batizada de Pasto Nullus e tinha objetivo de combater a pecuária clandestina, a grilagem de terras e o garimpo ilegal no interior da Estação Ecológica da Terra do Meio, no município de São Félix do Xingu. A unidade de conservação tem 3,3 milhões de hectares e foi criada em 2005. Em áreas como essa, a legislação brasileira proíbe qualquer tipo de exploração econômica, como a pecuária extensiva.

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Além do ICMBio, participaram da ação a Força Nacional de Segurança Pública, a Polícia Militar do Estado do Pará, o Ibama e a Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Pará (Adepará). A PF prestou apoio operacional.

Ao todo, os fiscais apreenderam 436 cabeças de gado e aplicaram R$ 6,5 milhões em multas. Também foram apreendidos R$ 3,2 milhões em materiais e inutilizados R$ 2 milhões em bens usados nos crimes ambientais (incluindo tratores, escavadeiras, motocicletas, motores estacionários, além de ouro ilegal e mercúrio).

Após a deflagração da operação, postagens como a analisada aqui passaram a afirmar que o gado apreendido teria sido roubado - alegação que foi rechaçada pelas autoridades responsáveis.

A Superintendência Regional da Polícia Federal no Estado do Pará informou não ter conhecimento de qualquer evidência que sustente essa versão. A corporação destacou que "não há, no âmbito da Polícia Federal no Pará, registros de apurações envolvendo supostos desvios de animais ou de outros bens apreendidos em operações ambientais para organizações criminosas".

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Durante a operação, as equipes de fiscalização chegaram a sofrer ameaças, e pontes foram destruídas para tentar impedir o acesso dos agentes, o que motivou a instauração de um procedimento investigativo pela Polícia Federal.

Para onde vai o gado apreendido na operação?

De acordo com o ICMBio, o gado apreendido não foi vendido para terceiros, mas encaminhado para doação e abate social. Antes de saírem da região, os animais passaram por avaliação de veterinários da Adepará.

As vacas com bezerros foram levadas para fazendas regulares em situação adequada. Já o rebanho considerado próprio para o consumo humano seguiu para frigoríficos para abastecer hospitais públicos e a merenda de escolas da região. "Nestes casos, os animais são avaliados novamente pelos frigoríficos, tanto antes como após o abate", informou o ICMBio.

Esse tipo de destinação rápida tem base na lei brasileira. A advogada especialista em Direito Ambiental Drisa Kern explica que a doação ou venda de gado é regulada pelo Decreto nº 6.514/08 e por uma instrução normativa do próprio ICMBio.

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O órgão ambiental pode definir o destino dos animais antes mesmo do fim do processo de julgamento da multa. Isso desde que o chefe da unidade ou o coordenador da operação justifique por escrito os motivos e demonstre que manter o gado apreendido no local seria inviável.

Caso o produtor rural consiga reverter a autuação na Justiça ou na esfera administrativa mais adiante, a legislação garante que ele não saia em prejuízo financeiro. Segundo Kern, se a apreensão não for confirmada, o proprietário recebe o valor em dinheiro de volta, calculado com base no preço de mercado que o rebanho tinha no dia em que foi recolhido pelos fiscais.

O ICMBio afirma que a possibilidade de reaver o rebanho depende da análise de cada caso em processo administrativo ou judicial.

Por que o gado foi apreendido?

De acordo com o ICMBio, "a criação de gado é considerada irregular quando ocorre em áreas ocupadas ou desmatadas de forma ilegal, tanto sob o aspecto fundiário quanto ambiental".

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"Um dos principais indicadores de irregularidade é a ocorrência de desmatamento após a criação da Unidade de Conservação (UC), especialmente em áreas públicas destinadas à proteção ambiental", afirmou.

Segundo as regras do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC), é proibido realizar qualquer tipo de atividade econômica no interior de uma Estação Ecológica. A área alvo da operação já estava sob embargo ambiental — uma interdição administrativa que proíbe atividades no local devido ao desmatamento não autorizado.

O pesquisador Pedro Martins, doutorando do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA-UFPA), esclarece que a ilegalidade decorre diretamente do descumprimento dessa interdição.

Ele aponta que a continuidade de uma atividade pecuária em área de desmatamento, onde já se havia declarado o embargo, importa em uma irregularidade ambiental. "O que torna juridicamente ilegal a criação de gado é o fato de o embargo já ter sido declarado pelo órgão ambiental", explicou.

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