O que estão compartilhando: que um estudo teria revelado que crianças vacinadas estão mais doentes que as não vacinadas. A pesquisa teria mostrado que as crianças vacinadas tem taxas 54% maiores de câncer e 549% maiores de autismo, na comparação com as não vacinadas. O assunto teria sido discutido no Senado dos EUA.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Não há evidências que associem vacinas ao desenvolvimento de câncer. E existe consenso científico de que os imunizantes não causam o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
O estudo discutido no Senado americano não foi publicado porque tinha falhas graves na metodologia e nos dados utilizados. O centro médico de pesquisa responsável pelo estudo esclareceu que ele foi arquivado pois não atendeu aos padrões científicos exigidos pela própria instituição.
O Estadão Verifica tentou contato com o autor do vídeo, mas não teve resposta.
Audiência no Senado dos EUA apresentou estudo arquivado
Em setembro de 2025, o Senado americano organizou uma audiência chamada "Como a corrupção da ciência afetou a percepção pública e as políticas relacionadas às vacinas".
Nessa ocasião, foi apresentado o rascunho de um estudo elaborado em 2020 por pesquisadores do centro médico acadêmico Henry Ford Health. O responsável pela apresentação foi Aaron Siri, advogado e conselheiro do Secretário de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr.
Kennedy é cético em relação às vacinas e tem adotado medidas para dificultar o acesso da população americana à imunização, o que é criticado por especialistas.
A única informação disponível ao público sobre o rascunho de estudo provém da própria audiência. De acordo com Siri, os dados não foram publicados pois os pesquisadores responsáveis temiam perder seus empregos.
Mas isso é mentira, de acordo com o Henry Ford Health. O centro de pesquisa médica publicou que, na verdade, o estudo foi imediatamente arquivado após a primeira revisão interna por pares. Foram encontrados sérios problemas na metodologia e nos dados utilizados.
Entre os problemas identificados pela instituição, está o fato de que a amostra de indivíduos não vacinados foi muito pequena em comparação com a de vacinados. No total de 18.468 crianças, 1.957 não foram vacinadas e 16.511 receberam pelo menos uma vacinas.
Outra falha apontada pelo Henry Ford Health foi que o período de observação foi muito mais curto para as crianças não vacinadas. Um quarto delas foi acompanhado apenas até os seis meses de idade, e 75% foram acompanhadas somente até os 3 anos. Essa idade é anterior ao momento em que os médicos podem diagnosticar com segurança doenças pediátricas crônicas.
"O rascunho nunca foi considerado para submissão a periódicos científicos porque não atendia nem de perto aos rigorosos padrões científicos exigidos", esclareceu o Henry Ford Health.
O centro médico afirmou que o rascunho foi compartilhado na audiência do Senado sem o conhecimento da instituição.
Inconsistências da pesquisa foram apontadas na própria audiência. O único médico que atuou como testemunha durante a sessão, o professor associado de doenças infecciosas em Stanford Jake Scott, afirmou que o estudo era "fundamentalmente falho".
Scott apontou que as crianças vacinadas tiveram mais tempo de acompanhamento e passaram por um número substancialmente maior de consultas médicas do que as crianças não vacinadas. Logo, tiveram mais oportunidades de serem diagnosticadas.
Vídeo usa estudo para repetir mentiras sobre câncer e autismo
O conteúdo analisado aqui foi gravado pelo médico Djalma Marques, que se apresenta como Dr. Kefir no Instagram. Ele já foi desmentido em outras checagens do Verifica por espalhar desinformação sobre a covid-19 e sobre autismo.
No vídeo, Marques associa vacinas a câncer e autismo - o que é falso.
Em 2024, o Ministério da Saúde comunicou que vacinas não causam câncer. "É importante esclarecer que não há qualquer evidência que sugira que a imunização possa causar câncer, levar à recorrência da doença ou, ainda, acelerar a progressão", disse.
Em entrevista ao Comprova em 2025, especialistas explicaram que "o câncer é uma doença complexa e multifatorial, e suas causas são variadas, envolvendo fatores genéticos, ambientais e biológicos". Eles reforçaram que não há ligação com imunizantes.
Nenhum imunizante aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e contém substâncias tóxicas que causam câncer. As doses não provocam mutações em células e não geram tumores cancerígenos.
Também não há relação entre os imunizantes e o desenvolvimento de autismo. Conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS), os dados epidemiológicos disponíveis mostram que não há provas de uma ligação entre imunizantes e o autismo. A Anvisa afirma não haver nenhuma indicação de relação entre o uso de vacinas e o autismo.