Vídeo não mostra cristãos enterrados de cabeça para baixo na Nigéria; imagens foram geradas por IA

GRAVAÇÃO QUE CIRCULA NAS REDES SOCIAIS TÊM SINAIS VISÍVEIS DE MANIPULAÇÃO; FERRAMENTA DE DETECÇÃO APONTOU 99,6% DE PROBABILIDADE DE CRIAÇÃO SINTÉTICA

11 mar 2026 - 14h27

O que estão compartilhando: vídeo mostraria cristãos enterrados vivos de cabeça para baixo e com os pés para fora de covas no norte da Nigéria.

Não há registros de que cristãos estejam sendo enterrados vivos no norte da Nigéria; vídeo publicado no Instagram compartilha imagens geradas por IA
Não há registros de que cristãos estejam sendo enterrados vivos no norte da Nigéria; vídeo publicado no Instagram compartilha imagens geradas por IA
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. As imagens foram geradas por inteligência artificial e não têm relação com a violência sofrida por cristãos na Nigéria. Além de identificar sinais de manipulação digital, o Verifica submeteu o vídeo à plataforma Hive Moderation, que detecta conteúdo sintético em mídias. O resultado indicou 99,6% de probabilidade de geração por inteligência artificial ou deepfake. Não há registros de que cristãos estejam sendo enterrados vivos no país africano.

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Saiba mais: O vídeo falso circula nas redes sociais com a alegação de que cristãos estariam sendo enterrados vivos de cabeça para baixo no norte da Nigéria por se recusarem a negar Jesus Cristo.

É verdade que o país enfrenta crises de segurança em várias regiões e que existe um histórico de violência que atinge não apenas cristãos, mas também muçulmanos. No entanto, as imagens apresentam indícios claros de manipulação. Além disso, não há registro de situações como a representada no vídeo em notícias e fontes confiáveis.

A partir de uma busca reversa de imagens (veja aqui como fazer), o Verifica encontrou a íntegra do vídeo publicado por um perfil no Facebook no dia 25 de fevereiro. Um dos sinais visíveis de manipulação aparece quando a gravação dá zoom em alguns pés que estão fora das covas. Nesse trecho, é possível notar que alguns dedos têm formatos incomuns, estão fundidos e até em quantidade menor do que cinco.

Uma característica comum de conteúdos gerados por IA são falhas na criação de detalhes anatômicos, como dentes, dedos das mãos e dos pés. Essa distorção ainda é um desafio para ferramentas que criam imagens e vídeos sintéticos.

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Outro indício de manipulação aparece no cenário ao fundo da gravação. A imagem tem baixa definição, com pessoas pouco nítidas e uma paisagem desfocada, incluindo o céu e uma árvore com aparência borrada. Essa é uma falha comum em vídeos artificiais. Os elementos que estão em foco costumam ter qualidade melhor, enquanto o restante da cena apresenta distorções e baixa definição.

Além disso, uma ferramenta de detecção de conteúdos artificiais apontou 99,6% de chance de o vídeo ser falso. Veja abaixo.

Nigéria ocupa 7º lugar em lista de países onde cristãos são mais perseguidos, segundo ONG

De acordo com a Portas Abertas, uma organização internacional que monitora perseguição a cristãos, a Nigéria é o país mais violento do mundo para praticantes da religião há muitos anos. Segundo a ONG, é no norte do país que os cristãos enfrentam as maiores dificuldades.

Entre os grupos que operam com violência nas regiões Norte e Centro da Nigéria, a organização cita os grupos jihadistas Boko Haram e Estado Islâmico da Província da Àfrica Ocidental (ISWAP, na sigla em ingês).

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A população da Nigéria, de 220 milhões de habitantes, está dividida quase igualmente entre cristãos e muçulmanos. Embora os cristãos estejam entre os alvos dos grupos mencionados, especialistas avaliam que no norte do país, onde ocorre a maior parte dos ataques, a maioria das vítimas de grupos armados são muçulmanos (aqui).

Conforme mostrou o Estadão (aqui), os ataques na Nigéria têm motivações diferentes. Eles ocorrem por motivação religiosa, que atingem tanto cristãos quanto muçulmanos; confrontos entre agricultores e pastores por recursos cada vez mais escassos; rivalidades comunitárias; grupos separatistas; e conflitos étnicos.

Vídeos semelhante, que supostamente mostram cristãos enterrados vivos com as mãos para cima no Sudão, foram desmentidos pela agência Lupa e Coletivo Bereia.

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