Café consumido no Brasil não tem 'nova fórmula', nem causa calvície

ANVISA E ESPECIALISTAS EXPLICAM QUE EXISTE FISCALIZAÇÃO RIGOROSA SOBRE PRODUÇÃO DO GRÃO

29 abr 2026 - 15h57

O que estão compartilhando: que o café vendido em 2026, principalmente o de "baixa qualidade", causaria calvície devido a uma "nova fórmula" introduzida pela indústria, com impurezas e toxinas permitidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Dermatologista diz que não existe recomendação para evitar o consumo como prevenção à queda de cabelo.
Dermatologista diz que não existe recomendação para evitar o consumo como prevenção à queda de cabelo.
Foto: tiago queiroz/estadão / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. A Anvisa informou não ter recebido nenhuma denúncia de alterações na composição do produto. De acordo com um especialista consultado pela reportagem, a legislação brasileira é bastante rigorosa com a produção e a fiscalização da bebida. Por fim, não há evidências científicas de que beber café cause calvície, segundo uma dermatologista ouvida pelo Verifica.

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Anvisa limita presença de produtos químicos e de ocratoxina A no café

A postagem questiona se "você sabe mesmo o que está bebendo em 2026?. Segundo o texto, os cafés de baixa qualidade teriam produtos químicos e maior risco de contaminação por ocratoxina A, uma toxina produzida por fungos que pode causar câncer e danos aos rins. Mas nada disso é verdade.

Segundo a Anvisa, o termo "produtos químicos", citado no post, não existe na legislação sanitária e é muito impreciso.

Os aditivos químicos que podem ser misturados intencionalmente ao café devem ser previamente autorizados pela agência sanitária. A Anvisa avalia a segurança de consumo e define limites de uso.

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No site do órgão há um painel analítico que permite consultar os aditivos alimentares autorizados para o café. São permitidos quatro aditivos: três acidulantes (capazes de aumentar a acidez ou conferir sabor ácido) e um aromatizante natural ou idêntico ao natural.

O órgão também estabelece limites máximos de tolerância de substâncias químicas eventualmente presentes no café por meio de contaminação ambiental, como os metais arsênio ou cádmio.

Já a ocratoxina, também citada no post, pode surgir em várias etapas do processo de produção do café, desde a lavoura até a industrialização. De acordo com Celírio Inácio, diretor executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), o fungo que gera a ocratoxina pode ocorrer em frutos danificados ou com alta umidade.

Isso se aplica a qualquer tipo de produto, inclusive os de maior valor agregado, como os cafés especiais. De qualquer maneira, o tema é tratado com extremo rigor técnico pelos órgãos reguladores, segundo Inácio. "O Brasil tem limites bem definidos e sistemas de controle eficazes que garantem a segurança do produto final", disse. "Portanto, generalizações que associam categorias de café a maior risco, sem base técnica, são incorretas e contribuem para a desinformação."

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De acordo com a Anvisa, os limites legais estabelecidos para ocratoxina A em cafés são aplicáveis a todos os produtos disponíveis no mercado, de 10 microgramas por quilo. Para se ter ideia, 1 grama tem 1.000.000 de microgramas.

A agência explica que o limite independente do "grau de qualidade" do produto. "Qualquer produto com ocratoxina A acima desse limite está irregular", informou.

No ano passado, a toxina foi encontrada em amostras de "café fake". Mas esses produtos não eram regulares e foram apreendidos.

Não existe relação comprovada entre consumo de café e queda de cabelo

A postagem analisada pelo Verifica também diz que a toxina pode causar queda de cabelo, mas isso não é verdade, segundo a dermatologista Violeta Tortelly, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD). Ela explicou que não há evidências consistentes que associem a ocratoxina A diretamente à calvície. "Em situações extremas de toxicidade, pode ocorrer queda de cabelo temporária, geralmente relacionada a deficiências nutricionais secundárias, e reversível após a correção do quadro", afirmou.

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A dermatologista disse que existem estudos que investigam o uso da cafeína com possível estímulo ao crescimento capilar e potencial benefício na melhora da circulação local. Mas esses estudos usam a cafeína de forma tópica, ou seja, diretamente na pele.

Além disso, os resultados ainda são controversos. Diferentes concentrações de cafeína tiveram efeitos distintos, podendo tanto ajudar quanto não trazer benefício significativo. "Como em muitas áreas da medicina, a dose e a forma de uso são determinantes", explicou Violeta.

De forma geral, não há evidências de que beber café cause calvície. "Não existe recomendação para evitar o consumo como prevenção à queda de cabelo", disse ela.

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Legislação não permite qualquer inseto no café

A postagem enganosa afirma que a Anvisa permitiria até 60 fragmentos de insetos a cada 25 gramas de café moído, assim como cascas, paus e outras impurezas.

Isso é verdadeiro e se baseia na Resolução Nº 623, de março de 2022, que dispõe sobre os limites de tolerância para matérias estranhas em alimentos. Mas a Anvisa não permite a presença de qualquer inseto no café.

A agência explicou ao Verifica que muitas das matérias-primas usadas na fabricação de alimentos são oriundas da natureza e requerem algum tipo de tratamento antes de seu uso, como lavagem, filtragem ou separação por peneiras.

Em alguns casos, mesmo usando as melhores práticas, é possível que resíduos permaneçam no produto final. Em outros, quando o processo produtivo não é feito com o rigor necessário, a quantidade de resíduos chega a níveis não toleráveis.

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Parte desses resíduos não oferece riscos à saúde, como fragmentos de insetos de lavoura, resíduos de areia ou até cascas. Outras podem oferecer risco ou veicular microorganismos que causam danos à saúde.

Exemplos de resíduos que causam riscos são fragmentos de pombos ou morcegos, cuja presença nos alimentos só se explica se o ambiente de produção não tiver controle de pragas adequado.

De acordo com a Anvisa, o limite de tolerância de matérias estranhas em alimentos é estabelecido usando referências internacionais e dados de fabricação de alimentos. Em todo caso, não são toleradas quantidades de resíduos que possam trazer risco à saúde do consumidor.

Para o café, a resolução determina como limite tolerável de matérias estranhas:

1,5% de areia ou cinzas insolúveis em ácido; Máximo de cinco ácaros em alíquota definida para o alimento; e60 fragmentos de insetos por 25 g, limitando-se àqueles insetos que são indicativos de falhas no processo de produção de alimentos.

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O descumprimento da resolução constitui infração sanitária.

'Fórmula' do café não mudou

A regulamentação da Anvisa não prevê limites para cascas, paus e outras impurezas extrínsecas do próprio cafeeiro, mas isso é estabelecido na Portaria Nº 570 do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Ela trata especificamente de café e estabelece limite de 1% para o somatório de matérias estranhas e impurezas.

Inácio, da Abic, informa que essa portaria foi a mudança mais recente em relação à indústria do café e ocorreu há quatro anos, em 2022. A regulamentação não muda a composição do produto. Foram atualizados os padrões de classificação e rotulagem do café torrado. "Passaram a exigir informações como espécie do café, ponto de torra e classificação de qualidade", disse Inácio, observando que o movimento foi de aprimoramento e proteção ao consumidor.

O engenheiro químico Ensei Neto, especialista em café e colunista do Paladar, afirma que a legislação brasileira é bastante rigorosa com a produção da bebida. "Ela é muito clara ao afirmar que não pode haver contaminantes. Além disso, a vistoria existe, é uma questão regulamentada e é bem bem rígida", disse.

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De acordo com Inácio, a regulamentação do ministério estabelece de maneira objetiva e baseada em critérios científicos rigorosos os limites de impurezas e matérias estranhas naturais da própria lavoura, como galhos, folhas e cascas do fruto. Por ser o café um produto agrícola, é impossível garantir a ausência total de fragmentos, mesmo seguindo as boas práticas.

A legislação também é clara ao determinar o que é considerado impróprio para o consumo humano. É proibida a comercialização do café torrado que apresente mau estado de conservação, presença de insetos ou detritos acima do permitido, odor estranho e elementos estranhos.

O representante da indústria garante que o setor cafeeiro brasileiro investe continuamente em tecnologia, limpeza, seleção e controle de qualidade. "Os limites estabelecidos são seguros, amplamente estudados e monitorados. Dentro desses padrões, não há qualquer risco à saúde do consumidor", disse.

Defeitos citados no post são características naturais de grãos de café

Outra alegação da postagem é a de que as categorias de café mais comuns no mercado, como "tradicional", "extra forte" e "superior", utilizariam grãos com maior frequência de defeitos.

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Mas o diretor executivo da Abic explica que os defeitos do café são características naturais de grãos que não atingem padrões mais elevados de qualidade. Esses defeitos são diferentes das impurezas, que são elementos provenientes da lavoura e cuja presença é rigidamente limitada e controlada por legislação.

O mercado brasileiro, segundo Inácio, oferece diferentes categorias de café para atender a variados perfis de consumo, o que não significa o comprometimento da segurança do alimento. "Todos os produtos comercializados dentro da legalidade seguem padrões estabelecidos por órgãos reguladores e são próprios para consumo", reforçou.

De acordo com ele, a legislação estabelece limites máximos de defeitos, além de critérios de classificação por tipo e qualidade. "Dentro desses limites, o produto é considerado seguro para consumo", informou. "Se exceder esses limites, ele é caracterizado como em não conformidade ou fraude."

Não existe 'investigação federal' sobre café contaminado causando calvície

A postagem afirma que o "escândalo" da "nova fórmula" do café teria causado "a quebra do sigilo da investigação federal" sobre os efeitos do consumo diário de café de má procedência sobre a absorção de nutrientes ligados ao crescimento saudável do cabelo. Mas isso é mais uma mentira.

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Conforme a Anvisa, não existe investigação federal na agência sobre o tema. Também não existe notícia de uma investigação sobre café em outro órgão federal.

No ano passado, seis toneladas de café impróprio para consumo foram apreendidas no Rio de Janeiro. A fiscalização ocorreu após denúncias realizadas pela Abic, que constatou a venda de produtos adulterados.

Ao Verifica, o representante da associação afirmou que eventuais casos de fraude, como produtos que imitam café, são pontuais e combatidos com firmeza pela entidade e pelos órgãos de fiscalização, que atuam continuamente no monitoramento do mercado e no enfrentamento dessas irregularidades. "O café brasileiro é um produto de excelência, reconhecido mundialmente, resultado de uma cadeia produtiva estruturada, regulada e comprometida com qualidade e segurança", disse.

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