Postagens compartilham imagem de IA para alegar que Irã usa 'desenhos' como iscas militares

ANÁLISE DO SYNTHID INDICOU QUE MÍDIA FOI CRIADA POR FERRAMENTAS DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DO GOOGLE; PAÍSES ENVOLVIDOS NÃO CONFIRMARAM USO DE PINTURAS NO SOLO COMO ESTRATÉGIA

9 mar 2026 - 11h57

O que estão compartilhando: imagens que mostrariam que o Irã pintou desenhos de aviões no chão para enganar bombardeios dos Estados Unidos e de Israel.

Postagens compartilham imagem de IA para alegar que Irã usa 'desenhos' como isca militar
Postagens compartilham imagem de IA para alegar que Irã usa 'desenhos' como isca militar
Foto: Reprodução/Facebook / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. A imagem viral foi criada por inteligência artificial, segundo análise do SynthID, ferramenta do Google que detecta conteúdos gerados com tecnologias de IA da empresa. O uso de desenhos como iscas militares não foi confirmado pelos países envolvidos no conflito. Um especialista ouvido pela reportagem destaca que alvos falsos são historicamente usados em conflitos armados, mas ressalta que desenhos simples no solo dificilmente enganariam sensores modernos.

Publicidade

Saiba mais: O aiatolá Ali Khamenei, ex-líder supremo do Irã, foi morto em uma ofensiva conjunta dos Estados Unidos e de Israel no dia 28 de fevereiro deste ano. O conflito entre os três países continua desde então, com ataques em diferentes locais do Oriente Médio. Nas redes sociais, postagens especulam sobre estratégias militares e atribuem imagens falsas ou fora de contexto à guerra.

Uma das alegações virais é a de que o Irã estaria "enganando" os Estados Unidos e Israel por meio de pinturas no solo. Publicações que acumulam milhares de visualizações compartilham uma imagem que mostraria a estratégia do país persa de desenhar silhuetas que simulam caças F-14.

O Verifica submeteu a mídia ao SynthID, ferramenta do Google. A análise detectou uso de ferramentas de inteligência artificial na geração do conteúdo. Veja abaixo.

O SynthID examina o conteúdo em busca de marcas d'água que rotulam os conteúdos criados com ferramentas de IA do Google. Esses símbolos são incorporados diretamente às imagens para indicar sua origem artificial.

Publicidade

A mesma imagem também foi checada e desmentida pelo India Today.

Postagens usam vídeo antigo

Outras publicações compartilham um vídeo que mostra um bombardeio de um caça F-14, sob a mesma alegação de que seria um "desenho" plantado pelo Irã. Por meio de uma busca reversa (veja aqui como fazer), o Verifica encontrou a gravação no canal do YouTube da Associated Press, em 16 de junho de 2025 - antes, portanto, da atual escalada do conflito.

A reportagem procurou o vídeo original no perfil das Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) no X (antigo Twitter). A postagem abaixo mostra a gravação publicada inicialmente pelo exército israelense:

A legenda da publicação informa que o vídeo mostra um ataque a dois caças F-14 que estavam localizados em um aeroporto em Teerã, capital iraniana. Esses caças, segundo as Forças de Defesa de Israel, tinham como objetivo interceptar aeronaves israelenses.

Publicidade

Um desenho é capaz de 'enganar' sensores de aeronaves de combate?

O engenheiro de manutenção aeronáutica Lauro Nishiura, coordenador de projetos e instrutor titular na Airbus, explica que um simples desenho de avião no solo dificilmente conseguiria "enganar" sensores modernos de aeronaves de combate. Isso porque, segundo ele, os sistemas não dependem apenas de uma única assinatura, como uma imagem visual ou calor isolado.

Nishiura afirma que uma aeronave real apresenta várias características ao mesmo tempo, como forma tridimensional, materiais específicos, reflexão radar característica e uma assinatura térmica associada a sistemas e motores.

"Um desenho pintado no chão não gera assinatura térmica relevante nem a resposta radar típica de uma estrutura metálica complexa", disse. "Mesmo que visualmente pareça um avião em imagens simples ou em vídeos de baixa resolução, para sensores militares modernos isso normalmente não se comportaria como um alvo real", completou.

Ele destaca, porém, que historicamente já foram utilizados "decoys" em conflitos, iscas militares para atrair inimigos. Nishiura cita como exemplo aeronaves infláveis e maquetes tridimensionais como alvos falsos. Essas iscas precisam reproduzir não somente aparência, como também outras assinaturas detectáveis pelos sensores.

Publicidade

Um dos vídeos que gerou debate sobre o uso de iscas no conflito foi publicado na última quarta-feira, 4, pelo exército de Israel. Os comentários especulam que, mesmo após a explosão, o helicóptero teria ficado intacto. Veja abaixo.

Segundo análise de Nishiura, a assinatura térmica do helicóptero parece relativamente uniforme e, após a explosão, a silhueta ainda permanece visível, ainda que de forma parcial.

"Sensores modernos normalmente combinam diferentes formas de detecção, como infravermelho, radar e análise de forma. Um simples desenho no chão dificilmente reproduziria essas assinaturas. Mesmo no vídeo é possível ver comportamento térmico e fumaça compatíveis com algum objeto físico", explicou.

Para ele, não é possível afirmar, pelo vídeo, se o helicóptero que aparece na filmagem é verdadeiramente operacional. O especialista destaca que é plausível pensar que a cena mostre um helicóptero parado e frio, uma carcaça abandonada ou algum tipo de decoy tridimensional usado para atrair ataques. Uma simples pintura no solo, no entanto, é menos provável.

Publicidade

Até o momento, nenhuma das partes envolvidas no conflito confirmou o uso de desenhos como iscas. Irã, Israel e Estados Unidos não se manifestaram sobre as especulações.

Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações