O que estão compartilhando: vídeo em que um homem reproduz um áudio que seria do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes. Ele teria pedido para o procurador-geral da República, Paulo Gonet, arquivar denúncias contra o Banco Master.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O áudio tem várias características típicas de conteúdos gerados por inteligência artificial, como pausas não naturais na fala, falta de entonação em alguns trechos e erros na pronúncia. Além disso, não há notícias em veículos de imprensa sobre o vazamento de um áudio do ministro com o conteúdo mencionado nas redes sociais. Outra característica que aponta para a falsidade do conteúdo é que ele foi publicado por um perfil no Instagram que costuma criar áudios sintéticos imitando vozes de personalidades e políticos.
O autor do vídeo foi procurado, mas não respondeu.
Saiba mais: na gravação, a voz atribuída falsamente a Moraes afirma que ele e dois colegas do STF, Gilmar Mendes e Dias Toffoli, têm negócios com o banqueiro Daniel Vorcaro. Em um trecho, o áudio afirma que o "contrato de R$ 129 milhões da minha esposa com o Banco Master vai dar muita conversa ainda" e pede que a investigação contra a financeira seja arquivada.
Segundo a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, um contrato do Banco Master com a mulher do ministro, Viviane Barci de Moraes, previa que o escritório da família trabalhasse na defesa dos interesses da instituição e de Vorcaro.
Áudio tem características de conteúdos de IA
Segundo o consultor em inteligência artificial Pedro Burgos, professor de jornalismo do Insper, há marcadores no áudio que indicam ter sido utilizada uma ferramenta de inteligência artificial para a criação do conteúdo.
Burgos explica que o vídeo usa algumas estratégias para camuflar características de áudios gerados por IA. Por exemplo, o conteúdo usa uma música de fundo constante e alta. Além disso, há uma distorção para que o áudio aparente ser uma gravação de telefone.
Assim, segundo Burgos não há como cravar que a gravação seja oriunda de inteligência artificial sem uma ferramenta forense de análise do áudio. Mas há pelo menos dois marcadores que apontam ter sido utilizada uma ferramenta de inteligência artificial. O primeiro é a forma como é pronunciado o valor de 129 milhões.
"Tem uma pausa não natural entre os números, bem comum em áudio sintetizado", observou Burgos.
O segundo é o final da gravação, quando a voz se despede afirmando "mais tarde conversamos". De acordo com o especialista, o áudio é cortado, mas parece que a fala vai ter continuidade.
"É comum em geradores de áudio com IA esse problema de entonação (ou falta de) no fim das frases. A gente vê isso em outros momentos da fala", disse.
Áudio atribuído a Moraes com ameaças a Alcolumbre e Motta é falso
Vídeo em que Moraes e esposa brindam para comemorar contrato milionário com Master foi gerado com IA
O Verifica identificou também um erro de pronúncia do sobrenome do ministro Toffoli, cuja primeira sílaba é pronunciada com a vogal aberta (tó). No áudio analisado, a voz atribuída a Moraes a pronuncia com a vogal fechada (tô).
Um vídeo de um julgamento do STF, que pode ser visto aqui, demonstra que Moraes costuma pronunciar o sobrenome do colega da forma correta, ou seja, com a primeira vogal aberta.
Burgos destaca ainda que a narrativa do áudio tem características de conteúdos de desinformação.
"Há um exagero de vilão de HQ, de enunciar coisas, como o tamanho do contrato com a esposa e pedir pra 'arquivar isso aí'", afirmou.
Vale destacar que o vídeo foi publicado por uma conta que frequentemente divulga áudios falsos. O autor foi verificado pelo Estadão Verifica e pelo Comprova em outras ocasiões (aqui e aqui). Ele já havia manipulado a voz de Moraes em outra postagem (aqui).
Outras pessoas, como o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e o jornalista William Bonner também foram alvo de falsificações (aqui e aqui). O modo de atuação é sempre o mesmo: o autor das postagens se filma enquanto reproduz os áudios supostamente "vazados" no próprio celular. Ele costuma fazer críticas à personalidade usada.
Desinformação pega carona em fatos noticiados pela imprensa
Com a legenda "Bomba! STF e Banco Master!", o post circula após a publicação de notícias sobre conversas de Moraes com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, a respeito do Banco Master.
Os contatos foram revelados pelo jornal O Globo e confirmados pelo Estadão. Moraes nega a acusação e diz que tratou com o presidente do BC apenas sobre a aplicação de sanções financeiras pelos Estados Unidos.
O procurador-geral Gonet afirmou que não identificou a existência de provas concretas para apurar suspeitas de que o ministro teria pressionado o Banco Central e arquivou a investigação sobre o tema.
No ano passado, o Banco Central liquidou extrajudicialmente o Banco Master após o anúncio de uma operação de venda da instituição para o Grupo Fictor. A medida é tomada quando um banco não tem capacidade de honrar compromissos financeiros ou diante por infrações graves às normas que regulam o sistema financeiro.