Vídeos publicados no TikTok exploram a comoção e a falta de informações disponíveis sobre o caso das crianças desaparecidas em Bacabal, no interior do Maranhão, para espalhar informações falsas e conteúdos fabricados com inteligência artificial.
O Verifica encontrou postagens que diziam que os irmãos Ágatha e Allan já haviam sido encontrados, ou que eles teriam sido sequestrados por uma mulher. Há mesmo vídeos que simulam depoimentos do pequeno Kawan à polícia. Todos esses conteúdos são falsos.
Ao Verifica, o delegado Ederson Martins, da Superintendência Estadual de Investigações Criminais (Seic) contou que diversos boatos e teorias têm circulado sobre o caso e até atrapalhado a investigação.
Os irmãos Ágatha Isabelly, de 6 anos, e Allan Michael, de 4 anos, estão sumidos desde o dia 4 de janeiro. Eles tinham saído para brincar no Quilombo de São Sebastião dos Pretos, mas não voltaram para casa.
O primo deles, Anderson Kawan, de 8 anos, que também estava desaparecido, foi localizado no dia 7. As buscas pelas duas crianças seguem de forma ininterrupta.
Vídeos inventam depoimentos do menino Anderson Kawan
Vários dos vídeos analisados pelo Verifica inventam elementos do depoimento do menino Anderson Kawan. Um deles alega falsamente que a criança teria afirmado à polícia que os primos permaneceram na mata acompanhados de uma mulher identificada apenas como "Gorda" e que ela os alimentava com mangas.
Imagens feitas com uso de ferramentas de IA mostram diferentes representações das duas crianças desaparecidas acompanhadas de uma figura feminina. Um dos posts com essa afirmação somou 284 mil curtidas na plataforma. Outro teve mais 282 mil interações.
Na mesma linha, outro conteúdo no TikTok afirma que sequestradores libertaram Anderson Kawan para despistar a investigação e, assim, poderem fugir com as crianças que seguem desaparecidas.
Ambas alegações são falsas. Ao Verifica, o delegado Martins informou que Anderson Kawan não mencionou uma quarta pessoa quando relatou os fatos em depoimentos a equipes psicossociais e peritos criminais.
"As crianças entraram na mata sozinhas e se perderam. Em determinado ponto, as crianças menores não conseguiram mais acompanhar o mais velho (Kawan) e eles se separaram", relatou.
Ele acrescentou que a Polícia Civil não descarta qualquer linha de investigação antes da conclusão do inquérito, mas a possibilidade de envolvimento de outras pessoas é uma tese remota.
"A gente trabalha com o que a gente tem, com a informação principal que é a fala do menor que foi localizado", disse. "Em momento nenhum aparece uma pessoa alheia aos menores até o momento em que eles se separaram".
Roupas de crianças são encontradas durante buscas por irmãos desaparecidos do Maranhão
Checagens ajudam a conter ondas de desinformação nas redes
Outro vídeo fabricado com IA afirma que Kawan teria declarado que os primos permaneceram perto de um rio, mas que não haveria rio na região. Mas isso também é falso. O rio Mearim corta a área e Kawan foi localizado perto dele.
A criança citou dois pontos por onde teria passado com as outras duas, uma casinha e um lago. A casa, segundo o delegado, foi localizada pelas equipes de buscas. Também existe um lago, um pouco mais distante, próximo do rio Mearim. As buscas, segundo o delegado, estão concentradas nessas áreas.
Outros conteúdos associam o desaparecimento a rituais macabros, por terem sido encontradas velas na mata onde as crianças se perderam. O delegado explicou que o local é um quilombo onde se pratica religião de matriz africana, então é comum o uso de velas por algumas pessoas. Segundo ele, inexiste histórico de ritual macabro que possa envolver crianças na região.
O que se sabe até o momento
Os irmãos Ágatha Isabelly e Allan Michael brincavam com o primo, Anderson Kawan, em uma área de mata na região do Quilombo de São Sebastião dos Pretos, na zona rural de Bacabal, quando desapareceram.
Dias depois, Anderson Kawan foi encontrado nu por carroceiros, perto da área de mata no povoado Santa Rosa, a 4 km de onde desapareceu. Conforme a Secretaria de Estado da Segurança Pública do Maranhão (SSP-MA), ele está recebendo acompanhamento médico em um hospital de Bacabal.
A criança foi ouvida por uma equipe especializada do Instituto de Perícia da Criança e Adolescente (IPCA), que conduz as perícias psicológica e social. A secretaria afirma que não há qualquer indício de que o menino tenha sofrido violência sexual.
Um dia após Anderson Kawan ser localizado, uma bermuda e um calçado foram localizados e a Polícia Civil confirmou serem do menino. No dia 11, voluntários encontraram outras peças de roupa, mas familiares dos irmãos que seguem desaparecidos não as reconheceram como sendo das crianças.
Segundo o G1 Maranhão, ao longo da investigação, um homem ligado à família das crianças chegou a ser detido, mas a prisão não foi relacionada diretamente ao desaparecimento. Ele negou qualquer envolvimento com o caso.
Buscas pelas crianças e investigação continuam
A SSP-MA informou ao Verifica que as buscas pelos irmãos seguem de forma ininterrupta em Bacabal.
O Corpo de Bombeiros iniciou, com quatro mergulhadores, buscas subaquáticas em rios e lagos próximos da região em busca de vestígios.
O órgão informou que os bombeiros seguem realizando a varredura na região utilizando um aplicativo de geolocalização, que permite o mapeamento das rotas percorridas pelas equipes, além da localização imediata de agentes ou voluntários em caso de afastamento do grupo.
Com esse instrumento, os bombeiros percorrem aproximadamente 54 km² e, até o momento, mais de 60% da área foi verificada.
A força-tarefa mobiliza mais de 600 pessoas, entre policiais civis e militares, Força Estadual Integrada, Centro Tático Aéreo (CTA), Corpo de Bombeiros, equipes de Inteligência e Perícia Oficial e Exército. Estão sendo empregadas duas aeronaves para sobrevoo da área de mata, além de drones com tecnologia termal para buscas noturnas.