A reta final da eleição presidencial brasileira assumiu tom de "guerra santa" devido a boatos de que aliados neopentecostais de Flávio Bolsonaro pretendem revogar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Enquanto o senador tenta conter o desgaste junto aos católicos classificando o caso como notícia falsa, Luiz Inácio Lula da Silva aproveita a polêmica para consolidar sua liderança nesse segmento, evidenciando a profunda divisão religiosa que marca a disputa eleitoral.
Por Lucas Rizzi - A reta final da campanha eleitoral para a Presidência do Brasil ganhou ares de guerra santa, a apenas quatro dias de uma votação que pode colocar pela primeira vez um político neopentecostal no Palácio do Planalto.
No maior país católico do mundo, a campanha tem sido dominada desde sexta-feira (25) por boatos sobre uma suposta articulação de setores evangélicos próximos ao senador Flávio Bolsonaro (PL) para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.
O filho de Jair Bolsonaro chamou os rumores de "fake news" e tem dedicado os últimos dias a conter os danos no eleitorado católico, já tradicionalmente mais simpático ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cujo partido tem sua história intimamente ligada às comunidades eclesiais de base e à Teologia da Libertação.
Membro da Comunidade das Nações, igreja neopentecostal fundada no início dos anos 2000 e cujo pastor prega contra o culto mariano, Flávio apareceu em uma passeata em São Paulo com uma imagem de crochê da santa e participou de um podcast católico no qual comparou a polêmica com a facada sofrida por seu pai em 2018.
"Eu acho que eu posso considerar uma espécie de facada em mim essa fake news", disse o candidato. Mas a desconfiança em setores do catolicismo persiste.
"Essa questão não é fake news, ela é antiga", afirmou à ANSA Júlio Lancellotti, padre bisneto de italianos da Calábria e que é conhecido por seu trabalho de caridade com a população em situação de rua em São Paulo.
O sacerdote faz referência a um projeto de lei apresentado em 2007 pelo ex-deputado Victório Galli para retirar o título de "padroeira do Brasil" de Nossa Senhora Aparecida, transformando-a em "padroeira dos brasileiros católicos romanos".
A iniciativa foi arquivada pela Câmara em 2008, e Galli está sem mandato desde 2019, porém ele foi assessor especial da Presidência no governo Bolsonaro e agora é candidato a deputado federal novamente. "Então o projeto pode ser desarquivado a qualquer momento", acrescentou o padre Júlio, que já foi alvo de perseguições de bolsonaristas por conta de sua defesa da população em situação de rua.
Nossa Senhora Aparecida é talvez a maior expressão religiosa dos brasileiros, uma devoção iniciada em 1717, quando três pescadores encontraram uma imagem quebrada da Virgem Maria no leito de um rio. O tom escuro da estátua criou uma rápida identificação com a população preta e escravizada e a tornaria símbolo de um Brasil plural.
Hoje a imagem é guardada no Santuário Nacional de Aparecida, segunda maior basílica católica e maior templo mariano do mundo, e a data em homenagem à santa, 12 de outubro, é feriado nacional no país, onde ela já foi até tema de telenovela. "Nossa Senhora Aparecida faz parte da cultura brasileira, é um fenômeno de religiosidade popular que transcende a Igreja", explicou padre Júlio.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os católicos seguem majoritários no país, mas sua participação na população caiu para o mínimo histórico de 56,7% em 2022, com fatias percentuais elevados no interior profundo do Nordeste, a região mais pobre e mais lulista do país.
Já os evangélicos estão em ascensão e representam 26,9% do total, e a discrepância entre os dois grupos é cristalina: Lula lidera entre os católicos com 48% a 29%, de acordo com a pesquisa Quaest mais recente, enquanto Flávio prevalece entre os evangélicos com 46% a 27%.
Desde a crise sobre Nossa Senhora Aparecida, o petista cresceu cincos pontos entre os católicos, e o tema tem norteado seus últimos comícios. "Enquanto eu for presidente, ninguém vai avacalhar com Nossa Senhora Aparecida", prometeu Lula em Belém.