Reta final de campanha no Brasil ganha ares de 'guerra santa'

Santa padroeira do país têm monopolizado atenções de Lula e Flávio

30 set 2026 - 12h13
(atualizado às 12h36)
Resumo
A reta final da eleição presidencial brasileira assumiu tom de "guerra santa" devido a boatos de que aliados neopentecostais de Flávio Bolsonaro pretendem revogar o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida. Enquanto o senador tenta conter o desgaste junto aos católicos classificando o caso como notícia falsa, Luiz Inácio Lula da Silva aproveita a polêmica para consolidar sua liderança nesse segmento, evidenciando a profunda divisão religiosa que marca a disputa eleitoral.

Por Lucas Rizzi - A reta final da campanha eleitoral para a Presidência do Brasil ganhou ares de guerra santa, a apenas quatro dias de uma votação que pode colocar pela primeira vez um político neopentecostal no Palácio do Planalto.

Mulher segura imagem de Nossa Senhora no Santuário Nacional de Aparecida (SP)
Mulher segura imagem de Nossa Senhora no Santuário Nacional de Aparecida (SP)
Foto: ANSA / Ansa - Brasil

No maior país católico do mundo, a campanha tem sido dominada desde sexta-feira (25) por boatos sobre uma suposta articulação de setores evangélicos próximos ao senador Flávio Bolsonaro (PL) para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil.

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O filho de Jair Bolsonaro chamou os rumores de "fake news" e tem dedicado os últimos dias a conter os danos no eleitorado católico, já tradicionalmente mais simpático ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), cujo partido tem sua história intimamente ligada às comunidades eclesiais de base e à Teologia da Libertação. 

Membro da Comunidade das Nações, igreja neopentecostal fundada no início dos anos 2000 e cujo pastor prega contra o culto mariano, Flávio apareceu em uma passeata em São Paulo com uma imagem de crochê da santa e participou de um podcast católico no qual comparou a polêmica com a facada sofrida por seu pai em 2018.

"Eu acho que eu posso considerar uma espécie de facada em mim essa fake news", disse o candidato. Mas a desconfiança em setores do catolicismo persiste.

"Essa questão não é fake news, ela é antiga", afirmou à ANSA Júlio Lancellotti, padre bisneto de italianos da Calábria e que é conhecido por seu trabalho de caridade com a população em situação de rua em São Paulo.

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O sacerdote faz referência a um projeto de lei apresentado em 2007 pelo ex-deputado Victório Galli para retirar o título de "padroeira do Brasil" de Nossa Senhora Aparecida, transformando-a em "padroeira dos brasileiros católicos romanos".

A iniciativa foi arquivada pela Câmara em 2008, e Galli está sem mandato desde 2019, porém ele foi assessor especial da Presidência no governo Bolsonaro e agora é candidato a deputado federal novamente. "Então o projeto pode ser desarquivado a qualquer momento", acrescentou o padre Júlio, que já foi alvo de perseguições de bolsonaristas por conta de sua defesa da população em situação de rua.

Nossa Senhora Aparecida é talvez a maior expressão religiosa dos brasileiros, uma devoção iniciada em 1717, quando três pescadores encontraram uma imagem quebrada da Virgem Maria no leito de um rio. O tom escuro da estátua criou uma rápida identificação com a população preta e escravizada e a tornaria símbolo de um Brasil plural.

Hoje a imagem é guardada no Santuário Nacional de Aparecida, segunda maior basílica católica e maior templo mariano do mundo, e a data em homenagem à santa, 12 de outubro, é feriado nacional no país, onde ela já foi até tema de telenovela. "Nossa Senhora Aparecida faz parte da cultura brasileira, é um fenômeno de religiosidade popular que transcende a Igreja", explicou padre Júlio.

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Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os católicos seguem majoritários no país, mas sua participação na população caiu para o mínimo histórico de 56,7% em 2022, com fatias percentuais elevados no interior profundo do Nordeste, a região mais pobre e mais lulista do país.

Já os evangélicos estão em ascensão e representam 26,9% do total, e a discrepância entre os dois grupos é cristalina: Lula lidera entre os católicos com 48% a 29%, de acordo com a pesquisa Quaest mais recente, enquanto Flávio prevalece entre os evangélicos com 46% a 27%.

Desde a crise sobre Nossa Senhora Aparecida, o petista cresceu cincos pontos entre os católicos, e o tema tem norteado seus últimos comícios. "Enquanto eu for presidente, ninguém vai avacalhar com Nossa Senhora Aparecida", prometeu Lula em Belém.

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