Quando a aposta de um muda a vida de todos: o impacto das bets dentro das famílias

9 out 2026 - 07h21
Resumo
As apostas online retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras em 2024, gerando graves impactos emocionais e patrimoniais. O endividamento oculto corrói a confiança entre casais, sobrecarrega parceiros e resulta em separações e disputas judiciais, nas quais dívidas podem recair sobre cônjuges não apostadores. Diante do avanço do vício, que afeta a convivência familiar, o SUS disponibilizou atendimento online gratuito voltado à saúde mental de jogadores compulsivos.

Dados oficiais estimam que bets retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras no ano passado. Problema tendem a permanecer oculto, e, quando descoberto, dívidas podem ser enormes.Foi somente após uma crise de ansiedade sofrida pelo marido em novembro de 2025 que a empresária Fabíola (nome fictício), de 51 anos, descobriu que o homem havia feito um empréstimo de R$ 300 mil e gasto todo o valor em plataformas de apostas esportivas. A aprovação do crédito foi feita em nome da empresa do casal sem que a mulher soubesse.

"Alguns meses antes ele começou a mudar de comportamento e passou a ficar estressado com mais facilidade, eu imaginei que era porque a empresa estava registrando queda nas vendas. Em outubro ele me deu alguns papéis para assinar e falou que eram documentos da loja, sem me explicar certinho, por confiar demais nele, eu assinei e nem questionei", recorda a empresária.

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A crise de ansiedade fez com que o marido de Fabíola precisasse ficar internado por 24 horas em observação. Após ser pressionado pela mulher, ele contou que todo o valor adquirido junto ao banco havia sido gasto em bets. A situação fez com que Fabíola pedisse o divórcio.

"Eu perdi a confiança, e por isso não tinha como seguir. Foram quase 15 anos casados e eu não o reconhecia mais. Além do empréstimo, depois vi que havia gastos também no cartão de crédito, mas como era ele o responsável pelo financeiro da casa e da loja, eu não desconfiei", diz.

Por ser sócia da empresa, mesmo com o divórcio, Fabíola está tendo que arcar com parte da dívida. "É uma situação que bagunçou toda a minha vida. Além de estar morando sozinha e arcar com os gastos da minha casa, também estou pagando parte do empréstimo feito", acrescenta.

Mais brasileiros fazendo apostas online

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No dia 25 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou uma medida provisória (MP) que proibiu as bets no Brasil. A MP vale tanto para as apostas esportivas, quanto para os cassinos online, como o "jogo do tigrinho". Mas antes disso, os dados apontaram um aumento no número desse tipo de jogatina.

Um levantamento do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda dos Estados e do Distrito Federal (Comsefaz) divulgados em agosto, estima que as bets retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias brasileiras no ano passado.

Já uma pesquisa realizada pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) em parceria com o Datafolha mostrou o avanço das apostas digitais no país nos últimos três anos. Segundo o levantamento, 17% da população declarou ter feito apostas online em 2025, ante 15% em 2024 e 14% em 2023.

A pesquisa também identificou mudanças nas motivações dos apostadores. Ganhar dinheiro rapidamente em momentos de necessidade financeira foi uma das principais razões para apostar, mencionada por 39% dos entrevistados. Ao mesmo tempo, a parcela que associa a prática à diversão subiu para 32% em 2025, enquanto era de 26% nos dois anos anteriores.

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A aposta que compromete a relação familiar

Os números mostram a dimensão do fenômeno, mas não permitem determinar quantas famílias enfrentam conflitos ou endividamento em razão das apostas. Também não há números sobre divórcios motivados pelas bets.

"O impacto na família e na vida social é devastador. A falta de destinação daquele recurso para dentro de casa e para o orçamento doméstico vai corroendo as relações e causando conflitos", analisa Cristiano Costa, psicólogo e diretor de conhecimento da Empresa Brasileira de Apoio ao Compulsivo (Ebac).

As apostas online podem afetar os vínculos familiares não apenas pelas perdas financeiras, mas também pelo desgaste emocional provocado pela mudança de comportamento de quem aposta.

A ocultação de gastos, as mentiras sobre o dinheiro perdido, as promessas de parar de apostar que não se concretizam e a ausência em momentos importantes da rotina podem enfraquecer a confiança entre parceiros e familiares. Com o tempo, a relação pode passar a ser marcada por cobranças, discussões, vigilância dos gastos e insegurança em relação ao futuro financeiro.

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O familiar que não aposta também pode assumir uma sobrecarga emocional, ao tentar controlar a situação, cobrir dívidas ou evitar que o problema afete os filhos. Nesse contexto, a parceria dá lugar a uma dinâmica de desconfiança e conflito, na qual o dinheiro se torna um motivo recorrente de tensão.

"O cônjuge, por exemplo, pode começar a viver uma situação de permanente insegurança, ele não sabe se existem outras dívidas, se as contas estão sendo pagas, se houve empréstimos ou se o dinheiro da família está sendo de fato utilizado para apostar. E muitas vezes ele acaba assumindo uma função que não deveria assumir e vira fiscal da conta bancária, do cartão, do celular e do comportamento do outro", acrescenta Patrícia Gorisch, doutora em direito e pesquisadora do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM).

Em situações mais graves, o vício pode resultar na ruptura da relação conjugal e no comprometimento da convivência entre pais e filhos.

"Se o dinheiro destinado aos alimentos, à escola, ao plano de saúde, enfim, aos filhos de uma forma geral, começa a ser utilizado nas apostas, nós entramos no campo dos deveres parentais e da proteção da criança e do adolescente. Então é importante compreender que o prejuízo não é só financeiro. Ele pode ser afetivo, psicológico, conjugal e também familiar", destaca Gorisch.

A ponta do iceberg

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O uso do recurso financeiro familiar para apostas online pode passar por diferentes etapas. Primeiro, o apostador tende a usar o dinheiro destinado às despesas da casa, à educação dos filhos ou à manutenção de um negócio. Depois, a tentativa de recuperar o que foi perdido pode levar a novos gastos, empréstimos e uso de limites de crédito. Em situações mais graves, a família pode precisar vender bens, renegociar dívidas e adiar projetos de vida para cobrir os prejuízos.

O problema tende a permanecer oculto por algum tempo. Transferências pequenas e frequentes, empréstimos não comunicados ao parceiro e justificativas para explicar a falta de dinheiro podem dificultar a identificação da dimensão das perdas. Quando a situação vem à tona, o endividamento pode já ter atingido um nível difícil de administrar.

Foi diante de uma situação como essa que uma mulher conseguiu na Justiça uma decisão para que o marido deixasse a casa onde moravam juntos, em Jataí (GO). Segundo a ação, o homem desenvolveu um vício em apostas online, vendeu bens da família, contraiu dívidas, inclusive com agiotas, e colocou o patrimônio do casal em risco.

Além do afastamento, o juiz Daniel Maciel Martins Fernandes determinou a indisponibilidade do único imóvel do casal para impedir eventual negociação até o julgamento da ação.

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"Existe uma ruptura da própria confiança familiar. O cônjuge passa a não saber mais qual é a verdadeira situação financeira da casa. Isso gera conflitos, insegurança, discussões e também pode contribuir para essa ruptura de relacionamentos", diz Gorisch.

Apostas podem comprometer o patrimônio familiar

As perdas financeiras decorrentes das apostas podem comprometer o patrimônio familiar de diferentes maneiras, principalmente quando o dinheiro usado pertence ao orçamento compartilhado pelo casal.

O comprometimento patrimonial pode se estender ao cônjuge que não participa das apostas, dependendo do regime de bens adotado no casamento, da origem dos recursos e das obrigações assumidas durante a relação.

No regime de comunhão parcial de bens, o mais comum no Brasil, os bens adquiridos mediante pagamento durante o casamento, em regra, integram o patrimônio comum, ainda que estejam registrados em nome de apenas um dos parceiros. No entanto, se ficar demonstrado que os recursos não foram usados em benefício da família é possível afastar a responsabilidade do outro cônjuge ou companheiro, mas isso não é tão simples.

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"Há duas situações que dificultam essa defesa. A primeira é quando o outro cônjuge também assinou a dívida, por exemplo como coobrigado ou garantidor em um empréstimo bancário. A segunda é quando não há prova de que o dinheiro foi efetivamente destinado às apostas. Na prática, é comum que se presuma que a dívida contraída durante a união beneficiou a família", explica Caroline Pomjé, advogada da área de Família e Sucessões e professora da FGV Law.

No caso da Fabíola, o fato de o empréstimo ter sido feito em nome da empresa que era registrada no nome do casal e assinado por ela faz com que ela também precise lidar com o débito.

"O Supremo Tribunal de Justiça decidiu, no último ano, em 2025, que o cônjuge pode ser incluído na execução da dívida contraída pelo outro, e cabe a ele demonstrar que o valor não beneficiou a família, ou seja, quem não apostou precisa provar com extratos e transferências que o empréstimo foi parar na plataforma", acrescenta Ariadne Maranhão, advogada especialista em direito de Famílias e Sucessões.

SUS oferece atendimento gratuito para compulsão por apostas

Pessoas que enfrentam problemas relacionados a jogos e bets podem buscar atendimento gratuito no Sistema Único de Saúde (SUS). O serviço funciona de forma online e busca ampliar o acesso ao cuidado em saúde mental, principalmente para quem sente vergonha ou dificuldade em procurar ajuda presencial.

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As consultas acontecem por vídeo e fazem parte de um ciclo de tratamento onde cada paciente pode realizar até 13 sessões, individuais ou em grupo com familiares. O atendimento conta com psicólogos, terapeutas ocupacionais e médicos psiquiatras.

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