Davi Alcolumbre sofreu uma tripla derrota no Amapá com a eleição de Dr. Furlan para o governo e as vitórias de Rayssa Furlan e Lucas Barreto ao Senado, que superaram os aliados do senador, incluindo Randolfe Rodrigues. Embora a vitória de Furlan ainda dependa de julgamento no TSE, o resultado fragiliza o poder regional de Alcolumbre. Nacionalmente, o crescimento do PL, agora com um terço do Senado, fortalece a oposição bolsonarista e ameaça seus planos de presidir o Congresso a partir de 2027.
BRASÍLIA - O presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP), sofreu importantes derrotas eleitorais, neste domingo, 4. Embora não tenha concorrido - seu mandato vai até 2031 -, os três candidatos apoiados por ele para o governo do Amapá e para o Senado não foram eleitos. Contudo, uma reviravolta na Justiça Eleitoral não está descartada.
Alcolumbre também sofreu um revés no conjunto dos senadores eleitos Brasil afora, que vão renovar dois terços da Casa. As urnas consolidaram o PL como o maior partido do Senado, com um terço das cadeiras e força suficiente para negociar o comando do Senado.
Os amapaenses elegeram Antônio Furlan (PSD) para governador do Amapá, em primeiro turno. Ex-prefeito de Macapá, o candidato vitorioso desbancou o governador Clécio Luis (União) , que tentava a reeleição com o apoio de Alcolumbre.
Com 100% das urnas apuradas, Dr. Furlan tem 62,75% dos votos. Clécio, 36,97%.
Como mostrou o Estadão, esta disputa pelo Palácio do Setentrião era considerada a mais importante desde a criação do Amapá, em 1988. Os candidatos vislumbravam a chance de liderar um novo ciclo de desenvolvimento do Estado a partir do petróleo descoberto pela Petrobras na Margem Equatorial.
A produção de petróleo deve aumentar o PIB do Amapá em 61% nos próximos anos, segundo estimativas da indústria.
O Amapá concentra cerca de 70% dos eleitores nas cidades vizinhas de Macapá e Santana. A boa avaliação de Furlan em dois mandatos de prefeito o cacifou para superar o grupo político majoritário do Estado.
Apesar da definição em primeiro turno, o cenário ainda pode sofrer mudanças. É que um recurso contra a candidatura de Dr. Furlan está em tramitação no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com resultado em aberto.
O relator, ministro Dias Toffoli, votou para barrar o candidato, mas o julgamento foi suspenso por um pedido de vista do ministro André Mendonça. Caso o entendimento de Toffoli prevaleça no plenário, o Amapá pode vir a ter uma nova eleição para governador.
A três dias do primeiro turno, a Procuradoria-Geral Eleitoral se manifestou contra a candidatura de Furlan. Em manifestação ao TSE, a Procuradoria disse que ele "é o único candidato que concorre sub judice" e que o veto à candidatura dele deveria ocorrer antes da votação, por causa da "elevada probabilidade de indeferimento do seu registro".
"É inegável que a proclamação transmite ao eleitorado a percepção legítima de que o pleito transcorreu de forma regular e sem ressalvas, o que fará com que sua posterior anulação ocorra, por isso mesmo, de modo mais traumático, com provável instabilidade social", diz o parecer.
O Ministério Público Eleitoral pediu a cassação do registro da candidatura de Furlan por entender que ele renunciou ao cargo de prefeito de Macapá, em março, para escapar de um processo que poderia resultar na cassação dele, o que é vetado pela Lei da Ficha Limpa.
A defesa diz que o processo em questão só foi protocolado após a renúncia e uma fraude documental incluiu o documento no sistema da Câmara Municipal com uma data anterior.
O processo é baseado na decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que afastou Antônio Furlan da prefeitura, no âmbito de uma investigação por desvio de emenda parlamentar e fraude licitatória.
Dos 16 prefeitos do Amapá, 15 trabalharam pela reeleição de Clécio Luis, mas não conseguiram superar a preferência do eleitorado por Dr. Furlan.
Na campanha, o governador Clécio Luis atribuiu a opção da Petrobras em iniciar a exploração de petróleo pelo Amapá ao grupo político dele. Depois que a companhia confirmou o petróleo na Margem Equatorial, Lula foi ao Amapá, em gesto a Alcolumbre em pleno período de campanha eleitoral.
Furlan derrotou senadores de Alcolumbre
Os dois senadores eleitos no Amapá são a estreante Rayssa Furlan (Podemos), mulher do governador eleito, e Lucas Barreto (PSD), que concorreu à reeleição na chapa do casal. Ela recebeu 29,98% dos votos. Ele, 24,22%.
A dupla superou os candidatos da chapa de Clécio: Randolfe Rodrigues (PT) e Alliny Serrão (União), apoiados por Davi Alcolumbre. Eles tiveram, respectivamente, 18,55% e 9,68%.
O petista que ficará sem mandato a partir de 2027 é o líder do governo no Congresso. Serrão é a presidente da Assembleia Legislativa do Amapá.
Furlan teve o PL na coligação. Clécio, o PT. A disputa no Amapá, entretanto, foi pouco nacionalizada, e os candidatos evitaram explorar as imagens de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL).
O Estadão mostrou que uma parte do eleitorado amapaense não enxerga um benefício direto no protagonismo de Alcolumbre e Randolfe. Em 2022, o Amapá foi o único Estado da federação em que Jair Bolsonaro (PL) virou sobre Lula no segundo turno.
As dificuldades eleitorais de Alcolumbre já haviam sido identificadas na eleição de 2022, quando o senador foi reeleito. Ele teve 47,8% dos votos, contra 42,5% de Rayssa Furlan. Mulher do ex-prefeito, ela é médica e nunca tinha ocupado um cargo eletivo.
Alcolumbre tem futuro à frente do Senado ameaçado
O PL elegeu 19 senadores, neste domingo, 4, e terá um total de 28 das 81 cadeiras a partir de fevereiro de 2027. O número facilita o grupo a alcançar os 41 votos exigidos para formação de maioria simples no plenário.
Com o tamanho, o partido dos Bolsonaros iniciará a próxima legislatura com força suficiente para articular a eleição do próximo presidente do Senado e ameaçar o interesse de Davi Alcolumbre na recondução.
Alcolumbre vem travando uma das principais pautas dos bolsonaristas: o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Cabe ao presidente da Casa destravar pautar a proposta.