No Palácio de São Bento, Lula e Montenegro conversaram sobre a cooperação aeronáutica, ciência, tecnologia e inovação, além de questões relacionadas à imigração e ao combate à xenofobia.
Durante seu discurso, Lula não poupou agradecimentos ao primeiro-ministro pelo apoio de Portugal ao acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia, que entrará em vigor de forma provisória no próximo 1° de maio.
"O Brasil é um país que sempre disse que Portugal era a porta de entrada do Brasil para a União Europeia", declarou Lula. "Portugal ajudou o Brasil a fazer o acordo União Europeia-Mercosul, e agora sim nós conseguimos dizer que Portugal pode ser a grande porta da entrada dos interesses empresariais brasileiros aqui em Portugal", reiterou o presidente.
Antes de Lula, o primeiro-ministro português, Luís Montenegro, também abriu seu discurso evocando o compromisso. "Este acordo marca do ponto de vista histórico um momento a partir do qual o Brasil pode se projetar de forma mais objetiva e de forma mais profunda na economia Europeia e Portugal será um parceiro neste caminho da economia brasileira", declarou.
Por meio do tratado, Lula diz esperar que várias empresas brasileiras possam reforçar parcerias como Portugal, a exemplo da Embraer, que mantém presença industrial e institucional no país. "Portugal e Brasil vivem o seu melhor momento de relação", afirmou Lula.
Imigração brasileira
O presidente também apontou o grande número de cidadãos brasileiros vivendo no país: "pessoas trabalhadoras", destacou. Durante sua fala, Montenegro declarou que a comunidade brasileira "é expressiva" em Portugal, com "mais de 500 mil" cidadãos provenientes do Brasil vivendo em solo português.
"Os brasileiros têm vindo para trabalhar, para desenvolver seus projetos de vida, e têm tido uma integração social e econômica absolutamente impecável. O que não significa que não possa ter havido aqui ou acolá um foco de perturbação, o que é natural em um comunidade", afirmou, referindo-se aos casos de xenofobia registrados no país.
Para o premiê português, a comunidade brasileira é um dos exemplos do acolhimento do país a imigrantes. "Os estrangeiros que vivem em Portugal têm uma ligação extraordinária com a nossa vida social e econômica", destacou.
Segundo ele, o governo português regularizou mais de 235 mil processos de imigrantes brasileiros, "que no início do governo não tinham documento válido". "Hoje estão com uma cidadania integral e plena para poderem cumprir seus sonhos e seus objetivos", salientou.
Defesa da paz
A exemplo do que fez na Espanha e na Alemanha, Lula voltou a defender o multilateralismo e reformas no Conselho de Segurança da ONU e nas Nações Unidas. "Não é possível que você não tenha nenhuma instituição capaz de tentar contemporizar, harmonizar e acabar com as quantidades de guerras que nós temos no mundo hoje", declarou, lembrando que o planeta atravessa o maior número de conflitos desde a Segunda Guerra Mundial.
O líder petista ainda voltou a alfinetar o presidente americano, Donald Trump. "A gente vê todo santo dia declarações que eu não sei se são brincadeira ou não. O presidente Trump dizendo que já acabou com oito guerras e que ainda não ganhou o prêmio Nobel da Paz. Então é importante que a gente dê logo um prêmio Nobel para o presidente Trump para não ter mais guerra. Aí o mundo vai viver em paz tranquilamente", disse Lula.
Montenegro afirmou que mantém no plano político "uma intensa troca de informação e opinião sobre grandes questões". O premiê citou a defesa da paz, da estabilidade internacional e a "necessidade de termos uma voz ativa no contexto multilateral".
"Portugal e Brasil têm tido um caminho comum de afirmação da CPLP [Comunidade dos Países de Língua Portuguesa] e da afirmação da língua portuguesa com o Brasil a assumir conosco o processo que esperamos que seja bem-sucedido de trazer o português como língua oficial das Nações Unidas", ressaltou.
Protesto contra a visita de Lula
Nos arredores do Palácio de Belém, residência oficial do Presidente da República, António José Seguro, militantes do partido português Chega, da extrema direita, realizaram um protesto contra a visita de Lula. Participantes do ato exibiram cartazes com mensagens como "lugar de ladrão é na prisão". Entre os participantes do ato estava André Ventura, líder da legenda, e brasileiros que residem no país.
Na mesma região, um ato de defesa a Lula também foi realizado. A polícia portuguesa organizou um forte esquema de segurança, colocando uma tropa de choque entre os grupos rivais para evitar confrontos.
Portugal é a última etapa do giro de Lula pela Europa, que teve início na Espanha, no fim de semana, e passou pela Alemanha. O presidente também se encontrou pela primeira vez com António José Seguro nesta terça-feira. O líder petista foi convidado, mas não pôde participar, devido a outros compromissos, da cerimônia de posse do chefe de Estado português no último 9 de março.
Lula, a primeira-dama Janja, e sua comitiva retornam a Brasília no final desta noite.