As eleições deste ano no Brasil devem contar com um novo arsenal de ferramentas de inteligência artificial (IA), tanto para auxiliar candidatos em suas campanhas quanto para atrapalhar seus adversários — nem todas de forma legal.
A BBC News Brasil conversou com oito profissionais que atuam com marketing digital e testou plataformas que prometem realizar tarefas diversas de campanha — tanto as declaradas oficialmente quanto as do chamado "submundo" com IA, em ações que antes poderiam depender de uma equipe inteira.
Dentre as ações apresentadas pelos entrevistados, estão:
- O envio em massa de mensagens por WhatsApp e o "esquentamento" de números de celular para que pareçam de eleitores legítimos;
- A compra de seguidores e comentários em redes sociais;
- Criação e publicação automatizada em grande escala de conteúdos (texto, imagem, vídeo) gerados por IA nas redes sociais;
- Monitoramento e denúncia automatizados de possíveis violações eleitorais cometidas por adversários aos tribunais eleitorais;
- Obtenção e armazenamento em massa de conteúdo de mídias sociais (raspagem de dados), o que poderia violar regras das plataformas;
- Geração e publicação de conteúdos por IA, em texto e imagem, com disparo em massa em diversos perfis ao mesmo tempo.
A reportagem viu pacotes em painéis de venda de seguidores e teve acesso a demonstrações de plataformas.
Os nomes dos serviços que contiverem possível violação às regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não serão citados.
Comentaristas pagos
Um dos marqueteiros ouvidos pela reportagem, que atua em campanhas na Bahia, tem experiência no que descreve como uma plataforma para criar e gerir "personas digitais" — perfis falsos definidos antes de serem usados para circular nas redes. Ele chama essas personas de "neurobots".
Na prática, são pessoas que só existem nas redes sociais e podem engajar com candidatos para demonstrar popularidade e provocar discussões sobre assuntos específicos.
Ele afirma manter equipe de programadores, pesquisadores e uma rede de freelancers "todos remotos, espalhados".
O trabalho desenvolvido por ele envolve identificar características do candidato e do eleitorado, como idade, classe social, gênero, bairro e profissão, e também disparar mensagens calibradas para cada um desses grupos em diversas redes sociais.
Esses bots podem engajar com o candidato — e nem sempre de forma positiva.
"Eu posso colocar 40 militantes virtuais para falar mal dele [do próprio candidato]. E desses 40, depois eles retornam trazendo as coisas boas que ele fez até o momento."
Ele explica que os perfis não são aleatórios, mas criados e desenvolvidos com base em pesquisa prévia sobre a base eleitoral dos candidatos.
"Esse neurobot tem cara e crachá. Tem uma localização. Ele está localizado dentro de uma região."
A prática pode ser considerada ilegal. Uma resolução do TSE proíbe o uso, em propaganda eleitoral, de "chatbots, avatares e conteúdos sintéticos" para simular diálogo com candidato ou pessoa real.
"Você pode ter dez [perfis no] Instagram, você pode ter dez números de WhatsApp, você pode ter vários números de Telegram, Signal. Tudo depende da forma que chega e do que você quer alcançar. Se você quer fazer um estrago, você pode fazer um estrago", diz o marqueteiro.
Compra de seguidores
Um outro mercado do submundo digital que é aquecido durante o período eleitoral, embora não seja novo, é o da compra de seguidores e de engajamento para redes sociais.
Sites brasileiros e no exterior vendem pacotes cujo pagamento pode ser feito no Pix, cartão de crédito ou até criptomoedas. Em um deles, visto pela BBC News Brasil, é possível comprar mais de 1 mil seguidores com cerca de R$ 100.
O operador de um desses sites, morador de Minas Gerais, aceitou conversar com a reportagem sob a condição de não ser identificado.
Ele explica que os seguidores são pessoas reais, que ganham para seguir e interagir com páginas de quem compra os créditos.
"Hoje vem sendo cada vez mais impossível ter seguidores robôs, os famosos 'bots' — isso envolveria, por exemplo, uma estrutura física com milhares de celulares, milhares de chips, e hoje as operadoras de telefonia limitam a cinco números por CPF", diz.
O que substituiu os bots, segundo ele, foram plataformas de troca de engajamento, em que pessoas reais — geralmente em busca de complemento de renda — se cadastram, recebem moedas virtuais por seguir, curtir e comentar publicações de outras pessoas, e depois trocam essas moedas por seguidores próprios ou as sacam em dinheiro. Leia reportagem da BBC News Brasil sobre algumas dessas plataformas.
Esse tipo de engajamento artificial pode prejudicar a conta de quem o utiliza, se detectado.
Por isso, há também um outro uso menos conhecido: um profissional do setor que atua com a movimentação de militância digital em Brasília disse à reportagem que é possível comprar seguidores para um adversário, para colocar a conta desta pessoa em risco de ser banida ou até de perder o engajamento.
'Esquentamento' de números e disparo no Whatsapp
A campanha eleitoral de 2018 foi marcada pelo escândalo do disparo em massa de mensagens por WhatsApp. Disparos são mensagens enviadas de forma automatizada, geralmente com ataques a outros candidatos e até a divulgação de informações inverídicas.
O método de 2018, dizem fontes da reportagem, segue vivo em 2026, agora costurado a uma camada de IA generativa.
O operador de um desses sites afirmou que cada número de WhatsApp custa entre R$ 15 e R$ 20, e a vida útil varia entre um e três meses, dependendo de quanto tempo passou em "aquecimento".
"Depende do cliente, mas geralmente é a gente que faz o cadastro dos números e faz a aquisição deles", explicou.
"Esquentar" um número significa, segundo ao menos dois profissionais que oferecem o serviço, usá-lo de forma orgânica por um tempo antes da campanha, ao enviar e receber mensagens, entrar em grupos, enviar imagens etc., para evitar uma suspensão quando começar a ser usado para os disparos.
A ideia é driblar a fiscalização da Meta, responsável pelo WhatsApp, para que o número não seja derrubado.
"A gente já deixa, sei lá, 100 números aquecendo durante um mês. Quando eu for utilizar aquele número, ele já está bem mais preparado e a duração é maior", diz o operador.
O "aquecimento", segundo essas fontes, é, também, automatizado: outros assistentes do próprio sistema mandam mensagens para o número novo.
"Se eu coloco o número aqui [na plataforma] para aquecer, ele configura para que outros assistentes mandem mensagem para esse número. Ou, por exemplo, cadastro esse número num monte de grupos de WhatsApp. Quanto mais mensagem o número recebe, mais aquecido ele fica. Quando você posta status, quando você coloca uma boa descrição... tem várias maneiras de aquecer esse número", diz.
Questionado sobre a sustentabilidade desse tipo de negócio, já que o próprio WhatsApp tende a derrubar esses números, ele diz que está acostumado e já precifica o risco.
"A gente já tem experiência na área, uma metodologia que funciona e uma prévia de duração dos números. Quando a gente vai fazer um orçamento de disparo, de relacionamento, a gente já calcula a perda desses números e a aquisição de novos."
Procurada, a Meta disse que não iria se manifestar.
Monitoramento de violações eleitorais com IA
Um dos sites testados pela reportagem em uma versão de testes, o BankerJur, oferece a identificação de possíveis irregularidades e a geração por IA de denúncias formais contra perfis e publicações em redes sociais.
O usuário define palavras-chave ou páginas a serem monitoradas. A IA do sistema então cruza os conteúdos publicados que mencionam o termo ou a pessoa com diferentes legislações brasileiras e aponta potenciais violações legais.
Um menu permite filtrar os casos por tipo — calúnia, difamação, fake news, desinformação ou ataque reputacional, entre outros. Em seguida, a própria IA pode ser acionada para redigir a denúncia destinada às plataformas e ao TSE.
Um dos responsáveis pelo serviço, João Augusto Hummel, afirma que o objetivo é "o monitoramento de ações maléficas à comunicação institucional e governamental".
"Eu possuo uma IA jurídica que lê essas notícias e matérias e cria uma análise de risco", diz.
Ele promete ainda que será possível até mesmo gerar e enviar as denúncias aos órgãos competentes por meio da própria plataforma.
"Hoje isso é uma das principais estratégias políticas para o pós-eleição — porque vai ser o que vai impugnar as campanhas, vai ser o que vai ferrar com as campanhas. Hoje, o maior diferencial para a campanha é a rede social. O maior diferencial para o candidato é saber utilizar a rede social e o algoritmo para conseguir chegar no maior número de pessoas", diz Hummel.
Outro site que oferece serviços de monitoramento a candidatos com apoio de IA é o Polijetro, também testado pela reportagem.
A plataforma permite analisar postagens nas redes sociais e categorizá-las por emoção, como expectativa, confiança, raiva, tristeza, indignação, dentre outras.
A ideia é informar candidatos sobre o que estão falando nas redes e preparar respostas com apoio de IA.
"Essa narrativa é favorável ou contrária a mim? Eu posso decidir que eu posso fazer um contra-ataque, um reposicionamento ou um enquadramento dessa narrativa. Se for favorável, eu posso fazer uma amplificação, uma ancoragem, uma capitalização. Ele me dá uma ideia de como me posicionar e gera conteúdo de posts que eu posso copiar e colar na minha mídia social", diz Filipe Wesley, fundador da plataforma.
Outra função prometida pelo site é de detecção de deepfakes — fotos ou vídeos que simulam cenas irreais com uso de IA, o que pode incluir adulteração de falas de políticos, por exemplo.
"Nós fazemos a varredura das mídias sociais, encontramos links ou vídeos ou imagens ou áudios que podem ser deepfakes e automatizamos a análise. O detector já providencia um relatório forense para uso da campanha."
'Antes da IA eu não pegaria tanta campanha'
A estrategista política Carine Elpídio, que neste ano trabalha tanto com campanhas proporcionais quanto majoritárias, acredita que a IA tem um uso mais prático na análise de dados e na escala de trabalho.
"Antes dela eu não daria conta de pegar tantas campanhas pra fazer. Era tudo muito manual."
Uma das tarefas que a tecnologia tem ajudado é analisar mapas de voto e informações demográficas do Censo, para organizar lideranças ligadas aos candidatos com quem ela trabalha. Antes, conta, tudo era feito no Excel e agora, com inteligência artificial.
"Se eu faço uma pesquisa, automaticamente dentro da ferramenta a IA também já entende os dados dessa pesquisa e ela gera algum tipo de insight pra mim. Antes eu cruzava isso na mão."
Ela vê, no entanto, que algumas estratégias oferecidas por esses serviços têm limites e podem prejudicar os candidatos.
Compra de seguidores e impulsionamento de publicações artificiais, por exemplo, são um "desastre total" às candidaturas, afirma.
"Acaba com a campanha, destrói. Tem gente que compra, mas não tem noção do que está fazendo. O algoritmo ali já era."
Ela avalia que o que ainda conta é a presença constante de candidatos nas redes sociais, especialmente em vídeos que mostrem a pessoa falando.
"Ele [candidato] precisa ter muita presença digital para ser conhecido antes de qualquer coisa", diz. "Muito vídeo mesmo. O candidato falando, aparecendo, para o rosto dele aparecer o tempo todo."
Fim do 'gênio do marketing político'?
Para Fabio Malini, professor de Novas Mídias da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a inteligência artificial não cria sozinha uma campanha eleitoral, mas muda a escala e a velocidade com que tarefas antes feitas por equipes especializadas passam a ser executadas.
Uma das principais transformações, diz, está na possibilidade de transformar experiência acumulada em campanhas brasileiras em sistemas treinados para sugerir perguntas, respostas, estratégias de debate e reações a crises.
"Os treinos dos debates políticos, o que se vai dizer, o que se vai defender, muito possivelmente vão passar por modelos de treinamento", afirma. "Já não passa mais pela cabeça iluminada de um gênio do marketing político, de como vai ter a postura, como vai ser a pergunta."
Ele vê impacto especialmente forte no lado jurídico das campanhas. Ferramentas de monitoramento automatizado de redes sociais, segundo Malini, poderiam abastecer advogados com possíveis irregularidades de adversários e acelerar pedidos aos tribunais regionais eleitorais.
"Esse monitoramento contínuo, automatizado, de identificação, alimenta o setor jurídico de uma campanha política, que alimenta os TREs [tribunais regionais eleitorais]", diz.
Outras ferramentas oferecidas no mercado, porém, não necessariamente têm o efeito prometido sobre o eleitor, avalia. É o caso do disparo em massa pelo WhatsApp, prática que marcou a eleição de 2018 e segue sendo oferecida.
Para Malini, o envio de mensagens por números desconhecidos hoje tende a enfrentar mais resistência do público.
"O WhatsApp é um espaço de muita troca. Quando você recebe hoje algo de alguém que você não conhece, você tende a achar que é golpe", afirma. A sucessão de fraudes no aplicativo, diz ele, criou "uma espécie de vacina" contra conteúdos recebidos de contatos desconhecidos.
Mesmo assim, ele diz que o serviço continua tendo demanda porque parte do mercado político ainda acredita na "bala de prata" da última semana de campanha.
O efeito mais provável, segundo Malini, não é necessariamente mudar o voto, mas desorganizar a campanha atacada.
"Quando as coisas são disparadas pelo WhatsApp, você entra num campo privado em que você não tem o controle de quem recebeu aquilo", diz. Isso pode criar no candidato a percepção de que "todos estão falando" de um tema.
O pesquisador avalia ainda que o uso de comentários automatizados deve ser menos frequente em ataques a adversários e mais para inflar apoio ao próprio candidato.
Segundo ele, elogios em massa podem criar uma "percepção de maioria" com menor risco jurídico do que ataques diretos.
"É uma maneira de driblar a lógica jurídica", afirma.
"Quando se idolatra — 'ele é muito bom, ele foi muito bom prefeito' —, aquilo vai inundando a caixa de comentários, criando uma percepção de maioria baseada muito mais no amor do que no ódio."
Para Malini, o desafio para a Justiça eleitoral não será apenas identificar conteúdos falsos ou automatizados, mas responder ao volume de denúncias e publicações geradas com apoio de IA.
"Vai aumentar a velocidade de denúncia. E talvez os tribunais não estejam tão preparados para esse volume proporcionado pela IA", afirma. "O princípio, a lógica, é desacelerar a capacidade da Justiça de responder."