O escândalo de fraudes no Banco Master desencadeou uma severa crise institucional com impactos no STF e na política. A investigação aponta que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro repassou recursos a fundos ligados a Dias Toffoli e firmou contratos milionários com o escritório da esposa de Alexandre de Moraes, além de supostas interferências de ambos nos órgãos de controle. O caso atinge ainda Flávio Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro em repasses suspeitos para a biografia de seu pai.
Escândalo de fraude bancária que eclodiu em 2025 se espalha e alimenta maior crise da história do STF, além de lançar sombra sobre a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.No primeiro semestre de 2025, o Banco Regional de Brasília (BRB), ligado ao governo do Distrito Federal, começou a formalizar a compra do Banco Master, instituição privada controlada por Daniel Vorcaro que nos anos anteriores teve crescimento exponencial e se notabilizou por uma estratégia agressiva de captação de recursos. Nos meses seguintes, o tema da venda bilionária ficou confinado às páginas de economia de grandes jornais.
Reportagens levantaram dúvidas sobre a saúde financeira do Master e destacaram que o mercado financeiro estava em alerta. Alguns veículos apontavam conexões políticas de Vorcaro.
Mas o tema só ganharia robustez em 18 de novembro de 2025, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Compliance Zero, que indicava inicialmente que o Master era o centro de um esquema de fraudes que teria movimentado R$ 12 bilhões.
Na mesma data, o Banco Central, que semana antes havia bloqueado a venda do Master para o BRB, decretou a liquidação extrajudicial da instituição de Vorcaro. O banqueiro Vorcaro havia sido preso no dia anterior, horas antes de a operação ser deflagrada, ao tentar embarcar no Aeroporto Internacional de Guarulhos com destino aos Emirados Árabes Unidos.
Por alguns dias, as implicações políticas do caso atingiram especialmente a cúpula do BRB ligada ao governo do DF, mas não demoraria para que a amplitude das conexões de Vorcaro começasse a ser revelada e o escândalo ganhasse contornos nacionais, servindo de estopim para a maior crise da história moderna do Supremo Tribunal Federal (STF).
Ao todo, cinco ministros do Tribunal tiveram nomes envolvidos em menor ou maior grau no caso Master. O escândalo ainda arrastou diversos membros do Congresso. Mas três frentes principais do caso têm sido persistentes e vêm ganhando amplitude: as suspeitas sobre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes e a canalização de recursos de Vorcaro para a produção de um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, que lançou uma sombra sobre a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
Suspeitas sobre Dias Toffoli
Inicialmente, o caso Master ficou sob a tutela da Justiça Federal de Brasília. No entanto, no início de dezembro, o ministro Dias Toffoli, atendendo a um pedido da defesa de Vorcaro, decidiu que o processo deveria ficar sob a competência do STF. Toffoli ainda impôs sigilo total e, na posição de relator, passou a ser o único responsável por determinar diligências na investigação do escândalo.
Dias depois de Toffoli estender seu controle sobre o caso, jornais revelaram que o ministro estivera no final de novembro num jatinho ao lado de Augusto Arruda Botelho, ex-secretário Nacional de Justiça que estava atuando na defesa de um dos diretores do Master. O voo havia ocorrido em 28 de novembro, quando o ministro do STF foi a Lima, no Peru, para acompanhar a final da Libertadores. Toffoli assumiu a relatoria do Master na sequência.
Foi a primeira sombra de suspeita lançada sobre Toffoli no caso. Mais questionamentos viriam. Em janeiro de 2026, o ministro exigiu que o material apreendido em uma segunda fase da Compliance Zero fosse levado diretamente ao STF, impedindo que os investigadores analisassem livremente as evidências. Após pressão, recuou e autorizou a Procuradoria-Geral da República a guardar o conteúdo, mas com acesso restrito à PF. O movimento de Toffoli foi encarado como "atípico" por delegados.
Ainda em janeiro, o jornal O Estado de S. Paulo revelou ainda que o cunhado de Vorcaro havia comprado de dois irmãos e um primo de Toffoli a participação num resort no Paraná.
No mesmo mês, parlamentares e entidades civis começaram a protocolar múltiplos pedidos de impeachment contra Toffoli no Senado por crime de responsabilidade e flagrante conflito de interesse no caso. Em fevereiro, após uma reunião tensa e fechada entre os ministros do Supremo, Toffoli acabou deixando a relatoria do caso Master, que foi redistribuído para o ministro André Mendonça. No mesmo período, a divulgação de diálogos da reunião levantou suspeitas de que Toffoli teria gravado seus colegas de STF, algo que foi negado pelo ministro.
A partir de então, Toffoli deixou pelos meses seguintes os holofotes do caso. No entanto, em setembro de 2026, após o fim do sigilo do caso, novas suspeitas surgiram. Um relatório da Polícia Federal agora aponta a hipótese de que Dias Toffoli seria o "beneficiário final" ou o "proprietário de fato" de um fundo que teria recebido ao menos R$ 35 milhões do ex-banqueiro Vorcaro.
O mesmo relatório ainda aponta que foram identificados ao menos 12 registros de encontros presenciais planejados ou realizados entre Toffoli e Vorcaro entre o fim de 2023 e o início de 2025, além de 167 ligações telefônicas.
Por fim, a investigação também apura uma suspeita possível influência de Vorcaro sobre a atuação de Toffoli em um processo envolvendo precatórios bilionários do setor sucroalcooleiro. Todas as acusações ou suspeitas são negadas por Toffoli.
Suspeitas sobre Alexandre de Moraes
Paralelamente à revelação de suspeitas sobre Toffoli, uma segunda frente, que se mostraria ainda mais ampla para o STF, passaria a implicar o influente ministro Alexandre de Moraes, que nos últimos anos havia ganhado destaque como o relator do inquérito das Fake News, que havia emparedado o bolsonarismo.
Em dezembro de 2025, o jornal O Globo revelou publicamente as primeiras notícias de que o escritório da esposa de Moraes, Viviane Barci de Moraes, havia firmado em 2024 um contrato de prestação de serviços advocatícios para o Banco Master num valor que alcançaria valor cerca de R$ 130 milhões. O documento havia sido localizado no celular de Vorcaro durante a Operação Compliance Zero.
O jornal, mais tarde, apontou que Moraes havia procurado a cúpula do Banco Central para tratar do caso Banco Master. Já o jornal O Estado de S. Paulo indicou que o ministro ligou diversas vezes para o presidente do BC para discutir a venda do Master ao BRB. Moraes negou as suspeitas.
Por alguns meses, com Toffoli nos holofotes, as suspeitas sobre Moraes pareciam ter esfriado e surgiram questionamentos entre apoiadores do ministro se o contrato de fato existia, mas logo o ministro voltou a ficar em evidência.
Em março, começaram a surgir reportagens sobre suspeitas de mensagens de WhatsApp de Vorcaro para Alexandre de Moraes. Naquele mês, o jornal O Globo apontou que o banqueiro teria enviado mensagens a Moraes horas antes de ser preso pela primeira vez, em 17 de novembro.
No início de setembro, foi a vez de o caso ganhar contornos de convulsão no STF, quando o ministro André Mendonça, que assumiu o caso Master após a saída de Toffoli, retirar parte do sigilo do caso.
Primeiro, o jornal Estado de S. Paulo apontou a suspeita que Moraes esteve com Vorcaro ao menos seis vezes entre novembro de 2024 e agosto de 2025. Uma troca de mensagens agravou ainda mais a situação do ministro ao mostrar que Moraes editou o contrato milionário do escritório de sua mulher e teria opinado sobre listas de convidados de eventos do Master.
O escritório argumentou que seu setor de compliance consultou Moraes justamente para verificar se existia algum impedimento legal. No mesmo período, também foi revelada uma segunda proposta de contratação, de aproximadamente R$ 50 milhões, envolvendo o escritório de Viviane, mas que não chegou a ser formalizada.
Mais grave ainda foi a suspeita de que Vorcaro, dois dias antes de ser preso, perguntou a um número atribuído a Moraes: "Acha que segunda tenho que estar fora?". Ainda não se sabe o que o ministro respondeu a Vorcaro, mas documento sugerem que Vorcaro inicialmente pretendia viajar ao exterior em 18 de novembro, dia da deflagração da operação Compliance Zero, mas acabou antecipando a saída para o dia 17 depois da troca de mensagens.
Além das suspeitas envolvendo a fuga, Vorcaro teria pedido a Moraes que interferisse em seu favor junto ao diretor da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet.
As novas revelações acabaram por desencadear uma guerra entre Moraes e Mendonça no STF.
Nos dias seguintes, o próprio Mendonça, agora sob os holofotes, acabaria admitindo que teve um encontro com Vorcaro em março de 2025, além de ser alvo de questionamentos envolvendo contratos milionários de um instituto do qual era sócio com órgãos públicos. No entanto, o desgaste para Moraes se revelou maior. Inicialmente, Moraes tentou pedir uma investigação contra o colega, sem sucesso. O presidente da Corte, Edson Fachin, não só determinou que o pedido de investigação contra André Mendonça como retirou o Inquérito das Fake News da relatoria de Alexandre de Moraes - exceto para ações penais já em andamento.
Nesta sexta-feira (11/09), no entanto, Moraes requisitou ao presidente do STF a quebra do sigilo total do caso envolvendo Master e alegou "motivação política" de Mendonça. Na sequência, após um ofício da PGR que também pedia levantamento do sigilo,Fachin determinou que Mendonça cumprisse a medida.
As suspeitas sobre Flávio Bolsonaro
Além do STF, o escândalo Master lançou uma sombra sobre a campanha presidencial do candidato Flávio Bolsonaro. Filho "01" do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio se lançou a Presidência em dezembro. Inicialmente, sua candidatura foi encarada como uma mera manobra política. No entanto, o nome de Flávio começou a se mostrar viável em pesquisas.
Em maio, sua campanha enfrentou a primeira crise. Até aquele mês, Flávio negava publicamente qualquer relação com Daniel Vorcaro. No entanto, gravações reveladas pelo site mostraram o senador negociando diretamente o repasse de R$ 134 milhões com o banqueiro para a produção do longa-metragem Dark Horse, uma cinebiografia (extremamente ficcionalizada) sobre Jair Bolsonaro. As mensagens também mostravam Flávio tratando Vorcaro de maneira bastante próxima.
Flávio Bolsonaro acabou admitindo ter assinado um contrato de patrocínio privado em dezembro de 2024, alegando que se tratava de um negócio puramente particular, sem dinheiro público. No entanto, os altos valores envolvidos eram totalmente desproporcionais com produções semelhantes lançadas nos últimos anos.
Reportagens do mesmo período, apontaram que, do valor negociado, Vorcaro teria destinado aproximadamente R$ 61 milhões ao projeto antes da sua prisão. Ainda em maio, a imprensa revelou que Flávio confirmou ter se encontrado pessoalmente com Vorcaro depois de o banqueiro ter sido preso e posteriormente solto com tornozeleira eletrônica.
Em agosto, uma investigação apontou indícios de que o filme estaria sendo utilizado como uma fachada com orçamento superfaturado, e que parcelas milionárias canalizadas por Vorcaro haviam sido enviadas ao exterior simulando custos de distribuição e produção internacionais de forma ilícita.
No início de setembro, enquanto os holofotes se voltaram para as suspeitas de Moraes, a revista piauí publicou um relatório do Coaf mostrando que os repasses relacionados ao projeto do filme Dark Horse eram na realidade maiores do que os valores que Flávio havia admitido publicamente. No mesmo dia, o jornal Folha de S.Paulo mencionou um repasse adicional de R$ 8,5 milhões ligado ao projeto.
Posteriormente, com parte do sigilo do caso sendo levantado, foi revelado que Flávio Bolsonaro vem sendo formalmente investigado pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção no âmbito da sua atuação com financiamento de Dark Horse.
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