Moraes no centro de escândalo e rivalidade com Mendonça colocam Judiciário em xeque

Em Brasília, uma das avaliações mais recorrentes sobre a crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) é que está em jogo a própria credibilidade do Judiciário. Afinal, como os cidadãos vão cumprir as decisões de um poder acuado por denúncias e abalado por rivalidades internas?

3 set 2026 - 06h37
Resumo
Mensagens obtidas pela PF revelam negociações entre Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, e o ministro Alexandre de Moraes, deflagrando uma crise inédita no STF e expondo sua rivalidade com o relator André Mendonça. O caso aponta articulação de autoridades em favor do banqueiro, mas a corte tenta conter os danos internamente. Diante do cenário eleitoral e de parlamentares citados no escândalo, o desfecho de um eventual processo criminal ou de impeachment no Senado permanece imprevisível.

Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília

O ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Alexandre de Moraes, e o ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, André Mendonça, caminham antes de uma sessão do Supremo Tribunal Federal em Brasília, Brasil, em 2 de setembro de 2026.
O ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, Alexandre de Moraes, e o ministro do Supremo Tribunal Federal do Brasil, André Mendonça, caminham antes de uma sessão do Supremo Tribunal Federal em Brasília, Brasil, em 2 de setembro de 2026.
Foto: REUTERS - Adriano Machado / RFI

Não é de hoje que a crise do Banco Master provoca arrepios no meio político em Brasília. Mas as revelações trazidas esta semana elevaram o escândalo a um outro patamar, por arrastar de vez para o olho do furacão o ministro Alexandre de Moraes, evidenciando uma guerra interna na corte.

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Mensagens de Daniel Vorcaro, ex-dono do Master, que as investigações da Polícia Federal apontam terem sido endereçadas ao magistrado indicam contatos e negociações do banqueiro com Moraes durante a crise do banco, inclusive às vésperas da prisão de Vorcaro. O material, compilado pela PF a pedido do relator do caso, ministro André Mendonça, não permite ver as respostas que teriam sido dadas por Moraes, mas sugerem intensa articulação entre os dois, arregimentando autoridades em favor dos interesses do banqueiro.

O advogado e analista político Melillo Dinis considera que a instituição vive a maior crise institucional em décadas, encontrando paralelo em 1969, quando a ditadura militar decretou a aposentadoria compulsória de três ministros do Supremo.

Ministros apostam em 'banho-maria'

"Não sei se haverá uma solução a curto prazo, inclusive acho que vão tentar cozinhar isso em banho-maria. Eu creio que o Supremo aposta no ditado brasileiro de que os cães ladram, mas a caravana passa, acreditando na próxima crise como forma de redução dos impactos desta atual", avaliou. "Há muito, muito mesmo que se definir a respeito da disputa fratricida entre André Mendonça e Alexandre Moraes", ressaltou Diniz.

Na primeira sessão após as novas revelações, os ministros da corte agiram como se nada tivesse acontecido e o assunto não foi abordado durante os trabalhos públicos.

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A forma como as novas informações vieram à tona e também o recente depoimento de Daniel Vorcaro diretamente a um juiz auxiliar de André Mendonça, sem participação da Polícia Federal, elevaram as pressões sobre o relator caso, especialmente diante do cenário de disputa eleitoral acirrada entre os candidatos do PT e do PL.

O que pode acontecer

No caso de um eventual processo criminal, o julgamento de um ministro do STF cabe à própria corte, com denúncia a ser feita pela Procuradoria-Geral da República - cujo chefe, Paulo Gonet, é citado nas apurações da PF como nome sob influência de Vorcaro. No processo político, cujo desfecho pode ser um impeachment de Moraes, a responsabilidade de julgamento é do Senado.

Como há vários parlamentares citados na rede de influência de Vorcaro e uma eleição em curso, é difícil prever o que o Congresso fará com as novas denúncias que, em tese, poderiam fundamentar um processo para a retirada de Moraes da corte.

"Não é o perfil de Alexandre de Moraes sair do cargo, renunciar. E o Senado está envolvido na eleição, já que o mandato de  dois terços dos senadores termina agora - embora essa disposição possa mudar se houver pressão das ruas", ressaltou Dinis. "Entretanto, Alexandre de Moraes tem muito poder de fogo, já começou a haver uma reação numa escalada que não se sabe aonde vai dar", completou o analista, em referência à disputa com André Mendonça.

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