Paul Mackenzie, líder de uma seita apocalíptica no Quênia, foi condenado a 200 anos de prisão pelas mortes de um adulto e 190 crianças, enquanto 26 cúmplices receberam penas de até 160 anos. As investigações revelaram que o religioso forçava os fiéis a jejuarem até a morte, sob violência e isolamento na floresta de Shakahola, para "irem ao céu antes do fim do mundo". Mais de 400 corpos já foram encontrados em covas rasas na região desde a prisão do líder em 2023.
O líder de uma seita apocalíptica no Quênia, Paul Mackenzie, de 53 anos, foi condenado pela Justiça nesta sexta-feira (6) a 200 anos de prisão pelo assassinato de 190 crianças e de um adulto. O tribunal fixou a pena em 100 anos por homicídio culposo/comissivo por inanição e outros 100 anos por homicídios diretos. No mesmo julgamento, 26 cúmplices do religioso receberam sentenças que variam de 100 a 160 anos de reclusão.
As investigações do Ministério Público queniano demonstraram que Mackenzie liderava a Good News International Church, fundada e registrada formalmente em 2020. O grupo atraía fiéis de todo o país para um assentamento isolado na floresta de Shakahola, no sudoeste do território queniano.
Doutrinação, privação e covas rasas
O inquérito revelou que as mortes faziam parte de um plano sistemático de jejum forçado sob justificativas religiosas:
Inanição compulsória: os fiéis recebiam ordens para jejuar até a morte para garantir "ida ao céu antes do fim do mundo". O sacrifício começava obrigatoriamente pelas crianças da comunidade;
Violência contra desistentes: quando as vítimas resistiam ao jejum, a diretriz era imposta sob violência física severa, confinamento e bloqueio absoluto de acesso a água e alimento;
Rejeição a serviços básicos: os membros eram proibidos de matricular filhos na escola (classificada como "satânica") e de buscar assistência médica hospitalar, rotulada pela seita como "instrumento do diabo";
Rompimento social: convencidos pelo pastor, os seguidores vendiam propriedades, largavam empregos, destruíam documentos de identidade oficiais e mudavam-se definitivamente para as matas.
Mackenzie havia sido preso em 2023, após denúncia de que familiares haviam deixado os próprios filhos morrerem de fome dentro da reserva florestal a mando do religioso.
As escavações realizadas na área de Shakahola revelaram mais de 400 corpos enterrados em valas clandestinas. Devido ao avançado estado de decomposição dos restos mortais, apenas 26 vítimas foram identificadas formalmente por testes genéticos até o momento. A defesa do réu negava as acusações de coação, mas a Justiça considerou incontestável a responsabilidade penal direta do líder no massacre.