O Le Point descreve a eleição brasileira de outubro como decisiva para o país e para a região. A revista francesa afirma que o Brasil, vulnerável no novo cenário de disputa entre potências, enfrenta uma democracia abalada pela guerra cultural.
O texto apresenta a disputa como um novo confronto, ou um "eterno retorno", entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, agora por meio de Flávio Bolsonaro. Para o semanário, Lula, aos 80 anos, tenta se firmar como "defensor da soberania" e do vínculo com a China, enquanto Flávio Bolsonaro se apoia na figura paterna e enfrenta o escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acusado de fraude.
Instabilidade
Le Point detalha ainda a situação econômica: crescimento baixo, inflação elevada, déficit público e dívida alta. O país, segundo a revista, vive uma "mexicanização", com organizações criminosas controlando parcela significativa do PIB. O sistema político fragmentado e a polarização alimentam a instabilidade.
Para a revista, a postura internacional do Brasil, baseada no multilateralismo, é pressionada pela disputa entre China e Donald Trump, que impôs tarifas de 50% e depois 37,5% sobre produtos brasileiros. O acordo Mercosul-União Europeia, firmado em 1º de maio de 2026, permanece, segundo a publicação, limitado pela falta de ambição europeia e pelo "ressentimento histórico do Sul global".
Já o Les Échos adota uma leitura mais irônica ao destacar o desgaste de Lula após décadas de vida pública. O jornal observa que o presidente evita escolher um sucessor e insiste que "ninguém tem tanta experiência quanto eu". A publicação ressalta que, num ambiente dominado pela polarização, o eleitor vota mais contra do que a favor. O jornal também lembra que Flávio Bolsonaro, seguindo os passos do pai, foi atingido por suspeitas de corrupção, reforçando a sensação de que a disputa se apoia mais no medo do adversário do que em projetos claros.
A sombra de Trump
Para o Le Figaro, a campanha aparece sob a sombra de Donald Trump. O jornal destaca que o presidente norte‑americano apoiou candidatos de direita na região e impôs tarifas sucessivas ao Brasil, reacendendo tensões comerciais. Lula reage com a bandeira da "soberania", acusando Flávio Bolsonaro de incentivar Washington a prejudicar a economia brasileira. Segundo o jornal, o governo brasileiro chegou a negar vistos a representantes dos EUA para evitar "instrumentalização política" antes do pleito.
O Le Monde reforça esse quadro ao relatar a convenção do Partido dos Trabalhadores em São Paulo, onde Lula lançou sua campanha afirmando estar "em plena forma". O jornal descreve o ambiente de forte polarização, o peso da criminalidade e da corrupção, e lembra que tanto Flávio Bolsonaro quanto um dos filhos de Lula enfrentam investigações. A publicação também menciona o discurso do presidente sobre defesa militar e proteção das terras raras, num contexto de disputa geopolítica envolvendo China, EUA e Europa.