G7: Macron celebra 'gol' para a Ucrânia, mas Lula sai insatisfeito com resultado da cúpula

A cúpula do G7 encerrou-se nesta quarta-feira com a presidência francesa comemorando o resultado dos três dias de encontros de 15 chefes de Estado em Évian, que culminaram com a volta do apoio de Donald Trump à Ucrânia na guerra contra a Rússia. Mas, para o Brasil e outros países emergentes convidados a participar do evento, o encontro ficou marcado pelas profundas diferenças de visão sobre as crises internacionais.

17 jun 2026 - 19h53
(atualizado às 20h16)

Lúcia Müzell, enviada especial da RFI a Évian

À imprensa, o presidente francês, Emmanuel Macron, defendeu a escolha de acomodar os nove documentos  preparados durante o encontro ao gosto do líder americano."Nós nos comprometemos a aumentar as pressões sobre a Rússia, inclusive com o reforço das nossas sanções. A volta dessa mobilização é extremamente importante", frisou, em uma das diversas vezes em que citou os resultados em favor da Ucrânia.

Publicidade

Um deles, argumentou, foi o bom entendimento entre Trump e o presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, convidado a participar. O líder americano evocou a volta de sanções dos Estados Unidos ao petróleo russo, uma vitória para os europeus.

Cobrado pelas concessões feitas a Trump em troca de apoio, que incluíram um jantar exclusivo no Palácio de Versalhes, Macron alegou que o monumento é um instrumento diplomático que representa o poder da França, e fez uma alusão à Copa do Mundo. "No fundo, eu sou como os bleus: jogando em casa ou no exterior, meu objetivo é marcar gols. Voilà."

Para o Brasil, ar de déjà vu

Já do lado dos países emergentes, a cúpula teve um ar de déjà vu. "Está ficando um samba de uma nota só: quando os convidados chegam na reunião, os países do G7 já aprovaram os seus documentos", lamentou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao fazer um balanço bem menos otimista sobre a cúpula do que o anfitrião do evento. Esta foi a décima vez que ele participou da reunião do grupo de países industrializados.

Dos oito textos sobre os diferentes temas abordados em conjunto com as cinco nações convidadas este ano - Brasil, Índia, Quênia, Egito e Coreia do Sul -, o Brasil assinou apenas três, sobre a proteção de menores no ambiente digital, o combate ao tráfico de drogas e ao câncer. A Índia, parceira do Brasil no Brics, também recusou a maioria dos documentos. Apenas duas das declarações foram apoiadas por todos os países não-membros do G7.

Publicidade

Vazio ocupado pela China

Lula foi particularmente crítico ao tom adotado sobre a China nas discussões sobre os desequilíbrios macroeconômicos globais e acesso a minerais críticos. "Faz muitos anos que o Brasil faz licitação internacional e os Estados Unidos não participam. A União Europeia não participa. Quem participa? A China", evocou.

"A China ocupou um espaço que estava vazio. Nós queremos, enquanto Brasil, enquanto América Latina e terceiro mundo, sobretudo os países africanos, é que quanto mais países estiverem interessados em fazer investimento nos nossos países, em comprar os nossos produtos e estarem dispostos a contribuírem, participando da exploração e da industrialização e do enriquecimento da área de mineração, desde que seja dentro do nosso país, sejam bem-vindos", afirmou.

Para o presidente brasileiro, o crescimento econômico mundial, que leve ao desenvolvimento e o aumento do mercado consumidor também nos países do Sul Global, é parte importante da solução para corrigir os desequilíbrios denunciados pelo G7: em que a China produz e exporta muito para o resto do mundo, impactando as economias desenvolvidas.

"Para tentar acabar com essa discussão entre China e Estados Unidos, o mundo precisa crescer. Não adianta crescer só a Alemanha, os Estados Unidos, a França. É preciso crescer para outros países para que eles possam vender inclusive os seus produtos de maior valor agregado. Eu fiz questão de deixar claro na minha intervenção lá: é preciso vocês compreenderem que vocês precisam criar novos consumidores, que estão fora dos países de vocês. Então, façam investimentos", argumentou Lula.

Publicidade

Questionado pela imprensa brasileira a respeito dessas divergências, o francês Emmanuel Macron refutou a ideia de um "G7 antichinês". "Essa não é a posição da França. É inaceitável dizer isso", disse. "Simplesmente queremos reduzir nossa dependência. Mas não há conflito", frisou.

Encontro de Lula com Zelensky

Sobre a guerra na Ucrânia, a cúpula marcou uma ocasião para o presidente brasileiro voltar a dialogar com Volodymyr Zelensky, pela primeira vez desde setembro de 2025. Os dois tiveram uma reunião bilateral ao final dos compromissos oficiais do G7 em Évian.

Lula encontrou-se com Volodymyr Zelensky à margem das reuniões do G7 em Évian, na França. (17/06/2026)
Lula encontrou-se com Volodymyr Zelensky à margem das reuniões do G7 em Évian, na França. (17/06/2026)
Foto: RFI

Segundo Lula, foi "a melhor conversa" que ele já teve com o líder de Kiev. "Eu, pela primeira vez, senti o Zelensky com muita disposição de encontrar uma solução. Zelensky quer a paz e está dizendo que quer um cessar-fogo sem colocar nenhum pedido", contou, Lula.

"Eu agora assumi o compromisso de outra vez fazer o que eu já fiz, ligar para todos os membros do Conselho de Segurança da ONU. Eles são os responsáveis de garantir a paz ou a guerra entre Rússia e Ucrânia", prometeu, referindo-se aos chefes de Estado e de Governo de Estados Unidos, França, Reino Unido, China e Rússia.

Publicidade
A RFI é uma rádio francesa e agência de notícias que transmite para o mundo todo em francês e em outros 15 idiomas.
TAGS
Fique por dentro das principais notícias
Ativar notificações