O primeiro debate presidencial da Band entre Lula e Flávio Bolsonaro foi marcado por ataques e falta de propostas, especialmente no formato caótico do bloco inicial. Analistas se dividem sobre o vencedor: parte aponta que o senador pautou o confronto ao explorar denúncias e segurança, enquanto outros destacam o petista no tema da pandemia e na cobrança por transparência. Com ambos empatados nas pesquisas, o encontro deve ter pouco impacto decisivo, podendo ampliar abstenções e votos nulos.
O debate da Band foi marcado por fortes ataques entre os candidatos presidenciáveis e um formato "caótico", principalmente no primeiro bloco, afirmam analistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentaram diretamente pela primeira vez no domingo (18/10), após terem faltado aos debates marcados no primeiro turno.
Os entrevistados ouvidos pela BBC News Brasil se dividem sobre qual candidato teve melhor desempenho e avaliam que o confronto da Band terá pouco impacto na definição de voto a favor de um dos concorrentes, podendo até reforçar movimentos de abstenção e de votos brancos ou nulos.
Segundo o agregador de pesquisas da BBC News Brasil, ambos aparecem empatados na corrida, a uma semana da votação final.
O primeiro bloco começou com um formato de confronto direto, em que cada candidato tinha 15 minutos para falar livremente.
Na prática, a conversa sem qualquer moderação descambou com frequência para bate-bocas e ataques, em vez de um debate de propostas e ideias.
Segundo Yuri Sanches, diretor de Análise Política da AtlasIntel, o início do debate foi "nauseante".
"O eleitor independente, que às vezes é antibolsonarista e antipetista, sai com uma impressão realmente muito negativa. Foi um debate em que não houve nenhum tipo de propostas sendo discutidas, nenhum tipo de racionalidade", crítica.
Para o cientista político Lucas Aragão, da Arko Advice, o formato de confronto livre foi "inútil para o eleitor indeciso".
"Foi um modelo muito ruim, que favoreceu o ataque, favoreceu a ironia, e não as propostas. Acho muito difícil que o eleitor, pelo menos nesse primeiro bloco, tenha tomado algum tipo de decisão ou se sentido representado. Acho que o modelo não favoreceu a ninguém."
No saldo geral, porém, ambos consideraram que Flávio se saiu melhor que Lula ao conseguir dominar os temas do confronto.
O senador foi ágil em sua fala e fustigou o petista sobre as suspeitas que pairam sobre a atuação do seu filho Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha. Ele é investigado por tráfico de influência, ou seja, por supostamente ter atuado para favorecer empresas em negócios com o governo do pai.
Lula respondeu que acredita na inocência do filho, mas que a Polícia Federal investiga livremente em seu governo.
"Flávio esteve mais tranquilo e conseguindo tirar o Lula do sério. O que mais me chama a atenção é que o Flávio está conseguindo pautar o debate. O Flávio traz o Lula para os assuntos e o Lula não consegue levar o Flávio para os assuntos dele", disse Aragão, após o primeiro bloco.
O presidente, por sua vez, questionou sobre os cerca de R$ 134 milhões que Flávio negociou com Daniel Vorcaro, do Banco Master, para supostamente financiar um filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. O caso também é alvo de inquérito na Polícia Federal.
"Flávio conseguiu ter mais clareza nas falas, conseguiu articular melhor as suas perguntas e os seus golpes contra Lula, enquanto o Lula teve um desempenho sem repertório, um desempenho um tanto quanto perdido, repetitivo", avaliou Yuri Sanches.
Nos blocos seguintes, os candidatos puderam fazer perguntas um para o outro de forma mais controlada, sem que pudessem se interromper.
O formato foi mais "civilizado", nota Aragão, mas Flávio continuou dominando o debate, na sua avaliação.
Já o cientista político Rafael Cortez, da Tendências Consultoria, considera que o presidente se saiu melhor que o adversário, mas não vê "um claro vencedor do debate".
"Lula, ao longo do debate, se portou melhor. Teve como destaque uma comparação direta quando defendeu a abertura do sigilo bancário dos dois candidatos", afirma. Flávio não respondeu ao desafio de Lula.
Na sua leitura, porém, o petista não conseguiu "produzir um fato novo" para impulsionar sua tentativa de virada, já que Flávio teve maior quantidade de votos no primeiro turno.
Para Cortez, o candidato do PL teve uma postura "debochada e cínica", que pode afastar o eleitorado. Por outro lado, ele se beneficia do desejo de mudança, que parece prevalecer na sociedade no momento.
"Talvez, pelos diversos mandatos que o Lula já enfrentou, fica cada vez mais difícil para ele mobilizar no eleitor esse sentimento de continuidade, especialmente num cenário de polarização mais calcificada, mais apaixonada".
"Então, Flávio se ancora nisso, no antipetismo. Ele faz bem as menções a um desejo de mudança, com um linguajar acessível, mas me parece pouco convincente. Acho que a postura ficou excessivamente debochada".
Momentos negativos e positivos dos candidatos
Temas como corrupção, a relação do país com os Estados Unidos, segurança pública, saúde e diretos das mulheres foram abordados no debate.
Os analistas entrevistados destacaram como especialmente negativo para Lula o momento em que ele chamou Flávio de "malandro carioca", ofendendo potencialmente o eleitorado do Rio de Janeiro. O senador não deixou passar e criticou a fala do presidente.
Por outro lado, consideraram que o petista foi bem ao lembrar o desempenho do ex-presidente Jair Bolsonaro na pandemia de covid-19, quando seu governo desestimulou a vacinação e promoveu o uso de medicamentos sem comprovação científica. A fala forçou um mea culpa de Flávio.
"De fato, a saúde não foi uma área em que a gente teve o melhor resultado no governo do presidente Bolsonaro. Eu faço aqui esse mea culpa. Tivemos uma pandemia, dois anos de pandemia, uma coisa nova, que não sabíamos como enfrentar", disse o candidato do PL.
Já Flávio foi bem ao enfatizar a pauta da segurança pública ao longo do debate, avalia Lucas Aragão.
Em um desses momentos, questionou Lula sobre seu apoio ao direito a "saidinhas", quando presos podem visitar suas famílias em datas comemorativas, como Natal e Páscoa. O presidente defendeu a medida para presos com bom comportamento e disse que o objetivo da prisão é recuperar os criminosos.
"No tema de segurança pública, o Flávio foi inteligente em trazer o assunto sempre para destaque. É um assunto que tem impacto real na vida das pessoas, que é seguidamente citado como um dos temas mais importantes dessa eleição. Eu acho que aquele momento da saidinha foi bom para o Flávio", disse Lucas Aragão.
Por outro lado, o candidato do PL destacou-se negativamente por falta de propostas e por não responder a muitas das perguntas, afirmam os entrevistados.
Na avaliação de Aragão, Flávio fugiu mais dos questionamentos do que Lula ao longo do debate. Cortez tem visão semelhante e considera que o presidente faz uma campanha mais propositiva.
"Fundamentalmente, não há nenhuma exposição [de propostas por Flávio]. Basicamente, tergiversa, debocha. Enfim, não consegue enfrentar nenhuma discussão sobre política pública", critica.