Marcado por esqueletos de concreto abandonados por anos na Avenida Jornalista Roberto Marinho, na zona sul de São Paulo, o monotrilho da Linha 17-Ouro se encontra na reta final para inauguração. A previsão é de começar a transportar passageiros de forma parcial (com maior intervalo entre trens e em horário restrito) em março. A abertura, porém, ocorre com 13 anos de atraso. A obra deveria ter ficado pronta em 2013.
O contrato foi assinado em 2011, na gestão de Geraldo Alckmin. O projeto, porém, foi fatiado: a prioridade passou a ser um trecho menor, de oito paradas (ligando Congonhas apenas até a Avenida das Nações Unidas). "O monotrilho é mais barato e mais rápido para ser feito. O trecho vai ser concluído em 2013", disse o então governador na assinatura, em 11 de agosto daquele ano.
Procurada pelo Estadão, a equipe de Geraldo Alckmin diz que o prazo foi estipulado ouvindo o mercado e que a Lava Jato impactou as condições financeiras do setor, atrasando a obra.
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Depois da Copa, a Lava Jato
A Copa passou. O projeto perdeu o financiamento federal, válido apenas para entregas até o evento. E aí veio a Lava Jato.
As empreiteiras responsáveis pela construção (Andrade Gutierrez, CR Almeida e MPE) foram alvos da operação. Isso comprometeu a situação financeira das empresas, dificultando a obtenção de empréstimos, e os canteiros foram abandonados. Procurada, a Andrade Gutierrez não quis se manifestar. Já a CR Almeida e a MPE não responderam.
"A obra foi se arrastando ao longo do tempo, com um grande sofrimento para quem mora na região. A Avenida Roberto Marinho teve faixas interditadas, trazendo congestionamento, por anos. O abandono causou a degradação do entorno do canteiro. A população pagou um custo muito elevado pelo atraso", analisa Barbieri.
O Metrô de São Paulo anunciou a rescisão do contrato em 2016. A obra ficou parada por anos.
Novas trocas e paralisações
Para o engenheiro e mestre em Transportes pela USP Sergio Ejzenberg, atrasos como esses são compreensíveis, pela complexidade dos projetos de mobilidade. "Se alguma empresa quebra, se algum fornecedor descontinua seu fornecimento e acaba saindo do mercado, como aconteceu com os trens da linha 17, isso atrasa a obra."
A empresa inicialmente contratada para fornecer os veículos, a Scomi, faliu. O problema? A estrutura das vigas foi projetada para os veículos da marca. Monotrilhos de outras empresas teriam tamanhos diferentes. A reportagem não conseguiu contato com a Scomi.
O empreendimento só foi retomado em 2020 e, ainda assim, passou por novas trocas de empresas e paralisações.
A chinesa BYD foi contratada para a construção dos trens. Para isso, teve de adaptar seu monotrilho de forma a caber nas vigas que já haviam sido construídas para a Scomi.
"Tivemos de criar uma linha de teste na China, com os moldes da Linha 17, para conseguirmos adaptar o nosso trem. Gastamos horas e horas de engenharia. Fizemos inúmeros testes", explica Alexandre Barbosa, diretor técnico da BYD Skyrail, monotrilho da marca.
Barbosa explica que o trem da BYD é maior que o da Scomi, já a viga chinesa é mais estreita que a da empresa anterior. "Sem essa solução tecnológica, a Linha 17-Ouro seria uma catástrofe."
Agora, a construção está na fase final. A previsão é de que o público possa usar o monotrilho a partir de março de 2026, ainda sob operação assistida, com horários reduzidos e intervalo maior entre trens.
A linha será inaugurada com oito estações: Washington Luís, Congonhas, Brooklin Paulista, Vereador José Diniz, Campo Belo, Vila Cordeiro, Chucri Zaidan e Morumbi.
Custo
Em 2010, o projeto de 18 estações era orçado em R$ 2,9 bilhões, que seriam divididos entre os governos federal, estadual e municipal. A cifra representa R$ 7,1 bilhões, corrigidos pela inflação até dezembro de 2025.
O governo já gastou R$ 4,2 bilhões com a obra até outubro de 2025. A previsão é que o custo total chegue a R$ 5,9 bilhões para a conclusão apenas do primeiro trecho da linha (com só oito estações).
Para construir só oito estações, o governo de São Paulo gastou 83% do valor orçado em 2010 para 18 paradas.
"O monotrilho que era para ser uma linha rápida, barata e bonita é uma tragédia econômica com custos estratosféricos", resume Sergio Ejzenberg.
Resto do trajeto
O Metrô afirma que ainda há intenção de construir as outras dez estações, completando o trecho até as estações São Paulo-Morumbi, da 4-Amarela, e Jabaquara, da 1-Azul.
Em 2026, há previsão de contratar o projeto técnico para quatro dessas unidades: Panamby, Paraisópolis, Américo Maurano e Vila Paulista.
A expectativa é de começar a construção em 2029, com estimativa preliminar de entrega em 2031, informou ao Estadão o diretor de Engenharia e Planejamento do Metrô, Roberto Torres Rodrigues.