Mensagens enviadas pela soldado Gisele Santana mostram como o relacionamento dela com o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto vinha sofrendo desgaste e era marcado por desrespeito e falas machistas. A policial foi encontrada morta com um tiro na cabeça no mês passado. Nesta semana, o ex-marido dela foi preso suspeito de matá-la.
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O Terra obteve nesta sexta-feira, 20, acesso ao processo da Justiça MIlitar, que compila conversas entre o casal no mês de fevereiro. A mais recente é do dia 16, dois dias antes de Gisele ser encontrada morta.
"Eu cansei de tentar conversar com você sobre nós dois. Quem tá cagando e andando é você. Se pensa isso de mim realmente temos que separar, porque eu não confio em você nem você em mim. Isso porque você não passou um terço do que eu passei com você mentira e a falta de lealdade", escreveu a vítima em um aplicativo de mensagens.
O tenente coronel responde que "mulher comprometida tem que ter foto junto com o namorado, noivo ou marido. Para outros machos ver a foto juntos e já desanimar e cair fora. Eu contribuo com o dinheiro, sou o provedor. Você contribui com carinho, atenção, amor e sexo".
"Você falou aí que eu só falo em separar, é mentira. Você sabe que você está sendo hipócrita, porque quem pensa em separar não faz planos, eu fazia planos com você. Falava em casar, falava em trocar de casa, falava na aliança. A única coisa que eu te pedi era aliança e você não pôde providenciar. Então não fica me chamando de ingrata, porque tudo que você faz e fez eu não pedi. Eu agradeço, ajudou, mas eu não te pedi. E o que eu pedi você não fez, as coisas que eu peço para você você não faz. Então assim, não tem mais respeito", continuou Gisele em um áudio.
Ela aponta que a relação não tem mais respeito por parte de Neto. "Ontem você enfiou a mão na minha cara, sim, e você sabe que você fez isso. Você estava na pia lá, eu estava falando com você, você enfiou as duas mãos assim com o sinal de joinha na minha cara. Depois disso eu retribuí, você sabe que isso aconteceu", diz ela.
Em outra conversa Gisele anuncia a Neto que está "praticamente solteira". "Jamais será", responde ele.
"Achei que você era um príncipe, né? Cavaleiro, romântico, galanteador. Perdeu toda a essência do chaveco e me trata de qualquer jeito", finaliza a soldado.
Mensagens a amiga e ao pai
Nesta semana, a defesa da família de Gisele revelou outras mensagens enviadas pela vítima a seu pai e a uma amiga. Nas conversas, ela demonstra insatisfação com o casamento e com o comprotamento do tenente-coronel.
A investigação sobre a morte da soldado Gisele Alves Santana ganhou novos elementos nesta semana. O tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, ex-marido dela, já foi alvo de decisões judiciais e registros por ameaças, perseguição e assédio moral, incluindo uma condenação por abuso de autoridade contra uma subordinada. Além disso, mensagens enviadas por Gisele a uma amiga e a seu pai indicam que ela vivia um relacionamento conturbado e que planejava deixar o casamento por medo de violência.
Nesta terça-feira, 17, o Terra obteve acesso a um áudio enviado pela soldado a seu pai, em que ela pede ajuda para buscar uma casa mais próxima de sua família. De acordo com o advogado José Miguel da Silva Junior, este seria um indício de que ela planejava deixar o marido.
"Pai, pra mim é melhor aí na rua, entendeu? Quanto mais perto daí, melhor", diz a policial na gravação.
Já em mensagem de texto, enviada a uma amiga, Gisele se queixou de ciúmes excessivo por parte de Neto.
"Tem que controlar os ciúmes dele. Qualquer hora me mata. Fica cego", disse a PM.
Segundo o advogado da família de Gisele, o ex-marido da vítima tem um histórico de ameaças e perseguições contra mulheres. Registros policiais e decisões judiciais em que Neto esteve envolvido foram revelados pelo advogado à reportagem, e nelas constam episódios de ameaças contra ex-companheiras e denúncias de assédio contra policiais militares mulheres subordinadas ao oficial.
Em uma das denúncias, de 2010, "uma vítima, sua ex-mulher, diz que vem sofrendo vários problemas de perturbação de sua tranquilidade. (...) A ex-mulher se socorre de medida protetiva e diz o seguinte: 'o autor mantém vigilância sobre a vítima, impedindo que ela se relacione com outras pessoas, ameaçando inclusive de morte'", disse o advogado.
Em outra, Neto "decidiu movimentar quatro policiais femininas para outro local de trabalho como forma de punição, sem apresentar motivos legais para a transferência. Passando a perseguir o efeito feminino".
O advogado responsável pela defesa do tenente-coronel foi procurado pelo Terra para comentar a revelação das decisões judiciais e as mensagens de Gisele, mas ainda não se manifestou. O espaço segue aberto.
Morte da Soldado Gisele
Gisele foi encontrada morta com um tiro na cabeça em 18 de fevereiro, no apartamento do casal, no Brás, em São Paulo. Neto foi quem chamou a polícia. O caso foi inicialmente registrado como suicídio. A família contestou a versão e apresentou relatos de que relacionamento do casal era abusivo, levando a Polícia Civil a reclassificar o caso como morte suspeita, com início de uma investigação também por possível feminicídio.
Laudos periciais apontaram inconsistências, como lesões no rosto e pescoço, marcas de unhas, além do disparo à queima-roupa e a trajetória do tiro.
As Polícias Civil e Militar de São Paulo prenderam nesta quarta-feira, 18, o tenente-coronel da Polícia Militar Geraldo Leite Rosa Neto, de 53 anos, em sua residência em São José dos Campos (SP). A prisão preventiva do tenente-coronel tinha sido pedida à Justiça na terça-feira, 17, e foi concedida pela Justiça Militar.