Uma consulta médica motivada por dificuldades que se intensificaram após a pandemia levaram Luciano Gonçalves, de 41 anos, a um diagnóstico de tardio de Transtorno do Espectro Autista (TEA). Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo e docente do Instituto Federal do Tocantins desde 2014, o diagnóstico envolveu fases de surpresa, negação e reconstrução de sentido sobre a própria trajetória.
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"Eu sou um professor neurodivergente e não posso fugir dessa realidade. Com o conhecimento e as possibilidades do diagnóstico, fico mais seguro para ensinar de maneira transparente. Ou seja, o meu aluno sabe que ele está diante de um profissional diferente, com alcances e limites. A partir dessa lição, reforço que é possível começar a evoluir aos poucos", afirma em entrevista ao Terra.
Dados preliminares do Censo 2022 divulgados em 2025 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam cerca de 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista no Brasil.
Após o diagnóstico, Luciano se dedicou a escrever um livro intitulado Crônicas espectrais, notas sobre o TEA, no qual ele narra o processo de descoberta e compreensão de um diagnóstico tardio de autismo. Ele diz que o livro surgiu como uma forma de comunicação pessoal, pois queria explicar a familiares e amigos o período de silêncio e afastamento vivido durante a investigação clínica.
"A escrita sempre teve um papel central na minha vida. A partir dos sete anos de idade, escrever foi a estratégia de socialização utilizada para conviver em grupos. Durante décadas, essa relação se afunilou a ponto de eu me tornar um professor de português e de literatura brasileira. Quando o autismo entra na minha vida, eu me apego à palavra para começar a reorgarnizar tudo aquilo que eu acreditava ser. E era, desde o início. A escrita para mim, assim como para Drummond, é desejo, profecia, caminho", relata.
Questionado sobre o que ele acha que falta para que mais adultos busquem um diagnóstico, Luciano afirma que alguns elementos podem afastar essa busca por uma resposta, mas que um esforço feito coletivamente é de extrema importância.
"Dinheiro, conhecimento e organização são os principais elementos que me permitiram uma avaliação neuropsicológica. Hoje, temos dados oficiais que reforçam a importância do debate, da defesa de um tratamento multidisciplinar que atenda, de fato, o paciente em sua especificidade. Esse esforço precisa ser feito coletivamente", ressalta.
A psicóloga Lara d’Almeida, mestre em Psicologia Clínica e doutora em Distúrbios do Desenvolvimento, diz que os sinais de autismo se manifestam de diferentes maneiras na infância, na adolescência e na vida adulta.
Na infância, essas pessoas podem desenvolver atrasos na linguagem, comportamentos repetitivos mais evidentes, interesses restritos e alterações sensoriais significativas, enquanto na adolescência, quando as exigências sociais se tornam mais complexas, a camuflagem tende a se intensificar.
"Muitos adolescentes autistas aprendem a observar, copiar e reproduzir comportamentos socialmente esperados para reduzir rejeição e isolamento, frequentemente às custas de grande sobrecarga cognitiva e emocional. Na vida adulta, o colapso costuma ocorrer quando as estratégias compensatórias deixam de sustentar as demandas simultâneas de trabalho, relacionamentos íntimos, autonomia financeira e vida independente", explica.
Na percepção da especialista, dois obstáculos ainda são particularmente difíceis dentro da formação e da prática de parte dos profissionais da saúde mental e acabam influenciando diretamente nesses diagnósticos tardios. O primeiro é a limitação do letramento científico, enquanto o segundo é a resistência existente por parte da própria classe profissional.
"Para a população geral, isso cria uma dificuldade adicional: torna-se muito difícil entender em quem confiar quando os próprios profissionais transmitem mensagens incompatíveis sobre diagnóstico e tratamento. Sem um alinhamento mínimo sobre o que já está razoavelmente consolidado na literatura científica, o debate técnico passa a ser percebido apenas como opinião pessoal", acrescenta.
Na clínica, um dos erros mais persistentes é tratar o TDAH e o TEA como condições restritas à infância. Atualmente, existem evidências robustas demonstrando que o TDAH frequentemente persiste na vida adulta. No TEA, não há remissão do transtorno, segundo a psicóloga.
"O que pode ocorrer é o mascaramento ou a camuflagem dos sintomas, quando a pessoa suprime ou disfarça características naturais do seu funcionamento para se adaptar às expectativas sociais. Esse processo costuma ter custo neurológico e emocional significativo", complementa.
Entre os erros clínicos que podem ocorrer está o subdiagnóstico em mulheres em ambos os casos, pois os critérios foram construídos majoritariamente a partir de amostras masculinas, o que impactou diretamente a sensibilidade clínica para apresentações femininas.
"Estudos robustos mostram que mulheres frequentemente desenvolvem estratégias de camuflagem, por isso, recebem diagnóstico anos mais tarde, muitas vezes após acumularem hipóteses diagnósticas primárias de transtorno de personalidade borderline, depressão recorrente ou transtorno de ansiedade generalizada", enfatiza.
Em 2013, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5) deixou de tratar TDAH e autismo como condições mutuamente exclusivas. Atualmente, os dados indicam que entre 50% e 70% das pessoas com TEA apresentam TDAH comórbido. "Ignorar essa sobreposição frequentemente leva a formulações clínicas incompletas e planos terapêuticos menos eficazes", finaliza a especialista.