Primeiras impressões: GAC Aion UT é maduro e tem bom acerto para encarar o BYD Dolphin

Sem a agressividade típica dos elétricos, hatch surpreende pelo acabamento e espaço de sobra, mas enfrenta um mercado já dominado por marcas consolidadas

25 jun 2026 - 18h07

A Faria Lima tem dessas ironias urbanas. Foi justamente ali, no coração financeiro de São Paulo, onde a Baleia substitui o Touro de Wall Street como símbolo máximo de ambição, excesso e vaidade corporativa, que o GAC Aion UT mostrou que não precisa posar de predador para causar boa impressão.

No entanto, vendido por R$ 139.990 na opção de entrada e por R$ 159.990 na versão testada, a de topo, Elite, o hatch elétrico pode sofrer dos males do capitalismo. Isso porque ocupa a mesma faixa de preço do principal e mais popular rival: o BYD Dolphin, comercializado a partir de R$ 150 mil.

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Seu outro grande concorrente, o Geely EX2, sai por R$ 123.800. Tanto este último quanto o Dolphin já emplacaram mais de 10 mil unidades no acumulado do ano segundo dados da Federação Nacional Distribuição Veículos Automotores (Fenabrave). Bons números para produtos de marcas que já são reconhecidas pelo consumidor comum.

Portanto, a missão do GAC Aion UT não é nada fácil. A fim de se livrar das chagas do capital, precisa apresentar predicados que os rivais não têm. Jornal do Carro testou, ainda que por alguns minutos, o modelo e te conta o que achou acerca do veículo.

Ao volante do GAC Aion UT

Tivemos breve contato com o GAC Aion UT Elite. Ao volante por cerca de 30 minutos no denso trânsito da capital paulista, o hatch elétrico da GAC deixa uma clara sensação de que este não é um carro feito para impressionar pelo glorioso soco imediato no estômago.

O Aion UT não tem aquele "slingshot" comum em elétricos mais ariscos, nem entrega arrancadas capazes de provocar enjoo em quem está ao volante ou no banco do passageiro. Acelera de forma comedida, progressiva e bastante adequada ao uso urbano.

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O modelo traz motor elétrico dianteiro de 204 cv e 21,4 kgfm de torque, números respeitáveis para um hatch basicamente de porte médio. A versão Elite vem equipada com bateria de 60 kWh, promete 310 km de autonomia pelo Inmetro e acelera de 0 a 100 km/h em 7,3 segundos. O que chama atenção, contudo, não é o desempenho absoluto, mas a forma como a força é entregue. O Aion UT opta por ser previsível, suave e fácil de dosar.

Isso combina bem com a proposta urbana do carro. No anda e para paulistano, a calibração do acelerador ajuda a evitar trancos e torna a condução mais natural.

A suspensão também joga a favor. O conjunto formado por McPherson na dianteira e barra de torção na traseira foi claramente ajustado para enfatizar o conforto. Mesmo em pisos irregulares, remendos e pequenas imperfeições típicas da capital paulista, o Aion UT Elite absorve bem os impactos e transmite sensação de carro bem assentado. Não é molenga, nem passa a impressão de flutuar. A calibragem é equilibrada e conversa bem com a proposta familiar e urbana do modelo.

Outro ponto positivo está na direção. É firme, direta na medida certa e é muito bem conectada, com melhor papel do que se espera em um hatch elétrico voltado ao conforto. O volante, com empunhadura mais encorpada, não incomoda. Ajuda, aliás, a reforçar a sensação de controle, especialmente em manobras rápidas ou mudanças de faixa no trânsito pesado.

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Mesmo sem ajuste de profundidade da coluna de direção, a posição ao volante é facilmente encontrada. Na versão Elite, isso é facilitado pelo banco do motorista com ajuste elétrico, item que ajuda a compensar a limitação. O assento acomoda bem o motorista, que não precisa se adaptar demais ao carro. O encaixe acontece com naturalidade.

Algumas soluções incomodam

Mas nem tudo nessa interface é tão intuitivo. O ajuste dos retrovisores externos, por exemplo, segue uma solução que comum a outros carros chineses. Primeiro é preciso acionar o comando pela central multimídia e, só depois, fazer o ajuste por meio dos botões no volante. Funciona, mas transforma uma operação simples, que normalmente seria resolvida por um comando físico dedicado, em um pequeno procedimento.

Outro incômodo está na alavanca de seta. O comando não desarma automaticamente após a manobra, o que obriga o motorista a cancelar manualmente a indicação. Ou seja, se o condutor se esquece (o que é difícil), a seta segue acionada e o repetidor sonoro continua marcando presença na cabine. É algo parecido com o que acontece no GWM Ora 03. Embora não seja um defeito grave, é uma daquelas escolhas que conseguem transformar um recurso básico em lembrete sonoro de que alguém complicou o que já estava resolvido.

GAC Aion UT tem ótimo espaço interno

O Aion UT Elite impressiona pelo espaço interno. Com 4,27 m de comprimento, 1,85 m de largura, 1,57 m de altura e generosos 2,75 m de entre-eixos, ele tem dimensões que o colocam numa zona interessante. É o hatch do segmento com as melhores áreas para ombros, cabeça e pernas dos ocupantes. O entre-eixos longo, claro, favorece, sobretudo no banco traseiro, e ajuda a criar uma cabine mais arejada. Para famílias ou para quem costuma levar passageiros, é uma vantagem clara.

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O Android Auto funcionou sem travamentos, ponto importante em um carro que concentra tantas funções na tela. O Aion UT Elite ainda traz painel digital de 8,88 polegadas, internet 4G a bordo, atualizações remotas e função V2L, que permite usar a energia da bateria para alimentar equipamentos externos.

Na segurança, a versão Elite vem com seis airbags e a já citada câmera 360°, freio de estacionamento eletrônico com auto hold, controles de tração e estabilidade, sensores dianteiros e traseiros, monitoramento de pressão dos pneus e um pacote de assistências à condução que inclui piloto automático adaptativo, frenagem autônoma de emergência, monitoramento de ponto cego e assistente de permanência em faixa.

GAC Aion UT Elite
GAC Aion UT Elite
Foto: GAC/Divulgação / Estadão

O porta-malas tem capacidade divulgada pela GAC de 340 litros, mas aqui cabe uma ressalva. O número, ao menos no "olhômetro", parece não seguir o padrão VDA, método normalmente mais conservador e usado por parte da indústria para medir capacidade de carga. Mesmo assim, o compartimento é correto para o uso urbano e ainda tem a vantagem de trazer pneu sobressalente, item incomum entre elétricos.

Conclusão

No conjunto da obra, o Aion UT Elite passa a impressão de ser um carro mais maduro do que chamativo. Seu mérito está na calibração confortável, no bom acerto dinâmico, na facilidade de guiar e no bom nível de acabamento. Os deslizes existem, especialmente em decisões de interface que tentam parecer sofisticadas, mas acabam exigindo mais etapas do que deveriam e evidenciam o lado genérico do carro chinês.

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GAC Aion UT Elite
Foto: Divulgação / Estadão

Talvez o GAC Aion UT Elite não seja exatamente uma baleia como a da Faria Lima, ou uma Moby Dick. Até mesmo porque não engole o "golfinho" da BYD em desempenho. Ambos têm uma pegada parecida e mais urbana do que esportiva.

No entanto, pelo menos em dinâmica e conforto ao volante, o hatch da GAC parece superior. E vai além. O Aion UT dá a impressão de chegar mais bem acertado para o nosso mercado que os rivais Dolphin, o Geely EX2 e o GWM Ora 03. O hatch é dono de um conjunto menos dependente do exotismo e ao menos para o trânsito real de São Paulo isso já é mais que suficiente.

Resta apenas saber se os preços praticados serão competitivos o suficiente para encarar um segmento que já começa a ficar disputado. Porque acerto de produto ajuda, mas, nessa fatia do mercado, etiqueta ainda tem poder de veto.

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