Por décadas, o mercado automotivo iraniano sobreviveu em uma cápsula do tempo. Mesmo assim, dominado por derivados de projetos dos anos 1980 e 1990, dependente de estatais e limitado por sanções internacionais, o país teve 1,2 milhão de veículos vendidos em 2025. O volume é comparável ao da Itália.
No entanto, um novo elemento pode redefinir esse cenário. Em 2023, autoridades locais anunciaram a descoberta de um grande depósito de lítio na província de Hamedan, estimado em até 8,5 milhões de toneladas. Isso colocaria o Irã entre os maiores detentores do mineral no mundo.
Assim, as reservas potenciais de lítio, a aproximação com a China e a necessidade energética seriam capazes de possibilitar ao Irã um reposicionamento estratégico. O país poderia se transformar num elo relevante na cadeia global de baterias.
Mas o caminho é estreito. E ficou ainda mais incerto após o ataque conduzido por EUA e Israel no último sábado, que elevou o risco geopolítico em um setor que já operava sob restrições estruturais.
No curto prazo, inclusive, o impacto é imediato e operacional, afirma Fernando Trujillo, da S&P Global. "O efeito inicial tende a ser um choque operacional, com interrupções pontuais e aumento de custos, principalmente por logística, energia e incerteza", diz.
Mais preocupante, segundo o consultor, é o efeito sobre investimentos. "Esse ataque amplia um risco que já era estrutural por causa das sanções e pode criar um novo risco estrutural se a ofensiva continuar, com novos bloqueios e impactos na economia", salienta.
Hoje, a China é o principal parceiro comercial do Irã, sendo o maior comprador de seu petróleo e também o principal fornecedor de tecnologia industrial. Montadoras como Chery, BYD, Dongfeng e GWM já trabalham para tentar ocupar o espaço deixado por fabricantes tradicionais após o endurecimento das sanções dos Estados Unidos em 2018.
Todavia, a reação de quem faz aportes costuma seguir um padrão conhecido em ambientes de conflito. "Praticamente todos os investidores revisam, reduzem ou pausam sua exposição em cenários de escalada militar. Isso inclui os chineses", comenta Trujillo.
Nas ruas, contudo, ainda vê-se muitos carros da Peugeot. Muito popular no país, se valeu por anos de joint venture com a Iran Khodro. Não à toa, a primeira geração do 206, que chegou ao Brasil em 1999, teve inúmeras variantes no Irã.
Outro carro de muito sucesso no país é o 405. Comercializado pela Iran Khodro como Pars, o modelo, que tem suas origens na década de 1980, foi produzido por três décadas.
Futuro
Mais do que qualquer variável industrial ou tecnológica, o futuro do setor automotivo iraniano depende diretamente da geopolítica. Ao longo das últimas décadas, sanções, embargos e tensões diplomáticas moldaram a estrutura produtiva do país, limitando seu acesso a plataformas modernas, fornecedores globais e fluxos de investimento estrangeiro.
Se essas sanções forem flexibilizadas, fabricantes europeus podem retomar operações com relativa rapidez. Isso porque empresas como Peugeot e Renault mantiveram presença industrial relevante no país até 2018, quando o endurecimento das restrições forçou a saída abrupta.
Parte do legado ainda existe. Linhas de montagem e redes de fornecedores já estabelecidas reduziriam o custo e o tempo necessários para uma eventual reentrada.
No entanto, se o isolamento persistir (cenário considerado mais provável no curto e médio prazo), o caminho natural é o aprofundamento da parceria com a China. Até mesmo porque esse movimento já está em curso.
Algo similar aconteceu com a Rússia após 2022. Com a saída de montadoras europeias, americanas e japonesas, empresas chinesas rapidamente preencheram a lacuna. No Irã, o movimento pode ser ainda mais estruturante, já que o país mantém uma base industrial ativa e grande mercado consumidor.
Dessa forma, o setor automotivo iraniano pode evoluir para um modelo tecnologicamente dependente da China, mas com capacidade produtiva própria e certa autonomia operacional. A trajetória final dependerá, contudo, de como o país navegará em um mundo cada vez mais fragmentado por blocos geopolíticos e cadeias industriais regionalizadas.