Seis meses longe do trabalho. Para um pai que acabou de ter um filho, a ideia pode parecer ótima. Para o profissional que deixa projetos, prazos e uma equipe para trás, nem sempre a decisão é tão simples. O setor automotivo, apesar de ser tão masculino, ainda está longe de adotar como norma uma licença parental mais ampla.
Os homens são 76% da força de trabalho no segmento, segundo a pesquisa ESG e Diversidade no Setor Automotivo, realizada por Automotive Business com a coordenação técnica da MHD Consultoria. Apesar dessa presença tão ampla, só 5% das empresas adotam licença parental igualitária para homens e mulheres.
É o caso da Volvo Cars. Guilherme Galhardo, head de eletrificação e diretor de digital da companhia, entrou na empresa em setembro de 2020, quando a criação de uma política de licença parental igualitária já estava em discussão. A companhia implementou o benefício em 2021, permitindo que pais se afastassem por 180 dias.
Esse é o período oferecido apenas para mulheres nas organizações que aderem ao programa Empresa Cidadã do Governo Federal. No caso dos homens, a licença oficial seria de apenas 20 dias dentro da iniciativa.
Se afastar por seis meses ou não durante a licença parental?
"É algo tão maravilhoso que a gente fica pensando: 'Será que eu vou sair seis meses?' Estava em um momento de projetos na Volvo, então vem aquela dúvida de como lidar com isso. A cabeça fica focada no trabalho. Pensei se tirava ou não tirava", conta Galhardo.
A resposta veio, em parte, da própria chefia. Segundo o executivo, toda a direção da empresa o incentivou a usufruir integralmente do benefício.
"Friozinho na barriga sempre tem. A mulher não tem muita escolha, ela tem que tirar a licença. No nosso caso vem aquele pensamento: 'Será que meu trabalho vai mudar?'. Mas ninguém me desestimulou. Pelo contrário", diz, assumindo um conflito que é novo no mundo masculino, mas pelo qual as mães passam há muito tempo.
A política faz parte do Family Bond, programa global lançado pela Volvo Cars. No Brasil, são 24 semanas de licença remunerada para pais e mães, sem distinção de gênero e incluindo pais adotivos e famílias formadas por casais do mesmo sexo.
Na operação brasileira, que tem 60 funcionários, sendo 38 homens e 22 mulheres, 26,3% dos colaboradores do sexo masculino (dez profissionais) já usufruíram da política. No momento da entrevista, dois estavam em licença.
Quando seis meses fora do trabalho não viram seis meses fora da carreira
Para Rita Leme, head de recursos humanos da Volvo Cars para Brasil e América Latina, oferecer o benefício é apenas parte da equação. A outra é criar um ambiente no qual o profissional não tenha receio de utilizá-lo.
Isso exige planejamento, diz a executiva. Quando uma licença se aproxima, a empresa prepara a passagem das atividades e redistribui responsabilidades dentro da equipe. A ausência, reconhece Rita, pode aumentar temporariamente a carga de outros colaboradores, mas também cria oportunidades de desenvolvimento.
"No fim, todos os lados ganham. Muitos tiveram a possibilidade de aprender tarefas mais complexas e isso acaba gerando mais engajamento e comprometimento no time."
Sociedade está pronta para licença paternidade mais longa?
Galhardo diz ter encontrado esse cenário quando voltou. Durante sua ausência, integrantes da equipe assumiram novas responsabilidades e ganharam experiência. A empresa também relata um caso de um funcionário que usufruiu da licença quando era gerente e, posteriormente, foi promovido a diretor - portanto, sem qualquer impacto negativo no crescimento dentro da organização.
"A sociedade não está acostumada a ver um homem longe do ambiente de trabalho por seis meses. O que a gente promove é fazê-lo entender: vá tranquilo, aproveite. O business vai continuar na sua ausência", ressalta Rita.
Para Galhardo, a principal mudança foi menos abstrata. Com a licença, tarefas dos primeiros meses dos filhos, gêmeos, foram efetivamente divididas entre ele e a esposa. "A gente ia revezando as atividades. A mãe é muito mais demandada nesse período."
O afastamento também deixou marcas na rotina familiar depois do retorno ao trabalho. Galhardo conta que os filhos, hoje com 1 ano e 2 meses, sentiram a mudança nos primeiros dias em que o pai voltou à empresa.
"A gente ficava o dia inteiro junto durante a licença. Criou-se uma proximidade. A tarefa do banho ficou comigo e até hoje continua assim, por exemplo", diz. É uma oportunidade de aproximação dos filhos que ele não teria só com o afastamento garantido pela legislação brasileira, de cinco dias, que pode chegar a 20 dias para o homem no programa Empresa Cidadã.
Setor automotivo avançou, mas licença igualitária continua fora da curva
Números da pesquisa ESG e Diversidade no Setor Automotivo, da Automotive Business, mostram que as empresas avançaram em políticas relacionadas ao apoio a pais e mães entre 2021 e 2023. A licença igualitária, porém, permaneceu muito distante de ser regra.
Em 2021, apenas 2% das empresas respondentes ofereciam o mesmo período de licença para pais e mães. Em 2023, eram 5%. Em outras palavras, o índice mais que dobrou, mas ainda evidenciava que 95% não adotavam uma política igualitária.
Também cresceu de 6% para 11% a parcela de companhias que ofereciam licença superior à prevista pelo Empresa Cidadã. A adesão ao próprio programa, que incentiva a prorrogação da licença-paternidade de 5 para 20 dias, avançou de 35% para 52%, um salto de 17 pontos porcentuais.
Outros indicadores seguiram a mesma direção. Medidas para retenção de mulheres após a licença-maternidade passaram de 26% para 33% das empresas. Já o indicador relacionado à flexibilização da jornada aumentou de 24% para 44%.
Nem todos os números melhoraram. A parcela de empresas com creches, benefícios ou outras medidas de apoio à primeira infância caiu de 65% para 57%. Iniciativas para facilitar a amamentação passaram de 55% para 51%.
Os dados ajudam a dimensionar o tamanho da distância entre cumprir a legislação e chegar a um apoio mais amplo e igualitário a pais e mães.
Mudanças na lei da licença-paternidade
Atualmente, a licença-paternidade legal ainda é de cinco dias, e o Empresa Cidadã acrescenta outros 15 dias. No entanto, esse cenário começará a mudar em 2027. A Lei nº 15.371 entra em vigor a partir de 1º de janeiro e eleva o período obrigatório para dez dias.
A legislação prevê 15 dias a partir de 2028 e 20 a partir de 2029. Neste último caso, condicionado ao cumprimento da meta fiscal estabelecida na própria lei. O Empresa Cidadã continuará permitindo mais 15 dias além do período obrigatório.
Ainda será uma distância considerável dos 180 dias oferecidos pela Volvo. Para Galhardo, depois de passar pela experiência, a discussão é mais simples. "É genuíno. Não é algo para sueco ver", brinca, se referindo às origens da fabricante (que hoje faz parte do grupo chinês Geely). "Acho que a iniciativa deve ser divulgada e expandida, para que outras pessoas tenham essa possibilidade. Marca a nossa vida e marca a vida dos nossos filhos."