Caoa Changan Uni-T custa R$ 170 mil e estaciona sozinho, mas tem direção decepcionante

SUV médio rival de Jeep Compass e Toyota Corolla Cross tem bom custo-benefício e rodar que, embora ajustado para o nosso país, deixa a desejar

3 abr 2026 - 10h02

Costumamos ter certo cuidado com nosso primogênito. Mesmo que digamos o contrário, ele é, usualmente, o preferido. O queridinho. E parece que a Caoa Changan segue tal receita de proteção e carinho com o Uni-T, primeiro modelo da marca sino-brasileira a ser vendido e montado em nosso país. Todavia, como todo filho, o modelo vai decepcionar em algum momento.

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Importante, contudo, avisar aos navegantes que esta não é a primeira incursão da Changan no Brasil. A marca já esteve por aqui com auxílio de importador para vender veículos sob a alcunha de Chana.

Agora, nome distinto e aliança selada com a Caoa, a Changan pretende alçar voos mais altos. Não à toa, já começa a trabalhar com montagem local, em Anápolis (GO), e com uma robusta rede de concessionários. Muito graças ao parceiro local.

Parceiro este que já tem expertise em atuar com empresas de origem chinesa. A Caoa tem sociedade também com a Chery.

Caoa Changan UNI-T
Caoa Changan UNI-T
Foto: Divulgação/Caoa Changan / Estadão

Justamente por isso o Uni-T chega às revendas do Brasil por preço promocional de R$ 169.990, com ajustes próprios para o nosso mercado. É a já conhecida tropicalização, fundamental para que veículos tenham êxito em nossas vias fustigadas e agradem aos exigentes consumidores locais.

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Caoa Changan Uni-T tem custo-benefício 'matador'

E o SUV médio tem virtudes que o colocam em vantagem ante seus principais rivais, Toyota Corolla Cross e Jeep Compass. O preço é o primeiro deles. Já o segundo é a robusta lista de itens, com toda a sorte de equipamentos, que agradam a gregos e troianos.

Temos quadro de instrumentos e central multimídia com telas gigantes, assim como seis airbags, controle de cruzeiro adaptativo, câmeras 360°, alerta de saída de faixa e sistema de estacionamento autônomo. E mais: estaciona sozinho por meio de função na chave e ainda adiciona "cheirinho" à cabine.

Caoa Changan UNI-T
Foto: Divulgação/Caoa Changan / Estadão

O SUV médio também tem como grande vedete o visual externo. Se por dentro é genérico e muito bem acabado, como todo chinês asséptico, por fora o Uni-T parece "o melhor filho do mundo", um "tesouro".

A dianteira aposta numa grade trabalhada em elementos geométricos que formam um mosaico tridimensional. Tanto é que o SUV chama a atenção de longe. Mesmo.

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De lado, o Uni-T segue a cartilha de SUV-cupê, mas sem exagerar na pose. As rodas de 20 polegadas preenchem bem os arcos e as maçanetas da porta traseira ajudam a limpar a lateral, reforçando esse ar de gadget sobre rodas — solução que lembra o Honda HR-V, mas aqui aplicada com bem mais intenção estética.

Na traseira, o modelo deixa escorrer pelas mãos qualquer tentativa de ser discreto. E isso é um elogio. Lanternas divididas, spoiler em "V" bem marcado e, sobretudo, as quatro saídas de escape gritam esportividade.

Caoa Changan UNI-T
Foto: Divulgação/Caoa Changan / Estadão

Com 4,53 m de comprimento, 1,87 m de largura, 1,56 m de altura e 2,71 m de entre-eixos, o SUV flerta com o andar de cima. É o típico "compacto" que, na prática, invade território de médio sem pedir licença. O porta-malas, com 425 litros, acompanha essa proposta sem fazer feio.

Ao volante

O motor 1.5 turbo flex adaptado para o nosso mercado, de até 180 cv de potência, não impressiona pelo número isolado, mas pelo jeito que entrega força. O torque de 29,2 kgfm aparece cedo, a partir de 1.500 rpm e isso ajuda no uso urbano. No entanto, faltam arrancadas mais incisivas e as retomadas não são tão vigorosas quanto os números prometem.

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A transmissão de dupla embreagem e sete marchas segue lógica parecida. Não é das mais afiadas do mundo, mas passa longe de incomodar. Trabalha suave em boa parte do tempo e prima pelo conforto, mantendo o motor sempre numa faixa de torque mais cheia. Em condução mais apressada, até responde com alguma prontidão, mas sem aquela urgência que empolga.

Outro ponto que pesa é o consumo. Para um SUV com proposta moderna, motor relativamente compacto e todo o papo de eficiência que se espera hoje, os números ficam aquém. São 7,1 km/l na cidade com etanol e 10,5 km/l com gasolina. Na estrada, os números são de 8,6 km/l (E) e 12,4 km/l (G). Não chega a ser um desastre, mas bebe mais do que deveria e entrega menos do que promete.

Caoa Changan UNI-T
Foto: Divulgação/Caoa Changan / Estadão

E aí entra o acerto de suspensão, talvez o ponto mais interessante do conjunto. McPherson na frente e multilink atrás não estão aqui só pra enfeitar ficha técnica. O Uni-T filtra as irregularidades mesmo com o conjunto de rodas 20" com pneus 245/45 — que, diga-se, poderiam facilmente transformar o carro num pula-pula.

Não é o caso. Há um bom equilíbrio entre conforto e controle de carroceria, com a traseira ajudando a manter o carro assentado em curvas mais rápidas.

Mas nem tudo são flores nesse conjunto de rodagem. Os Pirelli P-Zero, largos e de perfil baixo, entregam boa aderência no seco, só que deixam a desejar quando o assunto é escoamento de água. Em dias chuvosos, como o do nosso contato com o SUV, há perda de eficiência na drenagem, sensação leve de flutuação em velocidades mais altas e início de aquaplanagem mais precoce do que se esperaria para um carro dessa proposta.

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Caoa Changan UNI-T
Foto: Divulgação/Divulgação / Estadão

A direção elétrica acompanha esse pacote com um acerto correto, ainda que sem grande comunicação. É leve no uso urbano — o que casa com o bom diâmetro de giro, que facilita manobras — e ganha pouco peso na estrada. Essa característica torna a direção mais anestesiada, em especial, na rodagem rodoviária e acaba decepcionando. Cumpre seu papel dentro de uma proposta que claramente não quer ser esportiva, apesar do visual provocativo.

Os freios dão conta do recado. Discos ventilados na dianteira e sólidos atrás seguram bem os 1.480 kg do conjunto, com respostas progressivas e sem sustos, mesmo em uso mais exigente. Nada de fading precoce, mas sentimos o pedal um pouco borrachudo em dados momentos.

Conclusão

No fim das contas, o Caoa Changan Uni-T é aquele tipo de carro que parece mais agressivo do que realmente é. E isso acaba sendo frustrante. O SUV até acerta ao entregar um conjunto coerente, com motor cheio em baixa, câmbio civilizado e suspensão bem resolvida, mas falta justamente aquilo que o visual promete.

É um SUV que tem uma carinha que te instiga a atacar curvas como um hot hatch disfarçado, mas atua quase no mesmo campo do utilitário anestesiado que só cumpre tabela. Fica preso no meio-termo, com alguma personalidade, mas sem conseguir esconder a sensação de que poderia (e deveria) entregar mais.

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Fica aquele gosto amargo difícil de tirar da boca. A decepção pesa mais que qualquer crítica pontual. Porque raiva você direciona, resolve, rebate.

A decepção repousa ali, silenciosa, corroendo as expectativas. E o Uni-T é exatamente isso. É um automóvel que promete muito, mas entrega menos do que faz parecer. E não tem nada mais frustrante do que um carro que poderia ser e escolhe não ser.

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