Jogos que colocam o jogador contra o tempo costumam criar uma tensão natural, mas poucos conseguem transformar isso em algo que realmente impacta cada decisão ao longo da jornada. Quando o avanço depende de escolhas difíceis e o tempo segue sem parar, cada ação passa a ter um peso maior.
Pathologic 3 trabalha exatamente nessa ideia ao colocar o jogador no centro de uma cidade à beira do colapso. A mistura entre investigação, sobrevivência e decisões constantes constrói uma experiência que exige atenção a cada detalhe, onde entender o que está acontecendo é tão importante quanto agir rápido.
Um médico contra o tempo
12 dias é o tempo limite que nosso personagem, o médico Daniil Dankovsky, possui para salvar uma cidade de uma praga que aparenta ser incurável. Mas, antes de se preocupar de fato com a cidade, Daniil chega ao local com outros planos, que era se encontrar com Simon Kain, que dizia saber o segredo da imortalidade. Com o tempo, descobrimos que ele foi assassinado.
Por conta desse incidente, a história de Pathologic gira em torno de como Daniil precisa lidar com a investigação do assassinato de Simon e, ao mesmo tempo, enfrentar o desafio de salvar a cidade dessa praga temível, com o tempo e a vida de todos em suas mãos.
A história e toda a narrativa nessa terceira entrada da série, que funciona como uma reimaginação da rota do personagem Bachelor do jogo original de 2005, são justamente o que sustentam toda a experiência. A construção do caráter e das motivações do personagem está em nossas mãos, e isso é um trabalho muito bem executado pela desenvolvedora. Mesmo com a falta de personagens secundários mais marcantes, Daniil consegue carregar a trama com facilidade.
Diferente dos outros Pathologic, principalmente do segundo que é o mais conhecido, as escolhas novamente têm um peso enorme. Cabe ao jogador decidir como lidar com os tratamentos e o avanço das pesquisas sobre a epidemia. Desta vez, também é possível voltar no tempo para revisar decisões, permitindo manter o fluxo dos 12 dias ou tentar uma abordagem diferente para determinadas situações.
Claro que essas escolhas de voltar no tempo trazem consequências. O conhecido efeito borboleta funciona aqui da mesma forma que em filmes e jogos como Life is Strange. Alguns eventos podem ser alterados, como decidir se um paciente deve ser internado ou não, enquanto outros simplesmente não podem ser mudados.
Essa mecânica de voltar no tempo é interessante na teoria, pois reforça o peso das decisões, mas na prática não funciona tão bem. O aparelho que permite isso tem limitações, e o jogo não deixa claro o que pode ou não ser alterado, o que pode gerar certa frustração.
Por outro lado, um sistema que funciona muito bem é o medidor de estado mental de Daniil. Ele se divide entre empatia e mania, representando o quanto o personagem está se mantendo lúcido ou se tornando paranoico. As escolhas nos diálogos influenciam diretamente esse medidor, e o jogador só percebe o impacto após as conversas. Exagerar em qualquer um dos lados exige o uso de remédios, que podem ser encontrados ao longo da exploração, já que isso afeta a forma como Daniil interage com o mundo.
Outro ponto que funciona bem é a divisão da história em 12 dias. Existe um senso constante de urgência conforme o tempo avança, já que é preciso coletar o máximo de informações possível para tentar conter a praga. Sempre fica a dúvida se tudo foi explorado antes de um dia acabar, o que leva o jogador a considerar voltar no tempo para revisar decisões.
A ausência de legendas em português do Brasil pesa bastante. Isso afeta principalmente quem queria dar uma chance ao jogo, já que toda a experiência depende de diálogos e escolhas, tornando a barreira do idioma um problema real para parte do público.
Somado a isso, o título sofre com problemas de desempenho nos consoles da Microsoft. Mesmo jogando no Xbox Series S, sendo o modelo mais modesto, as quedas de desempenho e até fechamentos inesperados chamam atenção, ainda mais considerando que o jogo não exige tanto em termos gráficos. É algo que poderia ter sido melhor trabalhado pela desenvolvedora.
Considerações
Pathologic 3 se destaca principalmente pela forma como trabalha sua narrativa e o impacto das decisões. O sistema de escolhas, aliado ao senso de urgência dos dias passando, cria momentos de dúvida constantes e reforça a tensão em cada ação tomada.
Por outro lado, alguns problemas acabam prejudicando a experiência, como limitações no uso da mecânica de voltar no tempo, a ausência de localização em português e questões técnicas no desempenho. Ainda assim, o jogo entrega uma proposta interessante para quem busca algo mais focado em narrativa e decisões com consequências reais.
Pathologic 3 está disponível para PC, PlayStation 5 e Xbox Series.
Esta análise foi feita no Xbox Series, com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela ID Xbox.