A Investigação Póstuma transforma obra literária em um mistério cativante do início ao fim

Jogo inspirado em clássico da literatura de Machado de Assis mistura escolhas, narrativa e um loop temporal que muda tudo a cada tentativa

31 mar 2026 - 11h29
A Investigação Póstuma transforma obra literária em um mistério cativante do início ao fim
A Investigação Póstuma transforma obra literária em um mistério cativante do início ao fim
Foto: Reprodução / CriticalLeap

Trazer obras clássicas da literatura para os games nunca é uma tarefa simples, ainda mais quando a proposta envolve adaptar personagens e universos já conhecidos por muita gente. O desafio fica ainda maior quando a ideia não é apenas recontar a história, mas criar algo novo a partir dela, respeitando sua essência.

A Investigação Póstuma segue exatamente esse caminho ao pegar a obra de Machado de Assis e transformar tudo em um jogo investigativo com identidade própria. A mistura entre narrativa, referências literárias e mecânicas de tempo cria uma experiência que vai além da curiosidade inicial e se sustenta pelo cuidado com cada detalhe.

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A saudosa investigação destas memórias póstumas

Em A Investigação Póstuma, acompanhamos um detetive que assume um caso após receber uma carta da própria vítima, Brás Cubas, relatando que provavelmente está morto e que precisamos investigar seu assassinato. Ao longo da trama, é preciso reconstruir os acontecimentos a partir de pistas, depoimentos e evidências deixadas para trás, fazendo com que a investigação vá muito além do que parecia no início.

Claro que essa investigação, que deveria ser mais um caso comum para nosso detetive, acaba se tornando algo muito maior, já que Cubas nos prende em um loop que só termina quando o caso for realmente solucionado, sendo ele o responsável por julgar se nossa investigação chegou ao fim.

O mais interessante da obra, além do próprio livro em que ela se baseia, é a presença de personagens de outros romances escritos por Machado de Assis dentro da trama como suspeitos. Alguns vêm de contos como “O Alienista”, outros de “Quincas Borba” e, claro, também há nomes de “Dom Casmurro”.

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Ter esses personagens de outras obras enriquecendo a trama e mostrando como os universos de Machado de Assis podem se conectar foi um acerto bem interessante da desenvolvedora, principalmente para quem teve contato com o autor na época de escola.

Foto: Reprodução / Matheus Santana

Jogos de investigação na indústria costumam seguir o estilo point and click. Dá para citar Sam and Max e Grim Fandango, clássicos que marcaram esse gênero, e esse aqui facilmente é mais um para sentar na mesma mesa quando esse tipo de discussão aparece.

A jogabilidade segue essa base, mas com uma apresentação lateral, em vez de cenários em 3D. O detetive caminha pelos ambientes, interage com personagens e observa pontos específicos do cenário, que ajudam a contextualizar o mundo e a época.

Por se passar no Rio de Janeiro em 1937, é comum ver pontos turísticos marcantes da cidade, como o Cristo Redentor ao fundo em várias áreas e os Arcos da Lapa, que ganham destaque dentro da estética noir adotada pelo jogo. A trilha sonora também ajuda bastante, com uma pegada de bossa nova que reforça essa identidade.

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Na parte investigativa, o jogo segue o padrão de conversar com personagens para obter novas informações e avançar no caso, tentando descobrir quem matou Brás Cubas e como ele sabia que iria morrer. Ainda assim, existe uma mecânica que dá um diferencial importante para a experiência.

Foto: Reprodução / Matheus Santana

Essa mecânica é introduzida justamente quando o detetive aceita o caso, mas só descobrimos isso quando dá meia-noite pela primeira vez. A partir desse momento, ele fica preso em um loop temporal, mais especificamente em um limbo. A única forma de sair é reconstruindo corretamente toda a linha do tempo até chegar à conclusão do caso. Tudo precisa ser resolvido dentro de 15 horas, e o ciclo se repete até que a solução seja encontrada.

Essa corrida contra o tempo é muito bem trabalhada. Praticamente tudo que o detetive faz consome tempo, até mesmo ficar parado ou revisar informações. Isso obriga a planejar bem cada ação, criando rotas mais eficientes para avançar na investigação. As descobertas se mantêm entre os loops, mas os itens precisam ser coletados novamente, o que pode exigir repetir certos caminhos para extrair o máximo de informação possível.

O grande destaque, além da narrativa e do universo construído, é o próprio Brás Cubas. A escolha de Rodrigo Lombardi para dar voz ao personagem foi muito acertada, e os momentos com ele no limbo são sempre interessantes. Mesmo quando algum loop termina de forma frustrante, essas interações compensam, já que o personagem foi muito bem adaptado para o jogo.

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Considerações

A Investigação Póstuma - Nota 9
Foto: Divulgação / Game On

No fim das contas, A Investigação Póstuma acerta principalmente na forma como adapta seu material de origem sem ficar preso a ele. A narrativa funciona muito bem, os personagens são bem utilizados e o uso do loop temporal dá uma identidade própria para a investigação, criando momentos em que cada decisão realmente importa.

Mesmo com a repetição de alguns trajetos e a necessidade de refazer partes do caminho, o jogo consegue se manter interessante pelo contexto que constrói. É uma experiência que conversa bem tanto com quem já conhece a obra original quanto com quem só quer um bom jogo de investigação, mostrando que dá sim para unir literatura e games de forma criativa e bem executada.

A Investigação Póstuma chega em 31 de março para PC. 

Esta análise foi feita com uma cópia do jogo gentilmente cedida pela Mother Gaia Studio.

Fonte: Game On
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