Enquanto a Copa do Mundo de 2026 mobiliza torcedores ao redor do planeta, um dos fenômenos mais curiosos do futebol mundial acontece a mais de 15 mil quilômetros do Brasil. Em Bangladesh, um país de cerca de 170 milhões de habitantes no sul da Ásia, milhares de pessoas escolhem um lado em uma rivalidade que, na teoria, não lhes pertence: Brasil ou Argentina.
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A paixão é tão forte que ruas inteiras são decoradas com bandeiras dos dois países, famílias se dividem e discussões futebolísticas tomam conta do país durante os Mundiais. O fenômeno é retratado no documentário Dhaka Vibra – Aventuras futebolísticas em Bangladesh, disponível no Globoplay, dirigido pelo cineasta brasileiro Rafael Bergamaschi.
A ideia do filme surgiu de forma inesperada, quando o diretor morava nos Estados Unidos. "Em 2021, eu morava em Nova York. E lá muitos dos motoristas de táxi, dos motoristas de Uber, eles são de Bangladesh. E quando a gente começava a conversar, eles ouviam que eu era do Brasil, e muitos deles falavam: 'Ah, em Bangladesh tem essa rivalidade, quando chega a Copa do Mundo, todo mundo é fã do Brasil e da Argentina. Tem irmãos que ficam o mês inteiro sem se falar porque um é torcedor do Brasil e o outro é torcedor da Argentina'", relembrou.
A história chamou a atenção do cineasta, que se interessou em mostrar o fenômeno inusitado nas telas. "Eu fiquei com aquilo na cabeça, achei muito divertido, engraçado, e eu nunca tinha ouvido falar disso. Decidi que queria fazer um filme a respeito".
Semelhanças entre países
Ao chegar a Bangladesh para as gravações, Bergamaschi esperava encontrar um choque cultural, mas foi surpreendido exatamente pelas semelhanças que o país tem com o Brasil.
"Estava esperando um choque cultural que nunca veio. De certa forma, eu cheguei em Dhaka, a capital, e eu me senti em casa. Na verdade, eu achei muito parecido com o Brasil, tanto em termos climáticos quanto na forma como as pessoas agiam, é um povo muito acolhedor".
O diretor também aponta que os bengaleses incorporaram a cultura do futebol assim como na América do Sul. “Eu percebi que eles realmente assumiram essa identidade e se apropriaram das nossas cores, da história do nosso futebol, dos nossos jogadores, de uma forma que, àquela altura, esses jogadores, esse futebol, essa história, eram tanto deles quanto nossos".
A identificação entre os países vai além do futebol. Rafael conta que a desigualdade social, o caos urbano, a corrupção e os locais afetados por desastres naturais como enchentes, também fazem com que Bangladesh e o Brasil tenham pontos em comum. Mas, assim como o Brasil, isso não é tudo que o país tem a oferecer. Para Bergamaschi, essa discussão está no centro da obra. "É um filme sobre olhar para o outro, olho no olho, sem nenhum tipo de preconceito, de superioridade".
O futebol tem um papel semelhante nesse cenário, assim como em outras partes do mundo. Rafael conta que em todo lugar o esporte tem a capacidade de fazer o público esquecer dos problemas, do estresse diário, ou qualquer outra situação difícil. No documentário, essa sensação aparece como um ritual coletivo.
Por que Brasil e Argentina?
Uma das perguntas mais frequentes sobre o fenômeno é por que Bangladesh desenvolveu uma ligação tão forte justamente com Brasil e Argentina, e não com outras potências do futebol mundial. Segundo Bergamaschi, a resposta está ligada à história.
"A questão do Brasil começou um pouco antes. O que eu aprendi é que eles aprenderam sobre Pelé já nas escolas. Nos livros escolares se falava do Pelé, dos feitos e da história pessoal dele também, que é uma história de superação".
Já a Argentina ganhou força algumas décadas depois. "A televisão a cores só chegou em Bangladesh nos anos 80. E essas foram as primeiras Copas que eles assistiram. Eles também viram Zico e viram Maradona. E eles se tornaram ídolos lá também. Principalmente o Maradona se tornou uma coisa muito grande".
Com o passar do tempo, a rivalidade virou até tradição familiar. "A partir disso, se torna algo geracional. É mais ou menos como aqui com os nossos times de futebol. Meu pai é palmeirense, então eu sou palmeirense. É um pouco assim".
Rafael conta ainda que os ídolos também foram se renovando com o tempo. Além de Pelé e Maradona, os fãs do esporte também exaltam Ronaldinho, Neymar, Messi, entre vários outros astros.
Copa do Mundo faz país ferver
O interesse dos bengaleses pelo futebol sul-americano não se limita às Copas do Mundo, mas é nesse período que os torcedores vibram com mais intensidade. Eles acompanham competições como Eliminatórias e Copa América, mas a Copa do Mundo é o momento mais esperado.
"Esse furor arrebatador é mais na Copa do Mundo mesmo", diz Rafael. Em tempos de Mundial, a rivalidade entre brasileiros e argentinos ganha uma dimensão maior, e talvez a principal explicação para isso esteja na conclusão que Bergamaschi tirou após a experiência.
"Eu acho que a lição é que nós somos mais parecidos do que diferentes. E que, se a gente buscar pontos de contato, a gente pode dialogar com qualquer um", explica.
Para o cineasta, o futebol continua sendo uma das linguagens mais universais do planeta. "Eu acho que o futebol, o esporte, ele tem essa capacidade de aproximar, de fazer com que a gente se lembre das nossas semelhanças, daquilo que a gente compartilha", conclui.
Documentário terá exibição em SP
Neste sábado, 4, o documentário Dhaka Vibra – Aventuras futebolísticas em Bangladesh será exibido e seguido por um debate no Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, às 15h. No dia 18 de julho, a mesma atividade acontecerá no Museu da Imigração.